sábado, 27 de junho de 2020

SETE LIVROS
A amiga Fernanda Ferreira Rigoni me desafiou a postar 7 livros que tenham me marcado. 




OS BURACOS DA MÁSCARA (1985) 
Antologia de Contos Fantásticos

Vou começar por essa coletânea de contos fantásticos organizada pelo poeta e pesquisador José Paulo Paes (1926/1998) e lançada pela Editora Brasiliense em 1985. À época, eu estava com 12 anos e li uma resenha sobre o livro publicada na revista Veja. Um texto curto, mas muito instigante que me provocou ao ponto de eu pedir um dinheiro ao meu pai para comprar a coletânea.

Quando a ciência passou a intervir de forma mais direta na vida das pessoas (vacinas, lâmpada elétrica, máquinas a vapor, etc), alguns autores resolveram criar textos em que deixavam em aberto se os fatos narrados seriam fundamentados na realidade ou fantasias. Essa hesitação em entender o evento narrado no conto como algo real ou imaginário, de acordo com teóricos como Tzvetan Todorov e Irène Bessière, caracterizou a literatura fantástica produzida entre o final do século XVIII e o começo do XX, até que Kafka propôs outras possibilidades para o gênero. Mas foi com autores como Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant que o fantástico moderno ganhou popularidade e projeção até os dias de hoje.

Eu poderia falar sobre cada um dos contos do livro, mas isso seria cansativo, então só vou destacar o conto "Os fatos no caso do senhor Valdemar", de Poe. O "mesmerismo" (hipnose) estava em voga no século XIX e o genial escritor americano mostra até onde vão os limites entre a ciência e o horror sobrenatural.

Compõem a coletânea: E. T. A. Hoffmann (A Casa Deserta); Edgar Allan Poe (Os fatos no caso do Sr. Valdemar); Théophile Gautier (O Pé da Múmia); Charles Dickens (O Sinaleiro); Gustavo Adolfo Bécquer (O Monte das Almas: lenda soriana); Villiers de l'Isle-Adam (O Segredo do Patíbulo); Guy de Maupassant (O Horla: primeira versão); Jean Lorrain (Os Buracos da Máscara); Saki [aka] H. H. Munro (Sredni Vashtar); Franz Kafka (Um Médico de Roça + A Aldeia mais Próxima + A Ponte); Murilo Rubião (O ex-mágico da Taberna Minhota); José J. Veiga (A espingarda do Rei da Síria).

Não sei se o livro teve reedição, mas ele é de fácil acesso nos sebos virtuais a preços que não ultrapassam R$ 10,00. Existem muitas coletâneas de contos fantásticos no mercado, mas considero essa fundamental pra quem quer se embrenhar no gênero.


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O PAPEL DO JORNAL (1974)
Alberto Dines - jornalista e escritor, 1932/2018.

“Um retrospecto da história do jornal, desde o seu surgimento em 1605, revela que ele resistiu, assim como o livro, a todos os embates da tecnologia e das mudanças sociais. O obscurantismo político, a revolução industrial, as invenções para vencer as distâncias, as guerras, as migrações, a recessão econômica, a TV, tudo, enfim, foi absorvido pelo veículo mais institucionalizado de todos, o jornal diário”. (Alberto Dines - O papel do jornal, 1974)

Alberto Dines é bastante lembrado pelas inovações gráfico-editoriais que consolidou no Jornal do Brasil, quando foi diretor do diário no início dos anos 60. Essas mudanças haviam sido iniciadas uma década antes com Odylo Costa Filhoe e continuaram com Jânio de Freitas, após a saída de Dines em 73. Essas inovações foram incorporadas pelos maiores jornais brasileiros nos anos seguintes. Mas ele também atuou em muitos outros veículos (revista Visão, revista Manchete, jornais Última Hora e Tribuna da Imprensa, o já referido JB, Diário da Noite, pasquim, etc) e foi o criador do Observatório de Imprensa (com versões para TV, rádio e internet), projeto em que propunha debater questões relativas ao jornalismo e às mídias em geral. 



O livro "O Papel do Jornal" (Summus Editorial) é uma conseqüência das pesquisas desenvolvidas nos Cadernos de Jornalismo, que vinham inclusos no JB. Em 74, ano de lançamento do livro, o jornalismo brasileiro enfrentava duas crises: a falta de papel, que já estava obrigando os jornais a reduzir suas tiragens, e a falta de liberdade de comunicação, já que a censura estava em vigor e plenamente ativa. Dines sabia que não podia abordar profundamente o segundo assunto, pois teria problemas.


Resolveu, então, discutir todos os aspectos do jornalismo a partir da questão da crise da falta de papel (celulose). Questões éticas, aspectos técnicos, a imparcialidade e o partidarismo no jornalismo, o papel do profissional, suas garantias enquanto trabalhador, e diversos outros temas.

E ele não deixou de falar da censura: "A comunicação pode unir um país dividido. A censura – porque não pode ser disfarçada – aumenta rancores e cisões. O zum-zum certamente tem seus inconvenientes, mas sem ele é muito pior: a colmeia se desorienta, perde seu sentido e seus valores, quebra-se a sua estrutura. Sem a comunicação livre e espontânea, a colmeia será uma construção abandonada e oca".

Quando estava no JB, Dines foi responsável por uma das primeiras páginas de jornal mais contundentes já feitas (foto 3). Em entrevista a Francisco Ucha para o Jornal da ABI (números 374 e 375, de janeiro e fevereiro de 2012) Dines relata o evento:

“Uma das causas da minha saída do JB, em 1973, foi porque eu forcei isso. Quando houve o golpe militar no Chile, veio a ordem da censura para não dar manchete sobre a derrubada do Salvador Allende. Mas a ordem chegou tarde da noite e o Allende estava na manchete! A essa altura, eu já não fechava o jornal. Nós decidíamos a primeira página e eu ia para casa. Já me dava esse direito. O Lemos também já tinha saído e quem ligou foi o Maneco Bezerra [da Silva], excelente jornalista que trabalhava na oficina. Ele alertou da ordem e fui imediatamente para lá. Morava em Ipanema, pegava o Aterro [do Flamengo] e era fácil chegar ao prédio novo do JB naquela hora, quase 11 horas. Quando cheguei um dos superintendentes do jornal já estava lá, mas ele não se meteu. E aí eu falei: ‘Vamos obedecer. Não vamos dar na manchete. Vamos fazer um jornal sem manchete! Vamos contar a história com o maior corpo possível da Ludlow…’ esse era corpo 24, se não me engano… Contamos a história toda e ficou, digamos, um pôster sem manchete. O superintendente do jornal me perguntou: ‘Dines, você tem certeza mesmo que quer fazer isso?’. E eu respondi que nós estávamos obedecendo às autoridades. No dia seguinte o Armando Nogueira, que estava na TV Globo, me telefonou logo cedo: ‘Porra! Isto é uma revolução!’. A direção não criticou nem elogiou. Quem elogiou foram os bons jornalistas. A capa está reproduzida em um livro que organizei, Cem Páginas Que Fizeram História, com a reprodução de outras páginas importantes de vários jornais. Mas a verdade é que três meses depois eu fui demitido por ‘indisciplina’.”

Também recomendáveis são as biografias escritas por Dines: "Morte no paraíso, a tragédia de Stefan Zweig" (1981) e "Vínculos do fogo – Antônio José da Silva, o Judeu, e outras histórias da Inquisição em Portugal e no Brasil, Tomo I" (1992).


Foto 1: Livro "O papel do jornal"
Foto 2: Imagem de Dines usada na capa do livro “Ensaios em homenagem a Alberto Dines- Jornalismo/ história/ literatura”, publicado pela Edições de Janeiro em 2017.
Foto 3: Solução gráfica proposta por Dines para anunciar na primeira página do JB a morte do presidente chileno Salvador Allende, em 73. A censura não queria estardalhaço sobre o fato, então o jornalista publicou o texto sem manchete e sem foto, o que acabou chamando mais atenção do que se a notícia tivesse sido diagramada no modo convencional.
Foto 4: Circuito Cultural Banco do Brasil - Curitiba, dezembro de 2002. À direita, Alberto Dines. Foto: João Cândido Martins


Sobre Alberto Dines cpdc/fgv




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O GANHADOR
Ignacio de Loyola Brandão, 1987.

O livro não é dos mais conhecidos do Loyola. Talvez para isso contribua a capa pouco atrativa proposta pela Editora Global à época. Recentemente eles relançaram o livro com outra capa e outro título: "A Noite Inclinada". O livro é um passeio pelo chamado "Brasil profundo" (o clichê nesse caso é inevitável). O personagem principal é um cantor que compõe suas próprias canções e vive viajando pelo interior do país para participar de pequenos festivais de música. O curioso é que ele não tem um braço.

Ele nunca ganha nada, mas recebe a alcunha de "O Ganhador" e experimenta situações insólitas em diversas cidades espalhadas pelo Brasil afora. O livro não segue uma linearidade formal. Cada capítulo funciona como um conto isolado sobre a vida do Ganhador. Em 87, já vigorava um clima de liberdade de expressão que permitiu que Loyola fizesse claras críticas ao regime militar em seu livro.
Tive o privilégio de conhecer o Ignacio de Loyola Brandão na tarde de autógrafos que ele fez de "O Ganhador", em 14 de agosto de 87. Se não me engano, o evento aconteceu na antiga livraria Curitiba da Marechal Deodoro, que ficava numa casa dos anos 20 (a casa ainda existe). Estive com meu pai lá e conversei com o Loyola. Eu tinha 14 anos, mas já tinha lido "O verde violentou o muro" e "Bebel que a cidade comeu". Só fui conhecer o livro "Zero" anos depois, já na faculdade.






Naquele dia, uma equipe de TV fez uma matéria com o escritor e fui filmado conversando com ele. As imagens foram usadas no 
encerramento do jornal local da noite (não tenho certeza se era da 
Globo ou da Bandeirantes). Na época, não havia vídeo-cassete lá em casa, portanto não tenho uma gravação disso, mas imagino que em alguma gaveta de alguma emissora aqui de Curitiba exista essa matéria arquivada. Na dedicatória, ele escreveu que a leitura ajuda a diminuir a angústia. Em tempos de pandemia essas palavras soam mais que verdadeiras.

Obs.: convém lembrar que em "O verde violentou o muro", de 1982, Loyola criou um personagem que é um capitão ligado a “milícias” e que carrega parte do intestino em uma bolsa atada à cintura. O romance mostra um futuro próximo em que a Amazônia virou um deserto e cientistas são perseguidos.



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HISTÓRIA DO PERÍODO PROVINCIAL DO PARANÁ - 
GALERIA DE PRESIDENTES (1853-1889) 
David Carneiro, 1960

Meu pai tinha, e ainda conservo, a 1ª edição do livro lançada em 1960. É praticamente uma edição de luxo com imagens (e as assinaturas) de todos os políticos que exerceram a presidência da província, desde a emancipação em 1853 até a proclamação da república em 1889. O livro também traz tabelas explicativas sobre a economia do Paraná durante o período. Mas o que interessa mesmo é o texto resultante das pesquisas de David Carneiro, empresário e positivista convicto que montou o Museu David Carneiro na Lapa, instituição que chegou a ter 6 mil peças da história paranaense (inclusive o pelourinho de Paranaguá, que Carneiro encontrou jogado num quintal). Ele também foi dono de uma empresa cinematográfica e de alguns cinemas.

"História do Período Provincial do Paraná" recebeu uma nova edição em 1994, patrocinada pelo Banestado.


Texto da professora Cassiana Lacerda sobre David Carneiro publicado na comunidade Antigamente em Curitiba 

Cassiana Lacerda
17 de fevereiro de 2019

DAVID ANTONIO DA SILVA CARNEIRO 
(Curitiba, 29 de março de 1904 – Curitiba, 3 de agosto de 1990).
Historiador, professor universitário, escritor, ensaísta, pesquisador, museólogo, colecionador, estudioso de heráldica e nobiliarquia, professor universitário, empresário de cinema, empreendedor e mecenas.

Filho do Coronel David Antonio Carneiro e de Alice Monteiro Carneiro, interessa-se por temas históricos desde os tempos de menino, quando começa a colecionar moedas, sob incentivo, respectivamente, de seu pai e de seu avô.

Essas moedas foram a gênese do Museu Coronel David Carneiro, criado por ele em 1928 e, posteriormente, reunido no Museu David Carneiro. Entre 1918 e 1922 estuda no Colégio Militar de Barbacena e e, a seguir, no Colégio Militar do Rio de Janeiro/RJ. Influenciado por professores como Alfredo Severo e Heitor Cajati, guarda desse período a identificação com a filosofia positivista de Augusto Comte, que passa a seguir e a propagar, tendo construído no prédio do museu uma Capela Positivista. Avesso à carreira militar, volta a Curitiba, entre 1923 e 1924, onde tem aulas com o pintor Lange de Morretes.







Imagem: David Carneiro (blog Pinterest)


Em 1927, diplomou-se em Engenharia pela UFPr.
Nesse período, seu colega de Colégio Militar, João Gualberto Gomes de Sá Filho, casado com Zoé Lacerda, o levou para a Lapa. A primeira impressão que teve da cidade foi péssima. João Gualberto, para desfazer aquela sensação, oferece-lhe um copo de água do Monge, que segundo os antigos o levaria a casar com uma lapeana. É quando conhece Marília Suplicy de Lacerda e passa a visitar a Lapa semanalmente. Chegava dirigindo seu Porshe e, talvez por emoção, foi responsável pelo primeiro acidente de carro na Lapa (como ocorreu em Curitiba, o acidente foi com uma carroça). Ainda estudante, casa-se, em 1924, com Marília Suplicy de Lacerda, uma belíssima mulher, eterno amor de sua vida e companheira até o fim da vida. Única queixa que dizia ter de Marília era o fato de não ter aderido ao Positivismo. O retrato de Marília por Theodoro de Bona é belíssimo e, hoje, encontra-se no MON. 

Chegou a viver na Lapa, cidade natal de sua esposa, quando começa a colecionar peças históricas do Cerco da Lapa, pois já considera aquela episódio histórico, uma das mais importantes participações militares do Paraná em defesa da República. Gradua-se em Engenharia, pela UFPR, em 1927. No ano seguinte, com o falecimento de seu pai, David Carneiro – primogênito da família – assume a empresa familiar, a Ervateira Americana. É nessa época que começa a colecionar, além de objetos históricos, obras de arte, em especial cenas históricas e retratos. Faz amizade com o poeta simbolista Dario Vellozo e frequenta então, assiduamente, o Templo das Musas, ponto de encontro de artistas e intelectuais em Curitiba. A convite do General Mário Tourinho, então Interventor no Paraná, torna-se, em 1930, o segundo presidente do recém-fundado Banco do Estado do Paraná (Banestado), cargo em que permanece até 1932. Lança em 1934 seu primeiro livro, “O Cerco da Lapa e seus Herói”, no qual aborda os antecedentes e as conseqüências da Revolução Federalista no Paraná. Nas décadas seguintes, David Carneiro firma-se como uma das maiores personalidades da cultura paranaense, em razão de sua produção intelectual, da colaboração por quase duas décadas em jornais, do apoio oferecido a vários jovens artistas e do acervo histórico pessoalmente reunido ao longo de quase 70 anos.




Imagem: blog keyimaguirejunior

Em 1940, ano no qual a Ervateira Americana ( Rua Comendador Araújo com Brigadeiro Franco) sofreu um incêndi. Mas, nesse mesmo ano,, concebe e financia o Monumento à República, na Praça Tiradentes.
David Carneiro foi um aficionado pelo cinema, tanto que manteve uma sala de projeções na sua Quinta de Val de Lobos (situada na região do Parque São Lourenço), cujo nome evoca Alexandre Herculano, assim como a residência da Rua Brigadeiro Franco foi inspirada no Ramalhete de “Os Maias” de Eça de Queirós.
Manteve também uma sala na Rua Comendador Araújo, na qual projetava produções da Flama Filmes, talvez de sua propriedade.

Em 1941, David Carneiro investiu na construção do prédio de 6 andares, na Avenida, um milhão e duzentos contos de réis, "uma fortuna", segundo suas palavras. O projeto foi do arquiteto Lucas Meurhofer, que optou pelo estilo art déco. Destinado, inicialmente, a ser apenas residencial, o edifício acabaria tendo seu térreo dividido para a entrada de um grande cinema e também uma luxuosa confeitaria.

O nome do edifício, "Eloísa", foi uma homenagem que o David Carneiro fez a sua primeira filha, Eloísa Eliodora Alice Carneiro (12/08/1933-18/03/1938), falecida devido a doença crônica. O Edifício Eloísa foi o primeiro edifício de Curitiba a ter um penthouse, que o professor David Carneiro reservou para sua residência.

Ali morou entre 1943/ 1949, quando construiu sua casa na Rua Brigadeiro Franco, que tinha o Museu como anexo, com entrada pela Rua Comendador Araújo.
Durante muitos anos, somente familiares, ou pessoas muito amigas, ocuparam os amplos, luxuosos e confortáveis apartamentos do Edifício Eloisa.



Imagem: Rua XV, Cine Ópera (Pinterest)

O luxuoso Cine Ópera, que funcionava no térreo, foi inaugurado em julho de 1941, com “All This And Heaven Too” -Tudo Isso e o Céu também - (1940) .

Durante quase 30 anos, seria a sala mais elegante e movimentada da cidade, pois mesmo não tendo sido projetada como cine-teatro, ali também ocorreram concertos, recitais (como o do tenor italiano Beniamino Gigli) e eventos como o I Festival do Cinema de Curitiba, em 1957, quando Ney Braga era prefeito.

Nos anos em que esteve na direção da Empresa Cinematográfica David Carneiro, o historiador acreditou no mercado cinematográfico ao ponto de, em 1955, ter investido na construção de um segundo cinema, no terreno defronte ao Largo Frederico Faria de Oliveira, daquele que será o “Cine Arlequim” Um dos seus filhos, Fernando, recém formado pela Escola Nacional de Arquitetura, do Rio, de volta a Curitiba, fez justamente o seu primeiro grande projeto enfrentado o desafio de criar um cinema mignon num terreno irregular.
Com uma belíssima decoração - murais nas paredes da artista carioca Nely Bezerra de Menezes, com a temática Arlequim / Colombina / Pierrô, e uma programação de primeira categoria, o Arlequim foi, na época, um dos bons cinemas de Curitiba. Foi inaugurado com um dos primeiros filmes a abordar a saga dos primeiros pilotos de aviões supersônicos - "Sem Barreira no Céu" (The Sound Barrier), 1952, do inglês David Lean.

Foi quando constituiu a Empresa Cinematográfica David Carneiro e, sendo dinâmico e empreendedor, tomou gosto pela coisa. Introduziu um festival de filmes inéditos, um por dia durante uma semana, que só teriam lançamento depois, abarrotando o cinema em sessões concorridíssimas; lançou as matinadas com sessões aos domingos pela manhã, com desenhos e filmes infantis, que ficaram famosas pelos desenhos do “Tom e Jerry”; também inovou ao contratar mulher para a bilheteria, já que nesta época só homens trabalhavam nos cinemas.

Ainda sob comando do professor David Carneiro, a empresa se voltou à construção de bons cinemas de bairro: o Guarani, no Portão, e o Marajó, no Seminário, foram as primeiras salas confortáveis, amplas, numa época em inexistindo televisão, o cinema era não só a opção de lazer e cultura, mas, sobretudo, um bom negócio.

Na década de 70, oprimido por dívidas e compromissos advindos de um empreendimento empresarial mal sucedido de um dos filhos, David Carneiro venderá o edifício ao comerciante libanês Husseiam Hamdar que o negociaria, de uma forma muito lucrativa, com o grupo Mesbla, para ali ser instalada uma grande loja de departamentos. Atualmente o edifício é sede de um empreendimento ligado à educação.

Em 1944, participa do Congresso Brasileiro de História da Revolução Federalista – Cinquentenário do Cerco da Lapa. Neste mesmo ano idealiza o Pantheon dos Heróis da Lapa, construído a partir do projeto de Rubens Meister. Nessa época cria o Museu Histórico da Lapa, que criou na Lapa e que funcionava na Casa de Câmara e Cadeia. posterior mente, por falta de cuidado e roubo de peças, Diante do triste episódio transferirá para Curitiba, unindo seu acervo ao do Museu David Carneiro Senior, por ele criado. Esse acervo, agora com o nome de Museu David Carneiro recebeu, em 1955, uma sede anexa à casa da Rua Brigadeiro Franco, com entrada própria pela Rua Comendador Araújo.



Imagem: Museu Coronel David Carneiro - Curityba (Riopostal)

Foi quando o seu acervo iniciado com moedas, unido ao do antigo Museu Histórico da Lapa (que criou na Lapa e que funcionava na Casa de Câmara e Cadeia, até que David Carneiro constatou o descaso e a falta de segurança do museu, materializado no desaparecimento de peças), o leva à criação do Museu David Carneiro, que chega a reunir cerca de 6 mil peças. A biblioteca particular do historiador, constitui capítulo à parte: trazia, entre seus 20 mil exemplares, raridades como a segunda edição de “Traité Elémentaire de Chimie, présenté dans un ordre nouveau et d’ápres le découvertes moderne”, de Lavoisier, revista pelo próprio cientista em 1793; ou uma edição rara de Don Quixote, de Cervantes, ilustrada pelo pintor Debret. Essa biblioteca foi vendida.

David Carneiro empenhou-se pessoalmente na formação do Museu (o pelourinho de Paranaguá, por exemplo, encontrou jogado num quintal) Entre as peças do acervo – tombado em 8 de fevereiro de 1941 pelo Patrimônio Histórico (Estadual e Nacional) – estão obras de artistas como Van Der Velde, Goya, Iria Correia, Alfredo Andersen, entre outros famosos mestres, além de objetos como armas, espadas, flechas e vestimentas, referentes a vários períodos da história paranaense, brasileira e mundial.

Por meio do museu, David Carneiro incentiva em início de suas carreiras artistas como: Arthur Nísio, Theodoro de Bona e Traple, entre outros, encomendando-lhes obras de caráter histórico.
Na década de 1950, o Museu é transferido da casa para um prédio construído especialmente para abrigá-lo, junto à sua residência, em Curitiba, no mesmo local onde David Carneiro manteve a Capela da Humanidade para o culto positivista.

Professor de Evolução da Conjuntura Econômica na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da UFPR e Arquitetura Analítica na Embap. Como professor visitante lecionou em universidades norte-americanas, como Nebraska, em 1961; Ucla (Califórnia), em 1966; Harvard University, entre outras. O conjunto de sua obra é reconhecido internacionalmente, sendo seus livros referência obrigatória em citações bibliográficas de obras de brasilianistas. Membro da Academia Brasileira de História (cadeira n. 54) e da Academia de Ciências e Letras de Lyon .



Tabela do livro História do Período Provincial do Paraná


Passa a escrever na coluna Veterana Verba, no jornal Gazeta do Povo, durante 16 anos. Nesta época, resolve construir uma casa na Lapa, cidade onde morou quando recém casado, reunindo dois prazeres: o de visitar a cidade natal de Marília L Carneiro e o de degustar jabuticabas. Isso porque, a casa foi construída em torno de uma jabuticabeira, prevendo colher as frutas do terraço que contornava a árvore.


Em 1969, ano no qual a Lapa comemorou 200 anos de fundação (elevada que foi como Freguesia em 13 de junho de 1769) o Prefeito da Lapa, Sérgio Leone, convida David Carneiro, como notório estudioso de Heráldica ( sua biblioteca possuía vasta bibliografia sobre o tema) a conceber o brasão da Lapa. Na década de 1970, resolve construir uma casa na Lapa, cidade onde morou quando recém casado, reunindo dois prazeres: o de visitar a cidade natal de Marília L Carneiro e o de degustar jabuticabas. Isso porque, a casa foi construída em torno de uma jabuticabeira, prevendo colher as frutas do terraço que contornava a árvore

Mas, infelizmente, não chegou a usar a casa, pois questões econômicas o impediram e o historiador é obrigado a vender sua coleção de moedas antigas – a mesma que dera início a todo o acervo – para tentar saldar uma dívida contraída por um familiar junto ao Banco do Brasil, da qual fora avalista. Em 1989, no entanto, a dívida da família Carneiro – em função da alta de juros – ultrapassa um milhão de dólares e o Banco do Brasil ameaça executá-la.
Depois de sua morte, a residência e terrenos e imóveis nas ruas Comendador Araújo, Brigadeiro Franco foram vendidos pelo Banco do Brasil por RS$ 3,78 milhões de reais a um grupo composto por cinco empresas.

Por meio de acordo com a PMC a fim de construir prédios elevados, os proprietários dos terrenos e casas na Rua Brigadeiro Franco e Comendador Araújo foram obrigados a deixar uma parte daquela que foi a residência do historiador (pouco mais do que a fachada) para um espaço cultural, o Memorial David Carneiro.



História do Período Provincial do Paraná 
(Edição Banestado, 1994)

Conforme previsão do Diretor do Patrimônio da FCC, dentro de meses será aberta com uma mostra permanente sobre David Carneiro e o espaço ganhará função.
Quanto às peças do museu, foram adquiridas pelo Governo do Estado do Paraná, num gesto único de investimento em cultura de mais de 1 milhão de reais (louve-se o então governador, Roberto Requião que viabilizo a aquisição) as peças do Museu David Carneiro foram incorporadas ao Museu Paranaense, MON, Casa Lacerda e Museu Histórico da Lapa.

Espírito elevado, embora já próximo do fim da vida, ainda lúcido e bem-humorado, em nenhum instante David Carneiro se permite lamentar o destino do Museu, ameaçado pela execução de dívidas.

É essa imagem é a que vemos no documentário realizado por Berenice Mendes, através da Secretaria de Estado da Cultura, um belo registro sobre a importância de David Carneiro como historiador e figura humana. David Carneiro teve três filhos David (já falecido), Fernando (já falecido) e Marília Beatriz.

David Carneiro publicou, entre outras obras, Pedro II na Província do Paraná; o Paraná na Guerra do Paraguai; Os Fuzilamentos de 1894 no Paraná; O Paraná na História Militar do Brasil; O Paraná e a Revolução Federalista; A História da História do Paraná; História Psicológica do Paraná; História do Período Provincial do Paraná; A Vida Gloriosa de José Bonifácio e sua atuação na Independência do Brasil Tiradentes; Educação, Universidade e História da Primeira Universidade do Brasil – UFPR; História Geral da Humanidade (em sete volumes). A historiadora Cecília Westphallen cita, ainda, Galeria de Ontem e de Hoje (1963) e Afonso de São Payo e Souza (1986) e destaca o significado pioneiro de sua “História da História do Paraná”.
Pesquisa realizada para discurso proferido na inauguração da Escola David Carneiro, na Lapa.



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"A Cidade das Redes" (Otto Friedrich)
(1ª edição - Companhia das Letras, 1988)

Otto Friedrich, historiador americano que trabalhou durante anos como correspondente estrangeiro para a "Star and Stripes", revista oficial do Exército dos EUA. Formado pela Universidade de Harvard e articulista da revista "Time", Friedrich foi autor de "Antes do Dilúvio" (que mostra a Berlim dos anos 20) e uma biografia do pianista canadense Glenn Gould, entre outras obras.

Em "A Cidade das Redes", Friedrich aborda a Hollywood dos anos 40, tempos dos filmes de gangsteres e do uso ufanista do cinema, por meio da propaganda de guerra. Ele também fala sobre os muitos refugiados europeus que buscaram na capital do cinema uma espécie de porto seguro que, a posteriori, se revelou pouco seguro. Entre esses refugiados, Thomas Mann, Stravinski e Bertolt Brecht.

Friedrich lembra da influência da máfia nos sindicatos das categorias profissionais de Hollywood e das tentativas de escritores como Francis Scott Fitzgerald, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Lillian Hellman e William Faulkner de trabalharem como roteiristas de cinema. Nem todos conseguiram.

Um ponto central da sua narrativa é a perseguição a 41 intelectuais de esquerda por parte do Comitê de Atividades Antiamericanas (House Un-American Activities Committee (HUAC), liderado pelo senador Joseph McCarthy. Eles eram questionados sobre se faziam ou se algum dia haviam feito parte do Partido Comunista Americano. Em caso afirmativo, tinham o direito de delatar outros membros da indústria do cinema que possuíssem atividades de esquerda para amenizarem sua própria situação.

Dez desses interrogados se recusaram a entregar seus colegas. Foram eles: Alvah Bessie (1904 – 1985), Herbert J. Biberman (1900 – 1971); Lester Cole (1904 – 1985); Edward Dmytryk (1908 – 1999); Ring Lardner Jr. (1915 – 2000); John Howard Lawson (1894 – 1977); Albert Maltz (1908 – 1985); Samuel Ornitz (1890 – 1957); Robert Adrian Scott (1911 – 1972) e Dalton Trumbo (1905 – 1976). Eles ficaram conhecidos como "The Hollywood Ten" e sofreram represálias em função de suas posturas. 


O livro está fora de catálogo, mas é localizável nas lojas online com preços que variam de acordo com seu estado de conservação. Pode ir de 25 a 300 reais.




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SAINDO DA SARJETA (Charles Mingus, 1971)

No original, "Beneath the Underdog: his world as composed by Mingus". Trata-se de uma auto-biografia do músico Charles Mingus (1922-1979) que gerou furor quando de sua publicação em 1971. Lendo a edição em português lançada pela Jorge Zahar em 2005, é fácil entender o porquê de tanta agitação em torno do livro.

Nos anos 40, Mingus se distanciou do formato swing (refiro-me ao estilo jazzístico praticado pelas Big Bands), para incorporar fraseados e evoluções rítmicas que posicionaram o instrumento contrabaixo - até então usado quase que exclusivamente como acompanhamento - em um papel de protagonismo no jazz.

Mingus ficou conhecido por politizar o jazz, referenciando suas músicas com títulos que remetiam a eventos políticos, caso de "Fable of Faubus", em que ridiculariza o ex-governador racista do Arkansas, Orval Faubus. Ou "Remember Rockefeller at Attica", que diz respeito ao diretor da prisão de Attica, na qual prisioneiros foram mortos sem chance de defesa durante um motim. Rockfeller cortou a água para que eles se entregassem, o que viabilizou a chacina.

No livro, sua visão ácida é acompanhada por um estilo ágil e tão agressivo quanto os fatos que narra ou a música que executa. Em alguns momentos, Mingus refere-se a si mesmo como "meu garoto", o que pode soar um pouco estranho no início, mas não chega a comprometer a compreensão e a fluidez da leitura.



Ele trata da infância difícil em Los Angeles, da mãe obcecadamente religiosa, das constantes surras que recebia do pai dominador, das experiências no submundo das drogas e da prostituição, do racismo, das crises existenciais que o levaram a um auto-internamento, do qual só conseguiu sair com ajuda do crítico musical Nat Henthoff. Mas Mingus também fala das suas experiências musicais com nomes como Duke Ellington, Miles Davis, Charlie Parker e dos anos de glória que viveu em Nova Iorque.


II B.S. (Haitian Fight Song)

Fables of Faubus

Moanin'





Trecho do livro transcrito pela revista Época:

"Então você tem um emprego de novo, rapaz, num trio, rapaz, com um nome famoso. O líder tem cabelos ruivos e o guitarrista é branco também, da Carolina do Norte. Você toca em São Francisco, grava discos e os críticos escrevem coisas boas. Beleza! Beleza! Beleza!

Então você pega a estrada. Qual é a sensação de atravessar o Sul de carro com um trio quase todo branco e, além do mais, com uma garota branca viajando ao seu lado? Como é que faz isso? Eu lhe digo. Primeiro, você alisa os cabelos. Antes de partir. Viajam em dois carros, e a garota branca vai com você. Mas, antes de chegar a cada cidade, ela troca de carro e finge ser a esposa de um dos brancos para que possam se registrar nos hotéis. Ela vai para o seu quarto à noite e sai de manhã para que possa aparecer com o seu “marido”.

Como é que fazem nos restaurantes? Sua garota e o “marido” dela entram primeiro, depois o líder da banda entra com você, em grande estilo de homem branco. Você tem cabelos lisos, sua pele não é muito escura, e você está na companhia de um cara famoso. Mas o leão-de-chácara olha firme para você, batendo com o punho na palma da mão sem parar. Ele não diz nada, mas você sabe o que ele está pensando, e ele quer que saiba. Qual é a sensação em seu último pernoite no Sul quando descobre de manhã que os dois caras brancos já foram embora e o deixaram naquele hotel, cara, sozinho com uma branca? Parece muito perigoso, é o que parece. Vocês fazem as malas e descem separadamente sem saber o que vai acontecer. Mas graças a Deus ninguém diz nada, só olham para você de um jeito estranho. Vocês saem tão rápido quanto podem, entram no carro, deixam aquela cidade e mais adiante na estrada, na frente de um restaurante, você vê o carro do líder, e lá dentro estão os dois brancos babacas tomando o café da manhã.

A viagem está quase terminada, por isso você não deixa o grupo. Os dois carros seguem direto para Nova York, atravessam a cidade e você entra num clube de jazz do Upper East Side com este trio. Você quer trabalhar e os críticos estão fazendo valer a pena. Se a grana é pouca, pelo menos o seu ego fica inflado.


Qual é a sensação quando o trio do Ruivo é convidado para um show de televisão importante, um especial em cores? É maravilhoso. À noite você toca nesse clube de primeira classe e de dia você ensaia no estúdio da TV. Um dia, durante um intervalo, você está afinando o baixo e vê esse produtor ou alguém conversando com o Ruivo do outro lado da sala, e os dois olham para você. Sente que há algo de errado, mas não sabe o quê. Em poucos minutos um cara grita “Por hoje chega, amanhã às dez”, e todo mundo sai. Enquanto coloca o baixo no estojo, o Ruivo se aproxima e lhe diz algo assim: “Charlie, sinto muito lhe dizer isso, mas vou ter de arranjar um outro contrabaixista para este show. Continuaremos no clube, mas não posso usá-lo aqui.” O que você diz? Pergunta o nome do novo baixista, claro. Ele lhe diz. O baixista é branco. Agora o que é que você faz, xinga ele? Provavelmente. Não se lembra do que disse. Ele sai rapidamente. Naquela noite ele não aparece no clube, manda dizer que está doente. Depois disso você nunca tem uma oportunidade de falar com ele, ele chega tarde e sai mais cedo. Você precisa descobrir. Começa a ir ao local onde ele está hospedado, um hotel residencial na Broadway. A portaria sempre diz que ele não está, nem se dá ao trabalho de telefonar para o quarto. Você nunca tem a chance de discutir a questão com ele. Porra, ele nem é capaz de falar, falar sobre algo real, só sobre a garota com quem você está saindo e coisas assim.

Não pode falar com o guitarrista também, ele nunca diz nada. Dois rapazes brancos babacas com os quais você não pode falar. Então você deixa o trio. Como pode tocar com dois caras que não falam com você? Você se pergunta sem parar por que ele não falou cara a cara com você ou por que não abriu mão do show da TV. Alguns líderes teriam feito isso. Ele queria demais aquele dinheiro. Se tivesse contratado Red Mitchell ou alguém como ele para o seu lugar, você poderia até ter acreditado que tinha a ver com o seu jeito de tocar. Mas o que é bom num clube é bom em qualquer lugar, não acha? Não foi preciso muito tempo para sacar. Do jeito como era a televisão naqueles tempos, havia patrocinadores que se preocupavam como “o mercado sulista”, e a “mistura racial” era um tabu.

Sim, existem certas coisas nesta vida das quais ninguém gosta de falar. Isto é, ninguém branco.


Então, o que você faz depois disso? Talvez arranje um emprego com o Duke em pessoa. Ele é O Herói, e a sua é a banda da qual ninguém sai, mas dessa vez lhe pedem que saia por causa de um incidente com um trombonista e arranjador chamado Juan Tizol. Tizol quer que você execute um solo que Charles Mingus 230 ele compôs em que se exige o uso do arco. Você eleva o solo de uma oitava, onde o baixo não é muito abafado. Ele não gosta daquilo e aparece na sala debaixo do palco onde você está ensaiando, no intervalo, e comenta que você é como o resto dos negros da banda, não sabe ler música.


Você pergunta a Juan de que maneira ele é diferente dos outros negros e ele declara que uma das maneiras pelas quais é diferente é que ELE É BRANCO. Então manda ele para aquele lugar. Deixa a sala de ensaio, se dirige ao palco e assume o seu lugar no momento em que o Duke baixa a batuta para começar o A-train, as cortinas do Apollo Theatre sobem e um Tizol aos berros e aos pulos investe sobre você com uma peixeira. O resto você se lembra principalmente pelas palavras de Duke no seu camarim enquanto troca a roupa depois do espetáculo".




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A MÁSCARA DE DIMÍTRIOS (Eric Ambler, 1939)

Encerrando a série de 7 livros que a Fernanda Ferreira Rigoni me propôs comentar, destaco "A Máscara de Dimítrios", publicado em 1939 pelo escritor Eric Ambler (1909-1998) e lançado no Brasil em algumas ocasiões. A última foi em 1984 pela Editora Abril Cultural, na série "Mistério e Suspense", permanecendo o livro fora de catálogo desde então.

Independente da versão cinematográfica que estreou em 1944 (e que se tornou um clássico do cinema noir) o livro foi um dos mais importantes lançamentos de espionagem que circularam um pouco antes da 2ª Guerra. E, apesar do impacto que o filme teve, assisti-lo não substitui a experiência de ler a trama desenvolvida por Ambler (até porque há algumas diferenças entre os dois formatos).

Ao ver "A Máscara de Dimítrios" na estante de livros do poeta Pablo Neruda, o ex-presidente do Chile, Salvador Allende, pediu o livro emprestado. Quem também apreciava "A Máscara de Dimitrios", era o escritor Jorge Luis Borges, que mencionou livro e filme em em 1945 no texto "Sobre a Dublagem", destacando o caráter labiríntico do enredo.



Foto: Eric Ambler, autor de "A Máscara de Dimítrios"

A trama mostra a investigação procedida pelo escritor Charles Latimer (no filme Cornelius Leyden interpretado pelo genial Peter Lorre) e pelo Sr. Peters (Sydney Greenstreet) em torno da vida de um criminoso internacional, Dimitrios Makropoulos (no filme interpretado por Zachary Scott), que no começo do livro, é encontrado morto numa praia turca no Estreito de Bósforo. 




Foto: à direita, o ator Peter Lorre


Vale a pena ler o comentário feito pelo policial turco em relação a Dimitrios, enquanto mostra o corpo do criminoso ao escritor: "(…) Homens deste calibre nunca arriscam a pele numa empresa desse gênero. São os profissionais, os 'entrepreneurs', os elos de ligação entre os homens de negócios e os políticos, que ambicionam os fins, mas receiam os meios, e suas armas são os fanáticos, os idealistas, que estão sempre prontos a morrer por suas convicções. A coisa mais importante a saber na investigação de um atentado político não é quem disparou o tiro, mas sim quem pagou a bala. Os únicos homens que estão ao corrente de todos os fatos são os rufiões da laia deste Dimítrios. Estão sempre dispostos a denunciar seus colegas ou associados desde que, por este meio, consigam evitar os desconfortos do cárcere. Dimítrios não é diferente de muitos outros. (…)" 
(págs. 25-26)

Após muitas idas e vindas, em que fragmentos da vida de Dimitrios são mostrados por meio de flashbacks, a junção dos fatos em torno de criminoso leva à conclusão de que ele pode estar vivo e tudo converge para um final inusitado.



Foto: Sydney Greenstreet

Peter Lorre e Sydney Greenstreet já haviam trabalhado juntos como coadjuvantes de Humphrey Bogart em "Casablanca" e "O Falcão Maltês". Mas em Dimitrios, eles conduzem a trama com desenvoltura e é curioso ver Lorre interpretar uma pessoa normal, e não seus habituais papeis perturbadores, como o do psicopata do filme "M, o Vampiro de Dusseldorf", dirigido por Fritz Lang em 1931. "A Máscara de Dimitrios" foi dirigido pelo romeno Jean Negulesco, a partir de um roteiro escrito por Frank Grube.




Acredita-se que o escritor Eric Ambler tenha buscado inspiração na vida do traficante de armas Sir Basil Zaharoff para construir o personagem Dimitrios. Ambler destacou-se entre os escritores de espionagem por cultivar um texto sofisticado e evitar o emprego dos clichês do estilo. Para alguns, ao lado de Graham Greene e John Le Carré, Ambler elevou o romance de espionagem ao status de arte, principalmente com "A Máscara de Dimitrios". O escritor popularizou o tipo de trama em que pessoas comuns se percebem envolvidas em jogos de espionagem, caso de "Dimitrios" (e com passagens tipicamente marcadas pelo humor inglês). Leia mais sobre o estilo de Eric Ambler no site Blitzedit






Músicas da Trilha Sonora do filme:

Tchaikovsky - Serenade for strings Op. 48 II Waltz

Xavier Cugat - Perfidia

The Merry Macs (1940) Breezin' along with the beeze


Foto: atriz Faye Emerson






























Foto: jornal "O Rebate" - Brusque (SC), 31/05/1947






















Mais fotos do filme: imdb

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