quinta-feira, 9 de julho de 2020

ODEON
João Cândido Martins


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Em 1980 eu tinha sete anos e estava ávido por ouvir todos os discos da coleção da minha mãe. Ela deveria ter uns 60 discos, mais ou menos, o que era bastante, considerando que a maioria das pessoas costumava possuir 20 ou 30, no máximo. Um dos discos que eu mais gostava era uma coletânea dos temas ao piano de Chopin. 

Um dia, ganhei do meu pai um primitivo órgão de brinquedo e, em dois ou três dias, conseguia reproduzir a melodia básica de todas as músicas do disco, nota por nota. Minha mãe ficou impressionada e resolveu me matricular numa escola de música que ficava na Getúlio Vargas, quase na esquina com a Avenida República Argentina, no bairro Água Verde. As aulas eram divididas em teóricas e práticas. 

Para que eu pudesse estudar, minha mãe pediu à sua amiga Dorothy Linzmeyer, dentista da turma de 1950 da UFPR, que cedesse o piano da sua casa por duas horas semanais. Gentilmente essa sua amiga, a quem minha mãe conhecia desde criança nos anos 30, concordou com o pedido e passei a praticar no piano que ficava na sala de uma impressionante casa modernista no bairro Batel. Nos fundos do terreno, havia outra casa, essa de madeira, construída no início do século XX, onde moravam a mãe de Tia Dorothy, Margarida Kaesemodel (conhecida como Oma, que é a palavra em alemão correspondente à avó), e seus irmãos, o renomado arquiteto Gerhard Leo Linzmeier, responsável pelo Reservatório Elevado de Ceilândia, em Brasília, entre outras obras, e Margarida Linzmeyer, que, como a irmã, também era formada em Odontologia.
















Imagem: Sandra Schmitt Soster/ipatrimonio
















Imagem: CWB Linzmeyer

Tiveram início então contínuas repetições de escalas, solfejos, sustenidos, bemóis, crescendos e quiálteras. Os exercícios de livros básicos como os do pianista Mário Mascarenhas e apostilas de cursos como "A Dozen a Day", "Leila Fletcher Piano Course" e, posteriormente, os estudos de Carl Czerny passaram a integrar meu cotidiano. 






Minha mãe era uma hábil violonista com um leve conhecimento das escalas no piano, mas seria exagerado dizer que ela pudesse ser qualificada como uma pianista. Como se dizia antigamente, ela "arranhava". Mas sabia o suficiente para me cobrar a execução correta dos exercícios. Ficou claro para mim, desde o começo, que os exercícios eram enfadonhos, mas eu gostava muito de tentar reproduzir músicas de ouvido, como eu havia feito com os temas do disco do Chopin. Coisas que eu escutava no rádio e na televisão. Quando o treinamento terminava, minha mãe permanecia pelo menos uma meia hora conversando com tia Dorothy e eu aproveitava pra brincar ao piano, tentando tocar "Goodbye Yellow Brick Road" do Elton John ou "Breakfast in America" do Supertramp. 



Imagem: CWB Linzmeyer

Uma tarde dessas, eu resolvi andar pelo terreno e me deparei com um labirinto de corredores com paredes vegetais, mais ou menos na linha do que havia no hotel Overlook de "O Iluminado", mas sem o aspecto sombrio. Pelo contrário, à luz do sol do fim da tarde, o local parecia o cenário de um filme surrealista. Embrenhei-me pelos corredores e, apesar do labirinto não ser muito complexo, me perdi e sempre voltava para a pracinha central. Não conseguia localizar a saída e estava prestes a chamar por minha mãe, quando escutei uma música. 

Era algo tipicamente brasileiro e tinha um swing que eu nunca tinha escutado. Segui o som e encontrei a saída. A música vinha de um quarto nos fundos da casa modernista. Andei até lá e encontrei Ivan, o filho mais novo de Tia Dorothy que devia ser uns 7 ou 8 anos mais velho que eu, não tenho certeza.

Ele me viu e perguntou: "conhece essa música?" Eu disse que não e ele me mostrou a capa do disco que ouvia: uma coletânea do compositor Ernesto Nazareth. O nome da música era Odeon. Ele me contou que Nazareth era um dos inventores da música brasileira e que morreu louco no dia do primeiro desfile de carnaval, em 1930. A combinação melodia/ritmo era hipnótica, muito mais cativante que qualquer um dos exercícios que eu tinha de reproduzir ao piano. Minha mãe e tia Dorothy se aproximaram. Estava na hora de ir embora. Ivan me emprestou o disco e também um gibi do Batman (que foi outro choque na minha cabeça, já que à época, minha relação com quadrinhos se limitava à Disney e Turma da Mônica).




Ouvi tanto Odeon que, em pouco tempo, eu conseguia tocar a música quase à perfeição. Sei que os pianistas dirão que estou exagerando ou querendo me vangloriar de uma coisa que é praticamente impossível sem o auxílio de uma partitura, mas o fato é que consegui chegar bem perto de uma execução convincente. Um dia, na escola de piano, a professora disse a mim e à minha mãe que eu não teria futuro naquilo pois minhas mãos eram muito pequenas. 

Minha mãe retorquiu: "mas ele tem 7 anos, claro que as mãos dele são pequenas". 

A professora solicitou à minha mãe que não se ofendesse, mas, de acordo com ela, eu apresentava sinais de que não cresceria muito, e que sentiria dificuldades ao longo dos anos. Indignada, minha mãe disse que aquilo não tinha absolutamente embasamento nenhum. 

"A senhora já deve ter percebido", disse a professora, "que ele se complica em alguns exercícios que são até de fácil execução".

"Ele está aprendendo".

"Bom, o fato é que não sei se vem ao caso ele se apresentar com os demais alunos na apresentação de fim de ano".

"Você está brincando comigo?", indagou minha mãe.

"Não, não estou. Realmente acho que ele não tem condições, o que a senhora quer que eu diga?"

Minha mãe, que era uma pessoa meio resoluta nas suas convicções (quem a conheceu sabe bem disso), respondeu: "o exercício nº 78 do Czerny. Eu garanto que até o dia da apresentação ele vai tocar perfeitamente. Já me disseram que ele tem ouvido absoluto".

"Esse negócio de ouvido absoluto não existe. O que existe é esforço e eu acho que ele se apresentar agora é meio arriscado, dona Leonor".

"São só crianças, qual o problema se ele errar uma ou outra nota?"

"Se não der certo, ele vai carregar esse fracasso pro resto da vida e a senhora vai ser a responsável. A minha obrigação é ser realista".

Horas mais tarde, eu estava vendo alguma coisa na televisão e resolvi ir até a cozinha. Quando entrei, vi minha mãe sentada numa cadeira chorando em silêncio. Eu não entendi na hora porque ela estava chorando, mas a abracei e ela me abraçou em resposta.


2




O estudo 78 do Czerny era espinhoso e tinha passagens bem complicadas. Quando parecia que eu tinha dominado toda a música, repetia algum erro que estava aparentemente superado. Minha mãe teve muita paciência, nunca ficou nervosa, sempre rindo e fazendo graças. Eu a amava muito. No dia da apresentação, um piano de parede estava postado na sala principal da escola e uma pequena multidão de pais e alunos se distribuiu nas cadeiras. 

Minha mãe me vestiu com um terno roxo e lá estava eu com o estudo 78 indo e voltando na minha mente. Eu achava muito chata aquela música, uma coisa meio rococó que cheirava naftalina. Minha mãe segurava minha mão quando a professora se aproximou.

"Dona Leonor, vamos mudar um pouco a sequência".

"Como assim?", perguntou minha mãe.

"O João Cândido seria o terceiro a se apresentar, mas resolvemos deixá-lo por último".

"Do que você está falando?"

"Não podemos comprometer a apresentação toda se ele errar já no começo. E ele vai errar".

Acho que minha mãe ia dizer um palavrão, quando foi interrompida pelos acordes da primeira apresentação. Só coube a ela aguardar comigo o momento da minha performance que já estava vaticinada como um fracasso nas paradas de sucesso, como diria o Caetano Veloso. 


Durante uma hora, os alunos demonstraram seus avanços ao piano e eu fiquei ali sentado com meu terno roxo, meio desenxabido. Um pouco antes de chegar minha vez, minha mãe me puxou pra perto dela e disse: "se você errar, tá tudo bem. Respira e começa de novo. Você não deve nada a ninguém aqui. Não tenha medo nem vergonha. Toque com o coração, de verdade". Eu ouvi suas palavras e, em seguida, a apresentadora disse: "agora o aluno João Cândido Martins vai executar o estudo nº 78, de Carl Czerny".




Fui ao piano, olhei a professora que me encarava séria com tempestuosos olhos azuis e olhei pra minha mãe que sorria do jeito que só ela sabia fazer. Não tive dúvidas e mandei a escala inicial de Odeon com vigor. Havia um burburinho na plateia que cessou de imediato cedendo espaço aos acordes vibrantes de Nazareth, com os quais preenchi o ambiente. 

Olhei de soslaio para a professora que estava visivelmente atônita, mas não consegui olhar para minha mãe, pois teria de virar todo o corpo pra fazer isso, então não sei descrever a cara que ela fez quando toquei aquelas escalas voluptuosas. Eu treinava a música escondido. O último acorde foi tocado com indisfarçável violência, sendo seguido por um aplauso de uns três minutos. 


 

 

Sentei ao lado de minha mãe que estava com os olhos marejados e me envolveu com seus braços. A professora se aproximou e quando ia falar alguma coisa, minha mãe levantou a mão em direção e ela e disse:

"Não diga nada. Não fale uma palavra. Você não é mais a professora do meu filho e eu acho que você não deveria ser mais professora de ninguém".






A professora se calou. Ficou me encarando com um olhar que eu, aos sete anos, ainda não sabia identificar como raiva. Em troca, sorri e pisquei pra ela. A mulher contorceu os lábios, deu meia volta e nunca mais a vi na vida. Na sequência, teve um lanche e me fartei com uns quatro ou cinco cachorros-quentes.




Ernesto Nazareth - Odeon

Carl Czerny, Op. 599, No. 78

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