quinta-feira, 22 de abril de 2021

 O ECLIPSE

João Cândido Martins


1

Era o último ou penúltimo sábado daquele novembro de 1989. Eu tinha 16 anos e morava no internato do Colégio Militar de Porto Alegre. Naquele dia, estava com alguns colegas conversando e ouvindo música (disco Joshua Tree da banda U2, em fita k7, lembro bem). Eles comentavam sobre a festa de debutantes que haveria naquela noite. 


Era comum que fôssemos convidados para estes bailes de 15 anos (conhecidos como Bolos-Vivos), pois as meninas queriam ter fotos ao lado de rapazes trajando uniformes de gala. Eram as roupas que usávamos em eventos especiais. Toda vez que eu vestia aqueles trajes, tinha a sensação de que estava em 1845 e iria invadir o Paraguai a cavalo. Em todo caso, eu já tinha ido a alguns bailes de debutantes, me considerava praticamente um especialista na arte de dançar valsa.  


Mas o baile daquela noite seria diferente. A aniversariante era filha de um político e a festa seria no clube X, notório reduto dos ricaços de Porto Alegre. Como em todas as instâncias da vida, no Internato do Colégio Militar de Porto Alegre havia um grupo fechado de alunos que organizava e selecionava quem iria ao "Bolo-Vivo". Naturalmente, os amigos dos amigos tinham preferência nas escolhas. Eu e outros caras "low profile" apenas éramos chamados quando não havia alternativa. Só nos restava ver o eclipse da madrugada, disse alguém, que foi devidamente ignorado. Tentávamos deglutir a ideia de que a festa daquela noite não era pra nós.


Era o que pensávamos, quando Marcelo K se aproximou. Ele era um dos descolados do tal grupo que organizava as festas. Pediu pra que diminuíssemos o som e explicou que o pessoal escalado para a festa da noite havia se envolvido numa briga com uma gangue punk nas imediações ali do Parque da Redenção e todos estavam detidos no Colégio até segunda ordem. Nós, os loosers, nerds, outsiders, os caras odiados pelo professor de educação física, como diria meu amigo Ades Nascimento, tínhamos de substituí-los. 


Ficamos empolgados. Nessas festas, além de conhecer meninas, havia também a comida, normalmente abundante. E quando você é um aluno interno num colégio militar, comer é prioridade.


2

O grupo que se reuniu à noite para a festa era heterogêneo. Havia 20 caras de todas as idades, tanto do 1o grau quanto do 2o. Estava bem misturado mesmo. Mas quem olhasse nosso grupo, saberia que estava diante da equipe reserva. Fomos num antigo ônibus. Quando chegamos no tal clube X, ficamos conversando junto a uma entrada lateral. Não demorou para que se aproximasse a garota aniversariante e seu pai, o político. 


Após os cumprimentos, o sujeito perguntou de forma direta: 


"Quem vai dançar a valsa com minha filha?". Marcelo K, que liderava o grupo chamou Noé, um rapaz do 3o ano que já era interno no Colégio Militar de Curitiba, antes de sermos transferidos para Porto Alegre. Lembro que tinha boas notas, falava pouco e se destacava como atleta.


A moça deu um passo pra trás e disse com olhar assustado: "eu não vou dançar com esse preto". 


Eu nunca tinha visto a palavra preto ser usada com aquela entonação. Já tinha lido e assistido filmes sobre racismo, mas nunca havia presenciado nada do gênero. Ficamos olhando em silêncio para a garota e seu pai, que encarou Marcelo K e disse de modo seco: "arranje outro".


Nesse momento falou o Boi, meu colega de turma no 1o ano científico, lutador de Kempô, uma figura serena. Creio que ele era de Uruguaiana. A reserva moral do internato do Colégio Militar de Porto Alegre. Ele sentenciou: "se o Noé não dançar, ninguém dança".


O político quis levantar a voz, disse conhecer gente graúda do Comando Sul, mas como insistisse em excluir Noé, fomos embora. De dentro do ônibus, era possível ouvir seus xingamentos.


3

Ficamos em silêncio durante parte do trajeto de volta ao colégio. Não havia o que dizer. Até que o ônibus pifou e tivemos de andar pouco mais de 2 km vestidos com o tal uniforme de gala. Um transeunte noturno do Parque da Redenção iria achar que estava tendo uma alucinação ao vislumbrar 20 caras que pareciam saídos de um quadro do Pedro Américo, andando por aquelas aleias pouco iluminadas. Mas não cruzamos ninguém.


Lembro que circularam duas garrafas de vinho adquiridas num boteco na avenida João Pessoa. Uns cinco colegas se aventuraram de uniforme e tudo nas águas daquele chafariz central. 


Quando chegamos, alguns se recolheram. Outros permaneceram conversando sentados no meio do pátio, eu entre eles. Alguém materializou mais duas garrafas de vinho (cujos conteúdos foram transferidos para garrafas de Coca-Cola, afinal, estávamos dentro de um quartel) e um cara de Bagé chamado Lourenço tocou violão. Rock gaúcho anos 70 e 80. 


Ficamos até umas 3 da manhã e ainda presenciamos o eclipse lunar. Quando o fenômeno acabou, fomos dormir, conscientes que estávamos todos ligados pro resto da vida.

Sem comentários:

Publicar um comentário