quinta-feira, 22 de abril de 2021

 O PRESÉPIO

João Cândido Martins

1
Eram mais ou menos 4 e meia da tarde do dia 24 de dezembro de 2019. Minha mulher, J, passou por mim carregando sacolas e nosso filho, H, que dormia em seus braços. Ela parou junto à porta do apartamento e perguntou:

-João, você tem certeza que não quer passar a noite de natal conosco, na casa da minha mãe? O H ia gostar do pai por perto.

Como eu não respondi, ela comentou que o fato de estarmos nos separando não significava que eu precisava passar o natal sozinho ali no apartamento.

-É estranho - disse ela. -Você não fez contato com sua prima ou algum dos seus amigos. Com ninguém.

Eu disse que estava tudo bem. Pedi a ela que não levasse a mal, mas eu preferia ficar ali, sozinho.

Aguardamos o elevador em silêncio e, quando a porta de metal se fechou e eles começaram a descer, tive a sensação de que eu devia estar com eles, mas subi as escadas que levavam ao terraço e fumei uns dois ou três cigarros enquanto olhava o pôr do sol por trás dos prédios da avenida Visconde de Guarapuava.

Eu me sentia exausto. Há meses dormia de forma irregular. Mas isso não poderia me impedir de realizar o plano que elaborei alguns dias antes, quando decidi passar a noite de natal sozinho.

2
No apartamento ao lado acontecia uma festa com muitas pessoas, todas falando e cantando músicas anos 80, no que me pareceu um karaokê. No meio daquele alvoroço, uma gargalhada feminina se destacou. Há quantos anos eu não escutava alguém rir daquele jeito? 

Lembrei de mim mesmo, aos 6 anos em 1979, o rosto arredondado nos reflexos vermelhos, dourados e azuis das bolas espalhadas pelos galhos da árvore de natal. Não só os enfeites reluziam, mas todas as coisas emitiam alguma espécie de brilho. O chão, o céu, as plantas, meus pais, todas as pessoas. Havia o odor de carne assada que era acompanhado ao fundo por antigas canções de natal que saíam da vitrola da minha mãe.

O som das músicas natalinas diminuiu e se distanciou enquanto abri meus olhos e vi o computador ligado à minha frente. No apartamento ao lado, uma guria cantava com sotaque carioca: "isso é o que mais me agrada, isso é o que me faz dizeeeeeeer... Quevejofloresemvocê".

Decidi executar o plano. Peguei dois pacotes e desci até a rua. Ao chegar à calçada fui envolvido por um vento frio. Em poucos minutos, estava no estacionamento onde costumava guardar meu carro. O lugar estava escuro e vazio. Apenas um rádio permanecia ligado no escritório pra parecer que tinha alguém ali.

Abri o porta-malas do meu carro e lá estava o plástico com as roupas. Uma blusa e uma calça de agasalho, ambas velhas e encardidas. Vesti essas coisas e calcei um par de havaianas, também de aparência envelhecida. Fui até o vaso de plantas do estacionamento, molhei a terra, mexi e passei o barro no rosto. E também um pouco nos meus dentes, pra eles parecerem estragados. Enxuguei-me na blusa mesmo, eliminando o excesso de sujeira. Vesti um boné e concluí o disfarce me envolvendo com um cobertor sujo. Meus pés brancos brilhavam no escuro. Passei um pouco de graxa neles, peguei os pacotes, escondi embaixo do cobertor e saí do local. 

3
Atravessei a avenida Visconde de Guarapuava e logo cheguei à penúltima quadra da rua General Carneiro, a quadra que antecede o Mercado Municipal. O lugar só tem comércios e depósitos. Árvores frondosas escurecem a calçada do lado direito da rua, o que atrai moradores de rua que dispõem colchões naquele espaço. 

Andando lentamente e com os pés arrastados, me juntei ao grupo. Tentei transmitir o olhar de alguém que passou por muitos constrangimentos e fracassos na vida. Creio que fui convincente, pois eles me receberam com educação e cheguei a ganhar dois cigarros. Algumas rodas de conversa se distribuíam ao longo da calçada e havia os que dormiam, alheios a tudo em seus colchões. 

De longe, avistei a família que eu estava procurando. Eram indígenas que perambulavam há alguns semanas pela região. Um casal e dois filhos, um deles com a idade aproximada do meu filho, H. Eu os observava há algum tempo. 

Eles estavam um pouco mais afastados, numa parte iluminada da quadra, sozinhos. O pai estava sentado em silêncio ao lado da mulher que se mantinha ocupada confeccionando uma cesta de palha. As crianças brincavam ao lado. O menino menor lembrava vagamente meu filho. Perguntei ao pai se podia me sentar ao seu lado. Ele concordou, mas me olhou com desconfiança. Ofereci a ele um dos cigarros que ganhei. Fumamos em silêncio por um tempo.

Pra quebrar o gelo, comentei que a cesta da mulher estava ficando bonita. Ela sorriu com os olhos e o marido, que devia ser uns dez anos mais novo que eu, disse:

-Somos Kaingangs. Cada cor da cesta tem um significado. Conhece os Kaingangs? 

Respondi que sim e comentei que nos anos 90, quando eu tinha família, casa e emprego, dormi duas noites numa aldeia Kaingang. Fiquei preso lá por causa de uma enchente. 

O pai indígena afirmou que foram eles, os Kaingangs, que criaram o nome Curitiba.

-O nome da cidade vem da nossa língua. Não tem nada dessa história de "muito pinhão". Curitiba significa "Vamos embora" - afirmou. 

Pensei em falar que essa teoria foi refutada pelo Romário Martins e outros, mas não queria que ele desconfiasse que eu não era um morador de rua.

O menino que lembrava meu filho se aproximou e perguntou se eu tinha um isqueiro sobrando. Ele carregava um saco cheio de isqueiros velhos. Dei a ele meu isqueiro e, pela primeira vez o pai sorriu para mim.

-Vocês já comeram? - perguntei.

-Meio dia a gente comeu um macarrão que eu consegui com o pessoal do Mercado Municipal. Mas acabou. Se você tá com fome, tem duas bolachas aqui - disse ele me oferecendo um saco praticamente vazio. 

Falei a ele que à tarde ajudei a descarregar umas caixas de um caminhão e, com o dinheiro que ganhei, comprei comida. Mostrei os dois pacotes. Dentro deles, marmitas com arroz, feijão, batatas, dois bifes e um pouco de salada. 

-Podem comer essas marmitas - eu disse, acendendo outro cigarro. Inventei uma história:

-Hoje à tarde, comi dois cachorros-quentes que o pessoal da Assistência Social distribuiu na Rodoviária Velha.

Ele chamou os filhos e a mulher e todos comeram com uma fome de anteontem, como diz a música do Chico Buarque. Quando terminaram, o menino dos isqueiros disse que ia me mostrar uma coisa. Levantei e fui com ele ao lado do poste. 

Os isqueiros estavam dispostos como se fossem um presépio. Dois grandes eram José e Maria e um pequeno, Jesus. Havia outros representando os pastores, os reis magos e os animais. Guardanapos e outros papéis faziam as vezes de roupas. Ele me olhou com o mesmo olhar do meu filho e disse Feliz Natal.

Quando eu ia agachar pra abraçá-lo, dois carros entraram em alta velocidade na rua e os motoristas trocavam tiros.

4
Os moradores de rua rapidamente correram, abandonando seus colchões e pertences. O carro fugitivo bateu em outros carros. Seu ocupante desceu e saiu correndo. O perseguidor não correu. Parou ao lado do seu veículo e deu apenas um tiro que atravessou as costas e o peito do outro, cujo corpo se projetou no ar e caiu, já sem vida, no solo. 

Foi tudo muito rápido e não conseguimos fugir. Após o sujeito ser atingido à nossa frente, o atirador se aproximou apontando a pistola contra mim e a família indígena.

Chamou o pai indígena de vagabundo inútil, de atrasado. Bateu nele. Apontou a arma pra mulher e pras crianças, que soluçavam encolhidas. 

Eu disse:

-Ô cara, você tá louco? Vai matar crianças, fazer uma chacina na noite de natal?

Ele veio em minha direção e encostou a pistola na minha testa. Era jovem, ruivo e me encarava sem piscar. Parecia cheirado. Depois de alguns segundos, ele perguntou:

-O que você falou aí, mendigo?

Comecei a sentir uma tremedeira, mas disfarcei e tentei argumentar:

-Não mate as crianças, não mate essas pessoas, cara. Por favor. 

Ele ficou me encarando, olhou para os índios e depois me encarando de novo sugeriu:

-O que você acha? A sua vida pela de todos eles. Se você concordar, eu libero os índios agora. Você já tá na merda mesmo. 

Pensei no meu filho, mas em seguida olhei pros dois indiozinhos e falei:

-Faça o que você quiser cara. Só não mate as crianças.

Olhando para o pai indígena, o assassino disse para eles irem embora. A mãe rapidamente conduziu os filhos e o pai ficou alguns segundos olhando para o assassino e para mim. A pistola continuava encostada na minha testa. Eu estava com vontade de vomitar, meu estômago estava se retorcendo, senti uma pontada dentro da cabeça e minha mão esquerda começou a tremer de um jeito esquisito.

O assassino fez um rápido movimento com a mão e disparou contra o chão, recolocando, em seguida, a arma contra minha testa. O índio correu e o pistoleiro sentenciou:

-Hora da verdade, babaca. 

A imagem do meu filho se formou em minha mente e ouvi sua voz: 

-Vem me pegar, papai. 

Fechei os olhos e imaginei estar correndo em sua direção. Escutei o estrondo, mas não senti nada. Abri os olhos e vi o assassino com o olhar perplexo. Ele havia derrubado sua arma no chão e tentava alcançar com as duas mãos alguma coisa em suas próprias costas. Deu dois passos pra trás e  despencou, de costas, com o olhar já fixo e sem brilho. 

Olhei pra rua e vi o sujeito que tinha sido alvejado após a colisão do carro e que estava caído no meio da rua. Ele estava vivo. Continuava deitado, mas segurava uma arma. Em volta do seu corpo, uma enorme poça de sangue escorria para os dois lados da rua. Ficamos nos olhando e eu disse que ia chamar ajuda. O homem riu e disse: 

-Se eu sobreviver, minha família morre.

Em seguida, disparou contra a própria cabeça.  

Percebi que eu estava sozinho com dois cadáveres e resolvi sair dali. Cheguei ao apartamento e verifiquei que eram 3:49 da madrugada. Após um longo banho, desmaiei no sofá da sala. Acordei 13 horas depois, com o celular tocando.

-Papai, cadê você?

5
Não encontrei nenhuma nota na mídia sobre esses eventos. Uma semana depois me mudei, veio a Pandemia, fui operado da vesícula e esqueci o assunto. 

Agora, em 2020, optei por um natal menos agitado. Estive na companhia de um amigo e sua mãe. Comemos carne e falamos sobre a genialidade dos Beatles.

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