terça-feira, 21 de julho de 2020

A PEDRA
João Cândido Martins

Ópios, édens, analgésicos / Não me toquem nessa dor
Ela é tudo que me sobra / Sofrer vai ser / A minha última obra 
(Paulo Leminski-Itamar Assumpção) 








Introdução
Esse é, provavelmente, o texto mais cru e visceral que já escrevi em toda minha vida. Reunir palavras num encadeamento lógico para descrever o que aconteceu comigo desde o início de 2020 foi tão difícil quanto vivenciar esse eventos, mas sinto que é necessário pôr tudo no papel antes que meu cérebro, num instinto de auto-preservação, dilua a memória em fragmentos irreconhecíveis. Este texto possui cenas fortes passadas em hospitais, portanto quem é suscetível a relatos dessa natureza, melhor evitar. 

Não conto esta história pra me fazer de coitado ou coisa assim. Apenas quero falar da finitude, da fragilidade humana, das pessoas que se dedicam a amparar quem precisa - mesmo  face à morte iminente. Quero falar das milhões de pessoas que estão agora, neste exato momento, deitadas ou sentadas sozinhas em camas de hospitais com agulhas enfiadas em seus braços 24 horas por dia, esperando uma confirmação ou uma negativa que sirva como um fiapo de vínculo à vida. 

Em meio à pandemia do Covid-19 fui diagnosticado com uma pedra de proporções gigantescas na vesícula e o processo de extraí-la me custou uma semana e meia internado na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba no começo de julho. Agora estou em casa, estou bem e sob os efeitos da medicação indicada. As dores se insinuaram a partir de fevereiro e foram aumentando gradativamente ao longo dos meses, transformando minha vida naquilo que o poeta Rimbaud chamou de Uma Temporada no Inferno. 

Longe de mim assustar as pessoas que leem meus textos que, costumeiramente  são relatos leves, mas a descrição do que me aconteceu no hospital se faz necessária, e penso que ela é pertinente nesse momento em que alguns questionam a eficácia da ciência no combate à gripe e relativizam a importância do Ministério da Saúde.


PRIMEIRA PARTE - PRENÚNCIOS

Capítulo 1 - A primeira dor
Em janeiro de 2020, eu estava separado e de volta à casa que era dos meus pais, na divisa entre os bairros Santa Felicidade e São Braz. O imóvel permaneceu fechado por uma década. Mudei para este local em 1985, quando tinha doze anos de idade. Vivi na casa até 2004, quando me mudei para um pequeno apartamento no Campo Comprido. Em 2008 voltei e, neste mesmo ano, minha mãe morreu. Fiquei na casa pelos dois anos seguintes, até conhecer a Julia, minha ex-mulher, com quem morei no Centro de Curitiba entre 2010 e 2019. O natal de 2019 passei sozinho no apartamento onde eu morava com minha ex-esposa e a virada do ano, com alguns amigos. Após uma pequena reforma e uma limpeza geral, a residência estava apta a ser habitada novamente. Senti alguma dificuldade para dormir nas primeiras noites. 

No dia seguinte à festa em que estive no litoral do Paraná (umas duas semanas antes do início da quarentena), peguei a estrada e subi a Serra do Mar cumprimentando os demais motoristas e sorrindo para a vegetação marginal. A estrada nunca foi tão suave e luminosa. Minha vida ia bem. Houve um reencontro improvável que se revelava curiosamente promissor, eu estava prestes a ganhar um prêmio pelo trabalho de pesquisa sobre a história de Curitiba que produzi para o site da Câmara Municipal nos últimos anos e além disso, fui comunicado de que eu seria transferido de setor, o que me trazia novos desafios. Eu estava explodindo de vontade, de esperança e de força de vida, sensação que durou até às 17 horas daquela tarde, quando senti um mal estar na região do abdômen. 

Tomei um remédio recomendado por minha ex-sogra, chamado "Gotas Preciosas". Ele já tinha sido eficaz em outras situações de má-digestão, mas naquele dia não fez efeito e a dor persistiu. Às 19 horas, percebi que o incômodo havia se espraiado pelo meu peito e se fazia sentir em pressões extremamente desagradáveis. Durante algum tempo julguei que aquilo fosse passageiro, supus que fossem gases, mas a coisa aumentou a tal ponto que decidi ir ao Posto de Saúde. Fui dirigindo e, no caminho, a dor intensificou. Antes de chegar ao posto, eu gemia em voz alta sozinho. 

Subi as escadas um degrau por vez e consegui chegar à entrada. Pus a máscara no rosto e me aproximei da recepção. Meu peito ia explodir. O osso central gritava e as costelas respondiam num movimento intermitente. Eu mal conseguia respirar. A enfermeira me atendeu, pediu meus documentos e solicitou alguns dados, entre eles, o nome de minha mãe. Eu seria chamado no painel eletrônico. Após uns cinco minutos de torturantes apertos no peito, meu nome apareceu no painel e me dirigi à sala de triagem. Expliquei à enfermeira o problema e ela tomou minha pressão sangüínea. Também pediu alguns dados, colocou uma pulseira de papel em meu pulso (com a cor correspondente à gravidade do problema que eu relatava) e disse que eu deveria aguardar mais um pouco até ser chamado pelo médico de plantão. 

Mais uns três minutos em que não consegui ficar sentado por causa da dor e entrei na sala do médico. Descrevi o quadro e ele me auscultou enquanto perguntava se eu era diabético, se tinha alergia a remédios, esse tipo de coisa. Eu não era alérgico a nada, nunca tive nenhuma doença, à exceção de caxumba aos 7 anos e varicela aos 13. O médico disse que em caso de dor no peito, era obrigatório fazer um eletrocardiograma. Com muito esforço, consegui chegar à sala de eletros e aguardei minha vez. A dor era contínua e me senti aliviado quando, após me livrar dos objetos de metal, pude deitar numa maca. O conforto durou poucos segundos, pois descobri que mesmo deitado, a dor ainda se manifestava em outros pontos do meu peito, onde antes não estava doendo. O enfermeiro conectou os eletrodos ao meu corpo (peito, pulsos e canelas). A máquina registrou o gráfico e voltei para falar com o médico com o exame em punho.

De acordo com ele, não havia nenhuma alteração cardíaca, mas como a dor não cessou, fui colocado numa espécie de enfermaria com largas poltronas confortáveis, destas que a pessoa pode ficar deitada. As enfermeiras me deram um remédio e senti uma leve picada no braço esquerdo. Retesei todo meu corpo e ela disse: "relaxe, se você tensionar é bem pior". Relaxei e em poucos segundos havia uma agulha enfiada em uma das minhas veias e coberta por esparadrapos que a fixavam ao meu corpo. Com o tempo, vim a saber que esse mecanismo se chamava "acesso". Não sei se foram os remédios, mas apaguei. Dormi por aproximadamente 3 horas. Dormi tão profundamente que, quando acordei, o acesso não estava mais no meu braço. Depois desse sono acordei bem, a dor havia cessado. Aproximei-me da enfermeira agradecendo pela ajuda e perguntei se eu poderia ir embora. Ela disse que eu precisava conversar com o médico.

Minha primeira iniciativa foi a de pegar o celular e passear pela internet enquanto esperava, mas a enfermeira começou a conversar com a única paciente que estava comigo ali naquela semi-enfermaria àquela hora. A mulher estava com o braço ainda ligado ao soro. Contou que foi pra São Paulo com o objetivo de tentar retomar a relação com o marido, mas ele já estaria morando com outra, então ela retornou a Curitiba onde só conseguiu achar emprego como catadora de papel. Tinha um olhar vivo, mas cansado. Demonstrava possuir um vocabulário extenso, mas emitia frases confusas e, às vezes repetia o que havia acabado de dizer. Era evidente que na juventude irradiara beleza.



A enfermeira disse que o médico iria me receber em sua sala. Era um cara de uns 30 e poucos anos. Foi polido. Disse que o coração não apresentava sinais de distúrbio, mas seriam necessários mais exames. Perguntei o que poderia ser, caso não fosse coração. Ele respondeu que poderia ser uma coisa simples como gases, uma bactéria no estômago, pedra na vesícula ou angina, que, de acordo com ele, era uma espécie de pré-infarto. Ele me passou uma receita com alguns remédios e pedidos de exames. Saí do local, entrei no meu carro e, sem perceber, acendi um cigarro. Claro que na hora pensei que eu não deveria estar fazendo aquilo, mas a dor havia passado por completo, eu estava há horas sem fumar Sem pensar no assunto, fumei o cigarro no caminho para minha casa.






Capítulo 2 - Evolução do Quadro
As semanas se passaram. Tive de resolver coisas da minha vida pessoal e do meu trabalho. Passei a trazer o meu filho Henrique uma vez por semana para ficar na casa comigo. Receei que ele, aos 4 anos, não gostasse do espaço, mas, ao contrário, ele correu e brincou a tarde toda. À noite, ele dizia "Kique na casa do papai". 

Tudo estava correndo normalmente, até o dia em que tive novas dores. Eu estava no meu trabalho. Começou de leve e foi aumentando até que saí de lá e cheguei já desesperado à Santa Casa. Novamente pediram meus dados. Eu sentia pressões em vários pontos do peito e um mal estar abdominal. Passei por uma triagem e fiquei aguardando. Mas, dessa vez, a dor diminuiu repentinamente até que passou em poucos minutos. Mesmo assim falei com o médico de plantão.

Médico: "O senhor fuma há quantos anos mesmo?"

Eu - "31 anos."

Médico: "Diabetes?"

Eu: "Não."

Médico: "Toma alguma medicação controlada?"

Eu: "Tomei Lítio, Risperidona e Torval por uns 4 anos. Parei no ano passado".

Médico: "Por que o senhor tomava esses remédios?"

Eu: "Há uns anos fiquei nervoso com umas situações que enfrentei no trabalho".

Médico: "Parou por conta própria? Não fez isso sob orientação?"

Eu: "Larguei. Não aguentava mais ser viciado naquelas coisas."

Médico: "Perigoso isso. Pode ter consequências." 

Eu - "O senhor acha que é esse o motivo da minha dor?"

Médico - "Só os exames vão dizer."


Ele me passou uns papéis. Naquele mesmo dia, eu tinha de terminar uns textos pro meu trabalho e as indicações passadas pelo médico acabaram escondidas embaixo de uma pilha de revistas e jornais velhos. Mais alguns dias se sucederam sem nenhum vestígio de dor e, num fim de semana em companhia do Henrique, cometi alguns abusos alimentares. À época, sozinho e isolado, eu estava totalmente entregue à magia da comida congelada. Comi com ele batatas fritas e umas linguiças. Às 3 da manhã acordei com meu peito sendo esmagado. Henrique dormia profundamente. Liguei para minha ex-mulher, Julia, e expliquei a situação. 

Julia - "Você consegue trazê-lo até o Centro?"

Eu - "Acho que sim."

Julia - "Com o Covid prefiro que ele não pegue táxi ou Uber. você está bem mesmo pra trazer o Henrique até aqui?"

Eu - "Eu chego com ele em meia hora".

Deixei Henrique, ainda dormindo, com minha ex e tomei um Uber em direção à Santa Casa. Apesar da curta distância, eu não conseguia andar direito, nem dirigir. A dor era fulminante. Quando cheguei, mal conseguia me manter em pé. Tomei algumas medicações, mas elas não fizeram efeito. Diante da situação, os médicos entenderam que era o caso de me internar na UTI Cardíaca, para verificar se o problema seria no coração. Eles queriam saber se eu estava tendo um infarto. Perguntaram se eu tinha algum parente próximo que poderia buscar minhas coisas. 

Liguei pra Julia. Ela veio algum tempo depois e ficou com minhas roupas e objetos. A dor no peito não estava intensa mas era presente e regular. Pedi a ela o seu celular emprestado (o meu estava sem bateria) e liguei para uma outra mulher. Alguém especial na minha vida. Especial ao ponto de, à beira da morte, eu precisar ouvir sua voz. Ela atendeu e eu contei a situação de estar sendo internado em uma UTI. Disse que não sabia o que poderia acontecer, que não sabia se ia sair vivo e concluí minha fala dramática dizendo "eu te amo". Do outro lado da linha ela chorava. Arrependido por ter feito aquela cena de novela mexicana, tentei consertar: "quando eu sair a gente se encontra". A ligação caiu e eles me levaram pra UTI. 


Aos 47 anos, eu era o mais novo no local. A maior parte das pessoas que estavam ali tinha entre 60 e 70 anos, além de uma senhora de 80. Vesti uma espécie de avental e passei a noite com uma agulha enfiada no braço, recebendo soro e com um aparelho medindo minha pressão o tempo todo. Só conseguia me manter deitado com a barriga pra cima e, a única coisa que eu podia fazer, era assistir à sofrível programação madrugueira da TV Band, que permanecia ligada sem som. Nostalgicamente lembrei dos dias em que a antiga TV Bandeirantes passava filmes como "Fanny & Alexsander" nas madrugadas e, posteriormente, cheguei a escrever sobre isso.


Eu acordava e dormia, não conseguia embalar no sono. A TV foi desligada e só restaram poucas luzes acesas. As enfermeiras se multiplicavam atendendo os paciente a todo momento. O sujeito deitado ao meu lado estava passando por uma falência do fígado e teria de ser removido. Eu sempre despertava incomodado com os aparelhos conectados a mim. A dor gradativamente dissipou. No dia seguinte, passei por dois exames que descartaram a possibilidade de que eu estivesse com problemas cardíacos. Fui dispensado com a recomendação de investigar a raiz do problema. Os médicos não sabiam dizer o que era, mas apostavam em algum distúrbio no sistema digestivo. Peguei meu carro que estava estacionado em frente ao prédio de minha ex-mulher e fui pra casa, ainda meio grogue, dessa vez sem fumar.


Capítulo 3 - 15 horas na enfermaria
Nas semanas seguintes, consultei um médico que pediu a realização de alguns exames. Agora só restava esperar isolado em casa para não contrair o Covid.  Os exames tiveram de ser remarcados em função das questões relativas ao Covid e os dias estavam passando. Eu sabia que a dor retornaria.

Durante semanas não senti nada. Comecei até a cogitar a possibilidade de largar o cigarro e voltar a fazer esportes, como na juventude. Eu havia combinado com minha ex-mulher só voltar a passar fins de semana com o meu filho quando soubesse a natureza do meu problema e estivesse devidamente medicado. Pra evitar passar mal sozinho com ele novamente. Comecei a visitá-lo durante os fins de semana na casa da Julia, minha ex. 

Desde os começo das dores me senti motivado a relatar no Facebook experiências da minha infância e da juventude, além de falar um pouco sobre meus pais e minha família. Os textos tiveram alguma repercussão e passei a usar o espaço para divulgar trabalhos fotográficos meus, resenhas de livros, discos, filmes e outras coisas. Resolvi montar um blog com esse material chamado "Todos os Infinitos", título do livro que elaborei em 2019, e que acabou não sendo publicado em virtude da sequência separação-mudança-quarentena que vivenciei de agosto de 2019 até aquele momento.

O plano de saúde me fez perder tempo em função de uma informação errada que uma atendente me passou. Numa segunda-feira, ela disse que o plano iria procurar o médico para confirmar a necessidade dos exames. Dias depois, na sexta, já com novas dores, fui informado por um tal de William, de que eu é quem deveria ter feito o contato porque a clínica era filiada ao plano, mas o médico não. Enquanto eu falava com esse sujeito, William, que estava sendo até meio sarcástico comigo, meu peito pulsava de dor, e tive de colher com exatidão as informações, porque ser prejudicado pelo erro do plano e ter de resolver o problema sozinho em meio a uma crise de dor, realmente era algo que eu não contava naquele momento. Desliguei o telefone e, furioso por não ter mandado aquele boçal pra algum lugar, tive de ir à Santa Casa e passei a tarde de sexta tomando remédios e soro na veia. Como sempre, ao final, saí de lá sem maiores consequências.

No domingo, dia 28 de junho, estive na casa da minha ex e brinquei a tarde toda com meu filho. Quando estava voltando pra casa, passei numa lanchonete no Água Verde onde costumava comer um sanduíche que vinha com dois queijos empanados no lugar de um hambúrguer. Era um sanduíche vegetariano e, embora eu não seja adepto do vegetarianismo, sempre fui um forte apreciador de queijos. Aquele sanduíche me remetia ao tempo em que eu vivia com minha mulher e meu filho. Naquele dia, ele não estava tão bom. A lanchonete devia ter mudado a equipe e isso acabou afetando o resultado. Nem cheguei a comer tudo. 

Fui dormir lá por 1h30 da manhã e, às 3:28 da madrugada, acordei novamente com o mal estar abdominal acompanhado pela dor no peito. Ainda faltava dois dias para o primeiro exame marcado. A dor chegava aos níveis da angústia. Voltei à Santa Casa e fiquei das quatro da manhã às seis da tarde (15 horas) sentado naquelas poltronas tomando soro e remédios. A dor não passava como nas outras vezes.

O médico de plantão, muito simpático, foi claro: "João Cândido, nós vamos te internar. É a quinta vez que você vem aqui apresentando os mesmos sintomas. Não faz sentido te mandar pra casa e você voltar dois dias depois sentindo a mesma coisa". Mostrei a ele os exames que eu estava aguardando liberação por parte do plano de saúde. Ele disse: "vamos fazer tudo isso aqui na Santa Casa mesmo. Você é nosso hóspede de novo".



SEGUNDA PARTE - A COREOGRAFIA DAS SOMBRAS

"Vesícula Biliar" - "(...) Pedras na vesícula sugerem um impulso de agressividade, raiva, amargura, depressão, ansiedade e mau humor. Comum em pessoa que se sente dividida entre o desejo de ver o lado bom de todos e seu ressentimento por ser usada". (Dicionário de Medicina Alternativa) - indicação Caprice Jacewicz, psicóloga holística.

Capítulo 4 - O Ciclone
Passei por alguns trâmites e cheguei ao quarto. Ainda estava sob efeito da alta dosagem de remédios que havia tomado durante toda a tarde, mas sentia uma ressonância da dor que se espraiava atingindo de forma suave, mas perceptível, minhas costas. O quarto era grande e contava com duas camas, ambas desocupadas. Percebi que tinha algo estranho no bolso do meu casaco. Apalpei e senti uma textura meio de calcário. Tirei o objeto do bolso e era a grande concha que coletei na praia de Itapema do Norte (SC), em 1981. Eu a deixava exposta num armário com portas de vidro que pertenceu à minha mãe. Meu filho deve ter escondido a concha no bolso do casaco como brincadeira e, agora, ali estava eu, internado em um hospital, como tantas vezes meus pais estiveram, e segurando um objeto icônico da minha infância. Chegava a ser simbólico.

Naquele mesmo dia, tive meu primeiro contato com a rotina de um hospital, as medicações, tomadas de pressão sangüínea, horários do café, da janta e do chá noturno. Tentei ocupar minha mente com o celular. A única tomada elétrica compatível com meu carregador ficava no banheiro, então assim que a bateria acabava, eu conectava o telefone à tomada e ficava usando o celular em pé, encostado na porta. Contactei minha ex-mulher que ficou de me levar umas roupas no dia seguinte. Aquela noite, dormi com a calça jeans com a qual havia passado todo o dia. Estava tão exausto que só consegui tomar um banho e apagar naquela cama estreita e meio dura.

Na manhã seguinte, fui acordado por uma enfermeira que me perguntou se eu estava ok. Aparentemente eu me sentia bem. Não havia nenhuma dor, mas na hora do almoço pressenti que aquela sensação estava voltando e não consegui comer direito. À tarde, recebi as roupas que minha ex-mulher me mandou e dormi umas duas horas. Acordei com a entrada de outro paciente no quarto. Era um senhor de uns setenta anos. No começo, o estranhamento natural de sermos dois estranhos usando máscaras, mas após uma breve troca de palavras éramos amigos de longa data. Ele ia operar o coração e estava sob severos cuidados. Apesar disso, era um sujeito engraçado que me contava casos pitorescos de sua vida. 

Em certo momento, fui comunicado por uma enfermeira que o plano de saúde ao qual eu era filiado não queria liberar os exames que eu precisava fazer pra saber o motivo da minha dor. Eu estava desde segunda-feira esperando pra fazer os exames e os caras queriam fazer jogo duro.

Liguei para o plano e fui informado por uma mulher que, como minha situação não era cardíaca, não estava no rol das urgências em tempos de Covid. Eu disse à ela que minha dor era intensa, insuportável, mas ela não se emocionou, Disse que tudo dependia de um comitê interno e quis encerrar logo a conversa comigo. Como eu vinha mantendo um diálogo com David B, um advogado amigo meu, ex-colega de faculdade, pedi a ele que me ajudasse com a questão. Munido dos pedidos de exame que lhe mandei via Whatsapp, ele entrou em contato na manhã seguinte com a clínica que solicitou os exames e com o plano. Após esclarecer para a funcionária com quem conversei que se acontecesse algo comigo no hospital em virtude da leniência deles, o problema ia ser grande. Foi só expor as coisas nesses termos que as liberações foram aprovadas de imediato. 

Achei curioso o fato de que, após 8 anos de descontos contínuos no meu salário, o plano tenha se recusado a me ajudar justamente no momento em que mais precisei. E me causou maior espanto ainda, o fato de que eles só liberaram os tais exames após a intervenção de um advogado. Fiquei imaginando o que não passavam as pessoas que não dispunham de um advogado para lhes ajudar num momento como aquele. 

A perspectiva de uma eventual morte me fez sentir saudade de uma pessoa. Antonio me viu sentado no sofá meio desalentado e perguntou se estava tudo bem. Contei-lhe de modo superficial sobre as inconstâncias da minha vida amorosa. Ele puxou seu celular e disse: "Quando você achar que está começando a se incomodar com alguma mulher, escuta esse samba". Tratava-se de "Provei", de Noel Rosa e Vadico (1936), na interpretação da cantora Marília Batista. Eu estava acostumado com a versão Tom Jobim/Chico Buarque, mas ouvindo aquela voz da rádio antiga tomar o quarto, fiquei até emocionado. "Provei / Do amor todo amargor que ele tem, / Então jurei / Nunca mais amar ninguém / Porém, eu agora encontrei alguém / Que me compreende / E que me quer bem". Antonio era bem intencionado e demonstrava um surpreendente bom gosto para um cara que trabalhou quase a vida toda em atividades braçais (no momento, septuagenário, ele atuava como motorista de caminhão). Mas aquela música me fez pensar nas últimas frustrações amorosas da minha vida de 47 anos, e no fato de que agora eu estava internado num hospital com uma dilacerante dor no peito. Pela primeira vez naqueles dias no hospital, senti vontade de chorar, mas me contive, com vergonha de Antonio.

As horas se passaram. Durante todo o dia foram contínuos os anúncios na TV da proximidade de um ciclone em Curitiba. A dor surgia e desaparecia e eu estava me acostumando com aquilo. As pressões no peito estavam mais presentes. Às duas da manhã acordei sem motivo. Antonio dormia virado para o outro lado. O vento gerado pelo ciclone rugia com intensidade. Desci da cama e fui até à janela para ver a cena. A tempestade fustigava tudo que estava em seu caminho. Galhos das árvores vindos da Praça Rui Barbosa se chocavam contra a janela. Uma luz vermelha surgiu abaixo de mim. A janela estava embaçada, mas foi possível identificar uma ambulância se locomovendo a uns dez por hora. 

O motorista fez o contorno no pequeno estacionamento e, contrariando a força do vento e da chuva, conseguiu estacionar o veículo do outro lado do pequeno pátio. Do seu interior desceu um rapaz, que enfrentando o ciclone, abriu as portas traseiras e se vestiu com uma roupa  de proteção branca que isolou todo o seu corpo. Pareciam aquelas vestimentas usadas em acidentes nucleares, mas eu sabia que tinha a ver com o Covid. Ele retirou de dentro da ambulância um caixão que foi posicionado em uma maca e adentrou o hospital. Uns dez minutos depois, ele saiu com o caixão. Novamente abriu as portas traseiras do veículo e, com alguma dificuldade, conseguiu depositar a urna funerária em seu interior. Rapidamente tirou as vestes de proteção, entrou na ambulância e saiu com cautela do lugar em meio aos ventos lancinantes. Deitei e, depois de muitos pensamentos confusos acompanhados pela contínua presença daquele forte incômodo no peito e no abdômen, dormi algumas horas.


Capítulo 5 - Quinta-feira


Antonio realmente era um sujeito bem-humorado e, graças a ele, passei algumas boas horas. Até consegui comer um pouco mais do que as duas ou três colheradas habituais. Eu estava incomodado com aquela agulha enfiada em meu braço, a sensação de ter um pedaço de metal ligado ao meu corpo o tempo todo me causava um intenso mal-estar (aquilo me lembrava o filme "Hellraiser"), mas era necessário, pois constantemente eu tomava medicações que só podiam ser aplicadas via intravenosa. 


Nesse meio tempo, as enfermeiras disseram que os exames ainda não tinham sido liberados. Isso eram 11 da manhã. Falei com David B. e ele perguntou se eu teria alguém pra buscar os pedidos de exame, pois ele precisaria dos originais. Julia estava no seu trabalho novo e André Tramujas provavelmente estava dando aulas. David então mandou um motoboy ao hospital para buscar os documentos. Em razão do Covid, o emissário não poderia passar da entrada. As enfermeira levaram os pedidos, e ele, na sequência, transportou os documentos até a sede do plano de saúde. À tarde, fui informado de que o exame de tomografia fora liberado e que eu o faria ainda naquele dia. 

Conversando sobre isso com Antônio, descobri que ele também tivera problemas com seu plano. Da mesma forma, o companheiro de quarto que conheci depois, um senhor aposentado, também enfrentou dificuldades para agendar exames em virtude das burocracias do seu plano. O médico que me atendia comentou que a grande maioria das pessoas que ingressavam no hospital em condições similares às minhas tinha de lidar com entraves promovidos pelos planos. 

Sei que existem Conselhos Regionais de Medicina e que tudo é monitorado por órgãos do Governo Federal, mas se tantas pessoas passavam por problemas durante seus internamentos, alguma coisa estava errada. Cheguei a alimentar uma ideia: quando saísse do hospital, iria promover uma campanha ou criar uma ONG em favor daqueles que descobrem, no pior momento, que seus planos de saúde usam de má fé pra economizar dinheiro em cima da desgraça dos outros. Não sei se sou a pessoa indicada pra levar um projeto desses adiante, mas acredito que milhões de pessoas iriam agradecer a intervenção de um órgão externo quando algum William da vida resolvesse travar todo o processo, escondendo-se por trás de ironias e sarcasmos.

As dores ressurgiram, tímidas de início, como sempre, mas eu sabia que aquilo iria aumentar. Na hora do exame, fui conduzido de cadeira-de-rodas pelos corredores da Santa Casa. Eu já tinha escrito dois textos sobre aquele lugar, um de caráter histórico para o site da Câmara Municipal e, outro, uma ficção passada no final do século XIX, mas estar ali na condição de paciente era um contexto completamente novo. Naquele dia, com medo da morte e envolto por paredes altíssimas com mais de 170 anos que combinavam de forma tétrica com os ladrilhos dispostos no chão em tristes mosaicos, entendi, de fato, o conceito de gótico.

O exame de tomografia foi rápido. O médico injetou no meu braço um líquido que ele chamou de "contraste", e que serviria para facilitar a leitura do exame. Fui tomado por uma sensação estranha, mas ficou tudo bem e voltei ao quarto. Minhas dores aumentaram. 

Lá pelas seis e meia da tarde, um médico informou a Antonio que pra fazer sua cirurgia de coração ele teria de ser atendido pelo SUS e, consequentemente, seria transferido para outro setor do hospital. Fiquei triste pois ele era praticamente meu único contato com pessoas vivas e reais, com exceção dos médicos e enfermeiras. No mais, eu estava falando apenas com pessoas via celular, o que não era a mesma coisa. Falava eventualmente com meu filho, que, à essa altura, já estava desconfiado de que havia algo estranho. Minha aparência, minha voz e minha própria ausência denunciavam que alguma coisa estava errada. Eu tentava falar com ele de forma alegre, mas minha alma se contorcia de forma tão ou mais violenta que as dores que eu sentia.

Eu e Antonio nos despedimos e ele foi conduzido para outra ala da Santa Casa. Fiquei sozinho no quarto. A enfermeira de plantão me aplicou novos remédios, mas as dores não diminuíram e, em certo momento pedi a ela que me desse qualquer coisa que pusesse um fim àquela sensação. Ela disse que já tinha ministrado todos os remédios prescritos e que cabia a mim ter um pouco de paciência e esperar que eles fizessem efeito. Quando ela disse isso, pensei em me jogar da janela tamanha era a dor que eu sentia. Eu não conseguia ficar deitado e, em pé, as dores voltavam. Tive a convicção de que eu estava condenado, de que não iria conseguir ultrapassar aquela noite. 

Fiz alguns contatos com pessoas que não via há muito tempo, não queria partir sem falar com elas. Falei com o André Tramujas e a Carol, com o Luiz Júnior, com o Evandro Domingues, com o Marcelo Brum-Lemos, com a Samantha Albini, com o Carlos Barbosa, com a Graciella e mais algumas pessoas. A exemplo do cantor Cazuza, criador do conceito de "show-velório", eu sentia vontade de me despedir. 


Depois senti um desejo de externar pensamentos finais e, mesmo dominado pela dor, consegui escrever algumas palavras no meu perfil do Facebook. Foram elas: 

"Como todo mundo, fiz muita bobagem na vida e, eventualmente, produzi um ou outro texto interessante, algumas fotos que valem a pena ser observadas, algumas pesquisas sobre a história de Curitiba, três ou quatro músicas, esse tipo de coisa. Enfrentei uns FDP sem caráter pelo caminho, fiz amizades sinceras com pessoas magníficas e tentei amar só mulheres inesquecíveis. Mas, certamente, minha maior contribuição para a humanidade foi o Henrique, que surgiu da minha união com a Julia. Desde que nasceu, ele me ensina todo dia o que é o amor de verdade, totalmente puro, verdadeiro e desinteressado. Não, eu não vou morrer, não que eu saiba, mas lembrei daquela cena de Blade Runner em que o policial colega de Decker comenta sobre a finitude, a baixa perspectiva de vida da replicante que o caçador de andróides ama. Ele diz a Decker: ela não vai durar muito. Mas, no fim das contas, quem vai?"



Publicadas essas palavras derradeiras, encostei na cama e já não conseguia mais nem gemer de dor. A enfermeira veio e perguntou se eu estava melhor. Respondi que não. Ela disse que eu estava com pressão alta e que isso poderia ser resultado do contraste que me foi aplicado à tarde, durante o exame. Ela saiu e voltou com alguma medicação que tomei meio de qualquer jeito, dormindo profundamente em seguida. 

Quero esclarecer que em todos os momentos em que estive no hospital, os médicos e enfermeiras foram de uma delicadeza única e demonstraram um real interesse em mim e na minha saúde. Eles mereciam estátuas em todas as praças do Brasil e do mundo. Mas há mentecaptos que, por razões políticas, desqualificam esses profissionais para defender ideias sem embasamento científico ou moral.



Capítulo 6 - Sexta-Feira
Acordei umas 9 da manhã, praticamente sem dor. A enfermeira me deu as medicações, mediu minha pressão e saiu para atender uma situação emergencial. A porta ficou momentaneamente aberta. Uma canção vinha do quarto ao lado. Demorei alguns segundos para identificar, mas percebi que era "Sabiá", de Tom e Chico, aquela que foi vaiada num daqueles festivais da canção dos anos 60. Era a versão do grupo MPB4. O rádio deveria estar ligado na Educativa. Os versos finais traduziam minha vida: "Não vai ser em vão / Que fiz tantos planos / De me enganar / Como fiz enganos / De me encontrar / Como fiz estradas / De me perder / Fiz de tudo e nada / De te esquecer". Junto com o café, uma enfermeira deixou novas roupas que minha ex-mulher trouxe e levou as que estavam sujas. 


Após comer um pouco e ingerir o café meio à força, fiquei olhando a internet de modo aleatório. Desde que cheguei ali no domingo de madrugada, eu não havia pensado em mulheres e, naquele dia, acordei com dores, porém excitado. Quando vi, eu estava olhando um dos símbolos sexuais da minha infância-juventude: a atriz Lídia Brondi. Eu a seguia no Facebook e ela postou uma foto muito sensual do seu ensaio para a revista Playboy, em 87. Não resisti, procurei a imagem original, maior e mais explícita e postei no Facebook, consciente que poderia ser banido por uns dias,o que não aconteceu. Havia outras imagens do seu corpo nu. Em poucos segundos eu estava hipnotizado e me posicionando na cama para saciar o meu desejo. Percebi que os movimentos me provocavam dor e desconforto, mas insisti, eu estava praticamente sentindo o cheiro daquela mulher, quando, de súbito, o médico abriu a porta. Ele parou, me olhou e voltou para trás, enquanto fingia que estava atendendo o celular. A porta fechou. Desliguei o telefone, me arrumei na cama e fiquei olhando inocentemente pra parede.

Ele entrou novamente e disse que eles já sabiam qual era meu problema. Uma pedra na vesícula. Enorme. Segundo o médico, era necessário operar. Um procedimento cirúrgico que, se não era simples, também não representava nada do outro mundo. Eu ouvi tudo calado e, por mais confortáveis que fossem suas palavras, senti medo de sofrer uma intervenção cirúrgica. Com o passar do dia, recobrei a confiança e vi que não adiantava eu me preocupar de forma adiantada. O jeito era encarar a situação e deixar a Ciência fazer seu papel. A dor estava lá, abafada, mas ainda pulsando surda dentro de mim, pronta para explodir a qualquer momento. Vale lembrar que eu estava há dias sem usar direito o banheiro, simplesmente não conseguia. E aquilo era outro motivo de incômodo. 

No final da tarde, uma enfermeira disse que eu seria transferido para o outro quarto, pois a ala onde eu estava seria destinada aos novos casos de Covid que chegavam ao hospital de forma incessante. Fui levado pelos corredores do hospital e me deparei com um quarto menor que o anterior, mas também com duas camas, sendo que numa delas estava outro senhor, este de nome José. Ele era mais novo que Antonio, mas seu estado de saúde era precário. Diabético, ele vomitava uma pasta preta e se movimentava com dificuldade. Seu olhar era de cansaço. Devia estar lidando com a dor há meses, anos talvez. 

Ficamos amigos e trocamos algumas ideias. Como Antonio, ele também dirigia caminhões. Perguntou se eu sabia a sensação de dirigir um Scania. Eu não queria decepcioná-lo ao revelar que o maior veículo que já dirigi tinha sido um furgão prateado de câmbio automático que pertencia a uma ex-namorada, então inventei que na juventude tive umas aulas de direção de caminhão com meu tio que era caminhoneiro (tio que realmente existiu e que, por muito tempo, foi um dos motoristas que levavam mantimentos para os garimpeiros de Serra Pelada). Na verdade, ele era filho da prima de meu avô, então realmente não sei nosso grau de parentesco. Mas era uma figura cujas histórias fizeram parte do meu imaginário durante anos. José dormiu enquanto assistíamos a uma péssima novela da TV Record. 

Eu estava ansioso, meu peito doía, meu abdômen estava inchado e havia outros desconfortos. No dia seguinte eu seria operado e a possibilidade de morrer, por menor que fosse, me dominava, fazendo o frio do quarto parecer mais intenso do que realmente era. O escritor Carlos Castañeda, durante algum tempo teria seguido um xamã que vivia no deserto, com o objetivo de também se tornar um "brujo". Esse xamã, de nome Don Juan, dizia que a morte sempre está a um braço de distância de qualquer pessoa. No meu caso, naquele momento, a morte estava sentada sobre meu peito, me olhando de frente naquele quarto escuro. Pensei que precisava ouvir alguma música antes de dormir, uma última música antes de ser operado. Mas que música? Eu gostava de tantas, de todas as épocas e estilos. Mas qual seria minha música final? Após pensar alguns minutos, optei por esta, que ouvi baixinho pra não acordar Antonio, por umas três vezes seguidas. Dormi com muito custo, mas consegui dormir.


Capítulo 7 - Sábado


Acordei umas 6 e meia e tomei um banho. A torneira do chuveiro dava choques, era necessária toda uma logística pra ligar o negócio. Naquele momento a dor estava estável. Presente, mas calma. Uma enfermeira veio ao quarto e me disse que em breve eu seria levado à mesa de operações. Encarei José, que estava sentado num sofá com seu olhar mais pra lá do que pra cá, e disse a ele: "Se eu não voltar, foi um prazer ter te conhecido, foi um prazer ter vivido com toda a intensidade. E viva a Mangueira e o Garrincha, gênio do futebol Mundial". José deu risada e disse: "Daqui a pouco você tá de volta. Eu é que não sei se vou estar aqui quando você voltar". 

A enfermeira veio e eu me posicionei na cadeira-de-rodas. Fui conduzido novamente pelos corredores soturnos da Santa Casa, até que chegamos ao Centro Cirúrgico. No caminho, vi médicos operando outros pacientes. O teto era mais baixo e as paredes pintadas de um cinza escuro. Quando chegamos, saí da cadeira de rodas e eles me pediram pra deitar na mesa. Eu disse: "tenho um filho de 4 anos e, recentemente descobri que sou um escritor até razoável. Não posso morrer agora". 

Uma enfermeira jovem de olhos muito verdes se aproximou e me tocou no braço. "Você não vai morrer, deixe com a gente. Você tem a seu favor a tecnologia e a experiência do doutor A. Confie na equipe". Deitei na mesa e o doutor A, médico-chefe da cirurgia, me explicou o que iria ser feito. Uma tábua foi estendida ao lado do meu corpo. Ela servia para posicionar meu braço esquerdo que já foi imediatamente conectado a algum tipo de soro. O médico me observava. Fez algumas perguntas e disse que eles iriam me sedar. Perguntei a ele o que havia atrás da janela espelhada no fundo da sala. Ele respondeu que nada, só um corredor. Eu disse a ele; "Espero que o Doutor House esteja do outro lado e, caso algo saia errado, ele invada a sala dizendo deixem comigo, eu resolvo". Doutor A. colocou o oxigênio na minha boca e no meu nariz e disse "O Doutor House é igual ao Super-Homem, ele não existe. O que existe é essa máquina aqui, eu e o resto da equipe". Eu ia dizer que estava só brincando, mas tive uns risos involuntários com aquele oxigênio e desmaiei completamente.


Algumas horas depois, eu acordei com uma parte da equipe dispersa pela sala e alguns conversando de forma relaxada em torno de mim. Sentia como se um trator tivesse passado sobre meu corpo. Eu conseguia me mexer, mas meu abdômen latejava. O médico-chefe disse. "Impressionante, nunca vi uma pedra desse tamanho. Pela sua altura e peso, é inacreditável que você tenha carregado isso durante todos esses meses. Na verdade, devem ter sido anos, porque uma coisa dessas não aparece de um dia pro outro". Ele me mostrou a pedra. Era maior que uma bolinha de gude, mas tinha uma coloração meio marrom, meio bronze, uma dessas coisas que a gente só vê em filmes de terror.

Fui levado ao quarto de maca e, no caminho, vi pessoas passando por mim e me olhando com curiosidade. Mas havia também quem estava envolvido com seus problemas e pouco preocupado comigo. Havia as enfermeiras e os médicos. Os demais pacientes, os funcionários do hospital. O Covid pairava no ar e éramos todos sombras dançando uma coreografia da morte. 

Quando chegamos, José passava mal. Passava bem mal. Enfermeiros corriam à sua volta. Ele foi colocado numa maca. Aproveitei a proximidade e toquei sua cabeça com a mão. Disse o que ele queria ouvir: "Vai com Deus, José, ele vai te cuidar". José tentou me olhar com esforço, mas não conseguiu. Antes dele ser levado, ouvi sua voz dizendo: "Você também fique com Deus, a gente se vê".

Fiquei sozinho no quarto. Dormi umas horas e acordei à noite precisando ir ao banheiro. Foi uma luta, e só consegui chegar lá com a ajuda de uma enfermeira. Todos os movimentos do meu corpo estavam comprometidos e eu me assemelhava a um ancião de 80 anos ou mais, andando um passo de cada vez. Pra deitar de volta na cama, outra batalha. Eu sabia que o médico queria me dispensar já no dia seguinte, mas era óbvio que eu não estava em condições de ir para casa. A dor no peito havia sumido, mas o pós-operatório estava complicado. Consegui conversar com algumas pessoas pelo celular como a Juliana E. e a Bruna B., o que foi bem importante naquele momento.  Pela primeira vez, dormi sem a dor no peito. Apenas uma indisposição física decorrente da operação. No final, estava tudo dando certo.

Só que durante toda a noite, fui acordado por gritos terríveis de dor, uma voz de mulher, era um gemido que vinha do fundo da alma, uma coisa horrível. Eu ouvia aqueles gritos e me sentia agradecido por minhas dores no peito terem passado. 
Capítulo 8 - A Suspeita
Quando o médico veio me visitar no dia seguinte para dizer que eu poderia ir pra casa, eu mal conseguia me movimentar, e cada esforço era seguido de um gemido e de uma respiração ofegante pela dor. Tossi, pois estava há uma semana sem fumar, e o médico entendeu que eu deveria ficar mais uns dias pra verificar se eu não tinha contraído o Covid. Fui pego de surpresa, mas concordei, pois era claro que eu não ia conseguir ficar sozinho em casa.

Pouco tempo depois, uns enfermeiros paramentados com aventais especiais e máscaras me levaram para um quarto onde só havia uma cama. Era um espaço pequeno em comparação com os outros lugares onde fiquei na Santa Casa. Era escuro e meio melancólico. O lugar era tão lúgubre que cheguei a tirar uma foto noturna da janela do banheiro (que calculo ser da década de 20 ou 30) com a luz apagada, pois eu seria incapaz de transmitir em palavras a melancolia que essa imagem transmitia. 









































A janela do quarto, por sua vez, dava para a rua e era possível ver um pedaço do prédio da Santa Casa e as pessoas transitando na rua Alferes Poli e na Praça Rui Barbosa. Também tirei algumas fotos desse ponto de vista e cheguei a publicar algumas delas no Facebook, dando indicações do local onde eu estava, mas ninguém percebeu que a foto foi tirada de dentro da Santa Casa.






Eu arrumei a cama e me deitei. Liguei para Julia com a intenção de contar as novidades e falar um pouco com meu filho. Minha conversa com Henrique pelo vídeo foi um pouco confusa e ele se afastou do telefone. Minha ex se aproximou e disse, "Henrique fale com o papai". Ele estava distante mas ouvi sua voz dizer: "Tô com medo do papai".

Quando ele disse isso, foi como se todas as agulhas do mundo tivessem tocado meu corpo e rasgado minha pele com fúria. Desliguei o telefone e comecei a chorar. Fui tomado por uma tremedeira incontrolável e meu choro se tornou convulsivo. Por sorte, não entrou ninguém ali, pois as pessoas poderiam pensar que além de problemas físicos, eu também estava com problemas mentais. Horas depois, Julia me ligou e disse que estava tudo bem, que Henrique era criança e que nem lembrava do que tinha dito. De fato, ele falou normalmente comigo. Não parecia assustado. Brinquei com meu filho usando os efeitos do celular que ele tanto gosta. Tive um alívio, relaxei e dormi novamente. 

No dia seguinte, pedi ao meu amigo Maurício S, que mora perto da Santa Casa, que me levasse umas roupas. Eu sabia que a minha ex-mulher não poderia, pois ela estava iniciando uma nova atividade profissional naquela exata manhã. Meu amigo, antigo companheiro de Rock and Roll, gentilmente levou algumas roupas limpas, Tomei um banho e as vesti. Com alguma luta, consegui escalar a cama e me posicionar. Assim foi pelos dois dias seguintes, até que meu corpo foi destravando e, no final da terça, eu já me movimentava quase normalmente.

Mas houve os testes do Covid. Uma extração de sangue arterial (bem mais dolorida que a venosa). Você sente vontade de subir pelas paredes de tanta dor. Na sequência, o teste do cotonete no nariz que invade sua cabeça até o cérebro, uma das sensações mais desconfortáveis que senti na vida. Por fim, uma tomografia para verificar a circulação de oxigênio no pulmão, ou algo assim. Havia uma pequena fila para o exame. A morte estava ali, naquele corredor, estava nos olhares trocados pelos enfermeiros que ficaram nervosos quando a porta da sala de exames travou. 

Eu estava sentado na cadeira de rodas e uma outra paciente, uma senhora japonesa, me olhava de forma interrogativa. Uma das enfermeira me reconheceu e disse "Seu João, quando sair daqui vamos comer um strogonoff". Eu disse: "Sim, com certeza. e depois uma costela regada a vinho Campo Largo, daqueles bem vinagre". Todas as enfermeiras riram. A tomografia foi rápida. Em poucos minutos eu estava de volta ao quarto, aos meus pensamentos, à minha epifania.

Pela manhã, acordei com a notícia de que o maestro Ennio Morricone havia morrido. Escutei o tema de "Era uma vez no Oeste" e senti uma incontornável vontade de chorar. O dia passou modorrento, mas, no final, fui informado de que meu teste de Covid deu negativo. Eu iria embora no dia seguinte. Quando a enfermeira saiu do quarto, fui até a sacola e peguei a concha da minha infância que estava depositada no fundo. Sentei na beirada da cama e fiquei um tempo tentando ouvir o som do mar.


TERCEIRA PARTE - O PESO DA LUZ

Capítulo 9 - A Casa
Fui conduzido à porta do hospital por uma gentil enfermeira. Contei a ela que o prédio era de 1854 e ela ficou espantada. Ao sair, olhei para trás e tirei uma foto da entrada do edifício mais do que sesquicentenário. Agora, minha vida estava vinculada a ele em definitivo. 

A ambientação de volta à casa foi, de início, um pouco complicada, pois eu não estava ainda me movimentando 100%, e havia os aspectos alimentares que mudaram radicalmente. No dia seguinte à minha vinda, fui visitado por David B e Maurício M, que além de me levarem comida, me ensinaram como preparar uns pratos de acordo com minha nova dieta e a combinar carboidratos, proteínas e verduras. Também contei com a ajuda das irmãs Mah e Lu, filhas do seu Zé da Copel, jardineiro que cuida da grama aqui de casa há alguns anos. 


Capítulo 10 - O Encontro 








































Um dia antes do meu primeiro encontro com meu filho Henrique após o Hospital, tive uma crise de choro quando conversava com ele ao telefone. Isso durou umas 2 horas. Julia, minha ex, disse que era natural, diante das coisas que vivenciei e assisti durante o período internado. Como eu não podia dirigir e nem subir escadas, ela concordou em trazer Henrique à minha casa. Quando o vi, tive de me conter pra não chorar. No hospital, cheguei a imaginar que nunca mais iria revê-lo. Cheguei a sonhar que o estava abraçando e acordei envolvido pelo breu do quarto. Acho que nunca antes eu o amei com tanta força. Nunca seu toque e seu olhar me foram tão importantes. Como eu escrevi no hospital, se eu fiz algo de bom nessa vida, foi essa criança. 

O dia foi maravilhoso e, por sorte, tenho um bom relacionamento com Julia, de quem me tornei amigo. Depois de uma semana e meia internado na Santa Casa com o peito explodindo de dor, ver meu filho rindo e brincando em minha casa era um milagre. Quando eles foram embora, agradeci à Julia. Apesar de não nos amarmos mais como marido e esposa, tenho de admitir que ela é sensacional. Algum tempo depois, explodiram as cores das orquídeas que reposicionei no jardim antes de ir para o hospital, com o objetivo de que ficassem expostas ao Sol e ganhassem vida.






































Sem comentários:

Publicar um comentário