sábado, 1 de agosto de 2020

A FRANCESA
João Cândido Martins



Uma história curta. Em 1991, aos 18 anos, eu estava de volta à Curitiba após passar dois anos morando no internato do Colégio Militar de Porto Alegre. Tão logo cheguei, fui convidado a integrar uma banda de rock setentista (com ênfase em Progressivo) em companhia de alguns amigos, ex-colegas do Colégio Militar de Curitiba. Tocávamos um pouco de blues e versões de meia hora a 40 minutos de músicas do Rush, do Black Sabbath e outros grupos, entre eles, claro, o Pink Floyd. Eu tocava um pequeno teclado caseiro de poucos recursos e também fazia uns solos de clarineta, instrumento que aprendi a tocar na banda do Colégio Militar.











Fiéis à tradição do Classic Rock, batizamos a banda com um nome longo e sem sentido: "The Great Fountain Machine" e começamos a ensaiar na casa dos fundos do terreno de meu avô, em Santa Quitéria, imóvel que à época estava vazio. Meu avô era vivo e quando nos encontrávamos lá nos fins de semana, ele ficava satisfeito em ouvir meu amigo EA executar algumas escalas clássicas ao violão. EA resolveu estudar violão erudito para conseguir reproduzir os malabarismos do guitarrista Ritchie Blackmore, da banda Deep Purple. A casa era ampla, isolada, tinha uma boa acústica e passávamos as tardes de sábado lá, em longas jams (improvisos).











































Um dos caras, o LJ (baixista), nos contou que ia receber uma menina francesa em sua casa, num esquema de intercâmbio. Perguntamos se ela era bonita, mas ele não sabia. No sábado seguinte, ele apareceu com a guria. Que era linda. Uma mulher de 19 anos, mas com traços juvenis, ruiva, algumas sardas, olhos verdes, sorriso cativante. Nós nos comunicávamos com ela em inglês. Quando tocamos, acho que cada um de nós tentou se exibir um pouco para ela.



Havia um bar no Cabral que fornecia porções de polenta frita a cada 10 cervejas tomadas. Ficamos lá por umas horas ouvindo as histórias da menina sobre a França e os franceses. Na semana seguinte ela parecia mais bonita que na anterior. LJ, meu amigo que a estava hospedando na casa de seus pais, parecia meio emburrado. Tocamos alguns sons. Num dos intervalos, eu estava mostrando aos caras uma revista Bizz especial com letras traduzidas do Pink Floyd. A francesa ficou louca, quis olhar, demorou-se em cada página. Pediu a revista emprestada. Levemente contrariado, concordei.









Naquela noite, tocamos num bar no Largo da Ordem, não exatamente no Largo, mas ao lado do Palácio Garibaldi. Foi a primeira e única vez que o mundo viu uma música do Black Sabbath ser tocada com um solo de clarineta, feito por mim. Lá pelas tantas, o meu teclado caseiro disparou uma das pré-gravações que ele tinha na memória, uma melodia absurdamente infantil. Fingimos que aquilo fazia parte da apresentação, mas não deu certo. Fomos vaiados de forma inclemente. Em nossa defesa, devo dizer que o público do bar naquela noite era predominantemente punk.




Na semana posterior, cheguei à casa em Santa Quitéria e encontrei LJ sozinho. Perguntei pela francesa e ele disse: "Não sei, pergunte ao EA. Ela tem encontrado com ele todas as tardes". Percebi que o cara estava indignado e fiquei na minha, eu nem sabia da história. Quando os demais chegaram, realmente EA estava bem próximo à francesa. O ensaio foi repleto de interrupções e debates, alguns meio acalorados. À noite voltamos ao tal bar das polentas fritas. Lá, quando LJ foi ao banheiro, EA beijou a francesa. Eles já tinham bebido bastante, eram jovens, queriam manifestar seus sentimentos. Mas LJ veio do banheiro e se deparou com a cena. Houve um breve bate-boca e LJ foi embora. A francesa, que estava hospedada em sua casa, foi atrás dele. Ficamos todos sem saber o que fazer. Comi mais umas polentas, que à essa altura já não estavam mais crocantes e fiquei pensando em como é ruim sentir ciúmes. Uma droga mesmo.


Foto: fotografandocuritiba

Saímos do lugar uns minutos depois. LJ estava discutindo com a francesa numa esquina. Não era algo violento. Inclusive eles estavam de mãos dadas. Na verdade, era claro que havia algo entre eles também. Ela estava envolvida com ambos. Foi quando EA se aproximou do casal e percebi que o confronto seria inevitável. Quando os dois se encararam e os socos estavam prestes a acontecer, a menina passou mal, disse que estava sentindo algo estranho. Levamos a garota até o Hospital São Lucas, na Avenida Paraná. LJ entrou com ela e nós permanecemos do lado de fora. Havia um boteco nas proximidades e ficamos lá tomando mais cervejas enquanto aguardávamos.



Os pais de LJ chegaram. Ele os deve ter chamado, afinal ela era sua hóspede no intercâmbio. LJ era responsável pelo bem estar dela. No final, ela melhorou, parece que foi uma leve pressão alta, nada mais que isso. Eles se despediram e a levaram de volta. Voltamos ao boteco, onde ficamos até umas 4 da manhã. Foi a primeira vez que comi Rollmops, a comida típica curitibana que consiste num peixe com cebola em conserva. Deliciosamente repulsivo. Meu amigo EA estava inconsolável. Disse que ela iria voltar pra França naquela semana. 

E foi o que aconteceu. Ela se foi, levando consigo minha revista do Pink Floyd e o coração dos meus dois amigos, cuja relação nunca mais foi a mesma.






A banda acabou.

Com a passagem dos anos, foi cada um pro seu lado e a vida criou novas situações. Até onde eu soube, EA e LJ nunca chegaram a conversar novamente. Pelo menos não como conversavam antes de conhecerem a francesa. Mexendo nas minhas coisas, encontrei uma foto que fiz dela, e que depois editei no Photoshop, inserindo um efeito de granulação. Ela estava de costas, mas a foto ficou interessante. Deve ser linda até hoje. E o Pink Floyd continua sendo o Pink Floyd.