segunda-feira, 8 de junho de 2020

O SUSTENTO DA CASA
João Cândido Martins

1
Entre 1985 e 1988 estudei no Colégio Militar de Curitiba. Foi tempo suficiente para que eu percebesse que não teria futuro na profissão militar. Minha natureza era muito diferente da que se espera de um militar. De qualquer forma, quando o colégio em Curitiba encerrou suas atividades no final de 1988 por determinação do Ministério do Exército, decidi continuar meus estudos no Colégio Militar de Porto Alegre, junto a outros colegas que fizeram a mesma opção. Estudaria no internato. 

Não foi uma boa ideia. Se antes algumas características do ambiente militar me causavam algum tédio, em Porto Alegre passaram a me provocar indignação. Eu tinha 16 anos e estava propenso a me revoltar com tudo e com todos. Discursos, desfiles, engraxar os sapatos, cortar rente o cabelo, limpar a fivela do cinto, prestar continência, dizer sim senhor inúmeras vezes por dia, tudo isso deixou de fazer sentido para mim.

Eu preferia passear por Porto Alegre, tentar reconhecer nela o que havia lido nos livros do Érico Veríssimo que meu pai colecionava. Passear pelo Parque da Redenção, ir ao cinema, conhecer garotas, ler quadrinhos (Watchmen, Cavaleiro das Trevas e Graphic Novels). E ouvir música. Foi o momento em que comecei a ouvir Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple e o rock clássico em geral, tendência que me acompanha até hoje. Essencialmente eram essas as coisas que eu queria fazer. 

Claro que eu tinha consciência do esforço dos meus pais para que eu estudasse naquele local, mas para um filho único superprotegido, estar livre numa cidade desconhecida foi uma sensação nova e revigorante. Colegas mais maduros me aconselhavam a manter a atenção, caso contrário poderia reprovar, repetir de ano. Isso nem passava pela minha cabeça. Em Curitiba sempre me mantive entre os 15 primeiros da turma. Posteriormente os conselhos se revelaram corretos. 

Veio um feriado e, antes dele, seria realizado um desfile ali na Redenção mesmo (o Colégio Militar de Porto Alegre fica em frente ao parque). O general que estava organizando o evento queria que os alunos piscassem uma lanterna junto ao peito com a mão esquerda e, com a direita, acenassem um lenço sobre a cabeça. Todos riram da instrução insólita, mas eu não ri e, além disso, me recusei a participar. O que me indignou foi que com o feriado, eu não teria tempo hábil pra viajar pra casa e descansar uns dias. Eu teria de ficar em Porto Alegre. Desde o anúncio do evento, eu já comecei a maquinar em minha mente como faria para não participar, ou como se dizia entre os alunos do Colégio Militar, “matar” o desfile.

Os dias se passaram, mas eu não conseguia pensar em nada. Finalmente chegou a data. Um colega de Curitiba concordou em responder à chamada por mim quando estivesse no grupamento de alunos. O evento seria realizado às 19 horas. Meia hora antes, todos estavam perfilados no pátio trajando uniforme de gala, menos eu e o gaúcho Lucena, que torcera o tendão do tornozelo e tinha de usar uma bota ortopédica. Autorizado a não participar do desfile, Lucena brincava na mesa de sinuca que havia no centro do dormitório dos alunos. 

“Martins” disse ele, “é melhor você se ligar cara, porque o capitão R.pode aparecer a qualquer momento. Ele disse que era pra todo mundo estar no desfile hoje.”

“Eu sei. mas agora é tarde, nem arrumei meu uniforme de gala”, desconversei. 

“Usa o meu, nós somos do mesmo tamanho”, disse ele. 

Quando eu ia explicar ao colega que na verdade não iria participar por motivos filosóficos, alguém apontou na escada que dava para o dormitório. Era o capitão R., comandante da 2ª Companhia de Alunos. Rapidamente olhei em volta e encontrei uma cama que estava desarrumada. O cobertor impedia que se visse o que estava por baixo dela. Só tinha aquele lugar pra se esconder. Na hora em que me deitei no chão, imaginei a cena ridícula que seria eu saindo debaixo daquela cama e me levantando humilhado, mas nem tive tempo de refletir porque me queimei com o cigarro que se multiplicou em faíscas sobre mim e, quando vi, estava deitado embaixo da cama. 

O oficial olhou todos os compartimentos do dormitório, falou com Lucena, olhou a parte dos armários, o banheiro, a sala de TV. Incrivelmente, só não olhou onde eu estava. Frustrado, foi para o desfile. Ele adorava ter um réu para julgar, afinal era ele mesmo quem aplicava a pena. Saí debaixo daquela cama e fui até a janela. Na praça, o desfile começava. 

Olhei para Lucena com o objetivo de convidá-lo para uma partida de sinuca, mas ele já não estava mais ao lado da mesa, e sim, sentado em sua cama retirando a bota ortopédica. Entre os alunos internos naturais do Rio Grande do Sul, Lucena era o mais sóbrio e sério. Nós não tínhamos conversado muito até aquele momento. Na verdade, confesso que nos meses iniciais em que estive no internato, interagi pouco com os gaúchos. Mas, posteriormente, fiz muitos amigos entre eles. 

“Deve doer muito”, eu disse. 

“Na hora doeu mesmo, mas depois de uma semana eu tava bem melhor. Já consigo andar sem essa bota maldita.”

“Quer jogar sinuca?”, perguntei. 

“Não”, ele respondeu. “Vou te levar numa viagem no tempo.” 

Olhei para Lucena com curiosidade. 

“Esse prédio foi construído em 1872 e o segundo pavimento, que é onde estamos, é de 1900, aproximadamente”, disse ele. “Quer conhecer o sótão?” perguntou mostrando um molho de chaves.


2
Subimos por uma escada de madeira que dava para um alçapão. Em pouco instantes, estávamos no sótão da ala esquerda do Colégio Militar de Porto Alegre. Além da escuridão, um cheiro de coisa guardada nos cercou e impregnou minhas narinas. Com as mesmas proporções do salão inferior onde ficavam os beliches, o sótão estava ocupado por centenas de papéis, documentos oficiais, cadernetas, livros, uniformes, baionetas, espadas, coturnos, retratos e objetos afins. Foi o que conseguimos ver com nossas pouco potentes lanternas. 

Lucena me disse que no lado oposto do sótão havia uma passagem para o salão central, que ficava abaixo da cúpula e acima do portão de entrada do colégio. Lá chegando, encontramos um buraco na parede. A uns três metros de distância, outra parede e outro buraco, mas para chegar nela, era necessário andar sobre umas vigas de madeira que pareciam bem velhas. Lembrei do meu pai comentando que as vigas de apoio do telhado da primeira catedral de Curitiba, quando foram retiradas na década de 1870, após mais de cem anos de uso, pareciam novas. 

Passamos por esse obstáculo sem maiores dificuldades e chegamos ao salão nobre que, só não estava totalmente escuro, porque recebia as luzes que vinham da praça. Nos retratos pendurados nas paredes, ex-comandantes do Colégio Militar de Porto Alegre nos olhavam com uma vaga censura. 

“Você quer ser militar?”, perguntei a ele. 

Lucena respondeu que sim. “Por isso estou aqui.”

“Mas essa coisa de não poder viajar no feriado porque tem de participar de um desfile como esse, que com esse frio que tá fazendo, não tem praticamente ninguém assistindo... eu soube que o pessoal da sua cidade também não vai poder viajar no feriado por causa desse negócio... esse tipo de coisa não te enche o saco às vezes?"

"Faz parte do jogo", disse ele seco enquanto mexia em sua perna machucada.

Ele desconversava. Eu queria que Lucena expusesse algum incômodo em relação ao mundo militar. 

“Seu pai é militar, não é?” 

“Sim, do Exército Brasileiro”, respondeu com orgulho. Mas logo se corrigiu: “Na verdade, meu pai já é falecido, mas sempre foi do E.B.”

“Os caras te deram uma oportunidade aqui como órfão de militar” eu disse, “mas nunca passou pela sua cabeça fazer outra coisa, ter outra profissão?”

Lucena me olhou sem dizer nada, e perguntou se eu tinha um cigarro. Eu tinha. Ele acendeu o cigarro com muita calma. Era daqueles que posicionavam o cigarro entre o dedo mindinho e o anelar e fumava com a mão espalmada sobre o rosto, só abrindo uma fresta pros olhos. 

“O que acontece, João Martins” disse ele, após soltar uma baforada, “é que essa oportunidade pra mim é única. Que chance eu, órfão de militar de baixa patente, de baixa renda, com seis irmãos, teria no mundo sem o Colégio Militar? Mais fácil continuar por aqui, tentar ser oficial, ter estabilidade, ser promovido. Uma faculdade não vai me dar essa segurança.”

Na época eu não sabia nada da vida, achava que quem estava ali tinha mais ou menos as mesmas oportunidades que eu dispunha. Respondi, de forma ingênua, que ele poderia tentar uma faculdade, nem que fosse só por tentar. 

“Você não entende, Martins” disse ele impaciente, “semestre que vem eu começo a trabalhar pra ajudar no sustento da minha casa. Pela manhã frequento as aulas aqui no colégio e depois trabalho das 14 até as 21h e, só então, volto pro internato às 22 horas". seus olhos tremiam enquanto ele falava. Sua voz era contida, mas incisiva. "Acha que gosto disso?", continuou ele. "Você tem liberdade pra ficar lendo revistas em quadrinhos a tarde toda, mas eu não.”

Depois dessas palavras, optei por me calar. O local estava passando por algum tipo de reforma, então havia ferramentas de construção espalhadas pelo chão. Lucena recolheu um martelo e depositou em um saco. Perguntei o que ele estava fazendo. 

“Preciso levar. Meu irmão é pedreiro. Roubaram o martelo dele e ele tá precisando.”

Por óbvio que na volta do feriado houve uma investigação sobre o tal martelo desaparecido. Todos os alunos do internato perfilados e o capitão explicando que não sairíamos dali enquanto não surgisse o nome do responsável pela subtração. Marchamos e ficamos parados por horas e depois novamente marchamos e ficamos parados. Lucena, com sua bota ortopédica, acompanhava tudo sentado num banco embaixo das arcadas, ao lado da entrada térrea da biblioteca do colégio. 

Com certeza alguém entre os demais alunos sabia, ou ao menos desconfiava de nós. Mas ninguém disse nada, conforme previa a ética vigente no Internato. Nos três dias seguintes, a mesma coisa. Marchamos e ficamos parados e marchamos novamente contínuas vezes até que o capitão se cansou daquilo e fomos dispensados. 

Imagens

Foto 1: A cúpula situada na entrada do Colégio Militar de Porto Alegre.
Foto 2: Eu, ainda no tempo do Colégio Militar de Curitiba (desfile de 7 de Setembro de 1987).
Foto 3: Insígnias do Colégio Militar de Curitiba (6ª e 7ª séries, estrelas da boina e identificador ou "biriba").
Foto 4: Vista aérea do Colégio Militar de Porto Alegre, no bairro do Bonfim.

















 

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