domingo, 21 de junho de 2020

O BEIJO
João Cândido Martins


1
Ali por  1996 ou 97, tive de me confrontar na faculdade de Direito com a Teoria da Pena, assunto das aulas do professor K, um especialista com obras escritas sobre o tema. As pessoas que estavam na iminência de se formar diziam, "perto das provas do K no 5º período, o resto do curso é um passeio". Todo mundo dizia isso. Ele também tinha fama de ser um cara meio durão e inflexível na aplicação das notas. E de não fazer concessão nenhuma quanto à disciplina em sala. Já nas primeiras aulas deu pra perceber que não dava pra brincar com aquele cara. Ele falava caminhando entre as carteiras e confesso que quando ele passava ao meu lado, eu evitava encarar seus olhos azuis de coelho branco maligno. 

Tentei me envolver com o assunto, aprender aquilo, mas havia outras matérias que exigiam minha atenção e, em certo ponto do semestre, tive de faltar uma ou duas aulas de K e, depois disso, não consegui retomar a linha de raciocínio. Fiquei perdido, estava assistindo às aulas sem nem ter ideia do que ele falava. Aos poucos, com ajuda de alguns colegas, consegui me localizar, mas era tarde, pois quando veio a primeira prova, meu desempenho foi medíocre, acho que tirei um cinco, algo assim. Mas isso não era motivo pra ter vergonha: mais da metade da turma ficou abaixo da média e os colegas mais antigos diziam "ele sempre faz isso, mas fiquem tranquilos. Vocês vão ver a prova final desse cara. É de cometer harakiri". 

E nessa primeira prova houve também uma situação desagradável. o professor K flagrou a cola de um colega que escapava pelo vão da carteira. Ele puxou o papel e disse em tom incisivo: "os senhores são testemunhas. os senhores são testemunhas de que o aluno estava agindo de má-fé". Após questionar a presença do rapaz, que era meu amigo, na faculdade, disse que iria abrir o procedimento cabível naqueles casos. Pessoalmente acho que ele poderia ter lidado com a situação de uma forma menos dramática, mas era o jeito dele. Um dia, a trabalho, fui à Penitenciária de Piraquara. Fiquei fumando um cigarro num pequeno pátio enquanto aguardava ser atendido. Senti uma mão em meu ombro e me virei. Era o professor K. Acho que ele trabalhava lá à época, não sei exatamente. Ele disse: "você estuda na Curitiba, não?"

Respondi que sim, que meu nome era João Cândido e que eu era seu aluno no 5º período. Ele ficou me encarando sério e disse:

"Apaga esse cigarro".

Não gostei da maneira como ele falou e dei uma última tragada antes de apagar o cigarro com o pé. 

K me encarava sério e disse: "Você foi o único aluno dessa turma que se remeteu às origens da palavra pena, citou até a origem grega do vocábulo. Quando li, achei ótimo, mas o resto da sua prova era um lixo, me esforcei pra encontrar coisas que justificassem uma nota cinco".

Achei curioso ele lembrar da minha prova, será que ele saberia dizer detalhes das provas de todos os colegas? Olhando para o chão, respondi que iria me esforçar mais.

Ele continuou. "tem outra coisa, seu João Cândido".

Pensei "meu deus, o que esse cara vai dizer agora?"

"Distribuíram uma revista feita pelos alunos e tinha um texto de um João Cândido, acho que no momento você deve ser o único João Cândido na faculdade".

Eu confirmei, disse que era uma iniciativa de alguns colegas e que eu tive a oportunidade de colaborar com um pequeno conto. Na época eu já escrevia algumas coisas no jornal do diretório acadêmico.

"Seu texto é um plágio", afirmou ele. Gelei. Como ele sabia? O texto não era exatamente um plágio, mas era totalmente inspirado em um conto do escritor Isaac Asimov, publicado no livro "Mistérios". O enredo do conto original tratava de um cientista que era pressionado por políticos a criar um veneno que eliminasse o que eles consideravam um "excesso populacional". O cientista, forçado, cria o veneno e convida os políticos para uma reunião. Todos se fartam com um lauto jantar e o cientista revela que os pratos servidos, com exceção de um, continham o veneno inventado por ele. O cientista estava aplicando aos políticos a mesma metodologia genocida que eles pretendiam usar contra a população. Revelou também que tinha tomado anteriormente uma dose do veneno e que aguardava a presença de todos no inferno. E morreu em seguida, deixando os demais sob a expectativa da morte iminente. Esse era o conto do Asimov.

Eu estava disposto a fazer um bom texto pra revista, mas, pra variar, estava envolvido com notas baixas e outras questões que me impediram de criar qualquer coisa. O prazo para entregar o material estava terminando, então resolvi adaptar esse conto do Asimov, transformando o cientista em um empresário importante da cena paranaense que, à beira da morte, mata seus mais fiéis bajuladores. Intitulei o texto como "Álea" e gravei num antigo disquete que foi entregue ao pessoal da revista. Desde criança eu conhecia uma crônica do Rubem Braga chamada "O Crime de Plágio Perfeito", em que ele confessava em tom de humor, que no início de carreira, em 1933, "emprestava" uns textos do Carlos Drummond de Andrade. Ele não assinava os textos que, apesar de serem do Drummond, também não eram assinados no original. Então, na prática, segundo ele, ninguém saía prejudicado. 

Minha adaptação do conto do Asimov, que foi publicada sob minha assinatura, teve alguma repercussão, lembro que amigos e pessoas que eu não conhecia vinham comentar sobre ele comigo. Eu estava convicto de que ninguém ali conhecia o original, até aquele momento em que o professor K, revelou que sabia meu segredo.

"Veja, professor, plágio é uma coisa, livre inspiração é outra", tentei argumentar.

"É uma cópia barata, eu leio Asimov desde que eu era mais novo que você. O que você pensa da vida? Acha que está lidando com quem rapaz? Na sua cabeça você está cercado por idiotas, é isso?"

Eu fiquei sem palavras, não conseguia imaginar o professor K dedicando algumas horas de sua vida à ficção científica.

"Eu devia te delatar, pilantrinha, mas não vou fazer isso. Minha conversa com você é Teoria da Pena. Só fique atento e aprenda que, ao contrário do que você acredita, você não é mais esperto que todo mundo. Quando caras como você amassam a farinha, eu já estou voltando com pão assado".

Achei estranha essa frase do pão assado, mas me desculpei e saí dali rapidamente.


2
Na época, eu era orador do Diretório. Não cheguei a desempenhar o papel mais do que duas vezes ao longo da gestão, mas uma delas foi por ocasião de um aumento das tarifas cobradas pela faculdade. Eu fui breve, mas incisivo e declarei frente a uma pequena multidão que se reunia no pátio da entrada da faculdade que o corpo discente não aceitaria de forma passiva aquele aumento, que em comparação com as tarifas cobradas por outras faculdades particulares, se configurava abusivo. No final, com o canto do olho, avistei o professor K que me observava fumando encostado em uma coluna distante.

Um dia antes da prova final de K, entrei no banheiro do 1º andar e lá estava o professor K no mictório. Ele me viu e soltou sua risada sarcástica. "Olha quem tá aí... o escritor... Escuta escritor, amanhã é o dia da verdade. Sabe fazer os cálculos da dosimetria penal? Espero que tenha aprendido alguma coisa", disse ele fechando o zíper da calça. Ele estava se referindo ao cálculo da pena de alguém que está sendo julgado, uma espécie de matemática da culpa e do perdão. Esperei que ele saísse do banheiro pra poder entrar, mas mudei de ideia e escalei alguns lances de escada para usar outro banheiro. 

Eu estudei para a prova, mas meu esforço não foi suficiente e acabei pegando a prova final (acho que era esse o nome). Era a última chance de tentar passar de ano. Eu e mais da metade da turma tínhamos de provar a ele que havíamos entendido a Teoria da Pena. A prova de recuperação iria acontecer em 4 dias, então decidi me jogar de cabeça e li o máximo que pude, mas no dia da tal prova ainda havia partes da matéria que me soavam nebulosas.

Quando ele distribuiu as provas, percebi que eu só não sabia uma das perguntas. Resolvi caprichar nas que eu sabia e escrevi tudo que eu lembrava. Fui um dos primeiros a entregar e saí para o corredor, onde alguns colegas fumavam e aguardavam a divulgação das notas. E a eventual conversa com o professor, na hipótese de reprovação. Todo ano acontecia a mesma coisa. Após a prova final, os alunos reprovados tentavam cavar alguma nota com ele, que até acabava cedendo, após severas descomposturas. As pessoas nem ligavam, contanto que ele as aprovasse, o que nem sempre acontecia. 

Assim que todos terminaram, o professor K corrigiu as provas e nos chamou de volta para a sala. Desnecessário dizer que o clima era de tensão e medo. Ele passou a ler as notas. Fulano, 4. Sicrano, 5. Não sei quem, 4. Suas palavras eram envolvidas pelo silêncio gelado e estupefato da turma. Não sei quem, 5 e meio. João Cândido, 8 e meio. Quando ele disse isso, eu não acreditei. Levantei devagar e me dirigi à sua mesa. "Professor, pode repetir minha nota?" Ele me encarou e disse: "Sua nota foi 8,5. Por que? Não gostou? Quer fazer outra prova?" Respondi que não, me despedi dele e desci exultante as escadas em saltos de felicidade.  


3
Na entrada do prédio, encontrei L, uma colega de turma que tinha sido namorada de um amigo. Até aquele momento eu tinha trocado poucas palavras com ela, mas a via com constância no diretório. L tinha sido uma das poucas pessoas de nossa turma que passou direto com K, não precisou fazer a prova final, mas me perguntou como eu tinha me desempenhado. Respondi que havia dado tudo certo. Pelo menos pra mim. 

Fui com ela ao bar do Meng, que ficava na esquina. Tomamos umas cervejas e seguimos em direção à Praça Tiradentes, de onde saíam nossos respectivos ônibus. Eu estava leve, feliz e ligeiramente alcoolizado. Falava bobagens e ria. L tinha um sorriso incrivelmente cativante, digno de uma pintura. Eu a acompanhei até seu ponto que ficava na rua Prefeito João Moreira Garcez, uma curta via lateral que compreendia apenas duas quadras entre a catedral e a Praça Generoso Marques. Naquele horário, o local estava escuro e praticamente vazio. Da janela de um dos prédios vizinhos vinham os acordes da música "Pinball Wizard", da banda The Who, na versão com Elton John. Encostamos na porta de ferro de uma farmácia em frente ao ponto e ela me perguntou sem rodeios: "João, você é fã de ficção científica?" 

Claro que ela também sabia do meu texto. Fui pego de surpresa e fiquei totalmente sem jeito com a pergunta. Quando ia elaborar alguma resposta convincente, L, que era mais alta que eu e fisicamente um pouco maior, me empurrou contra a porta de ferro, segurou meu rosto com força e me beijou na boca. Foi tudo tão rápido e inesperado que fiquei sem reação sentindo aquele contato quente e delicioso. Depois reagi e nos beijamos mais algumas vezes até que seu ônibus chegou e ela foi embora. 

O momento, apesar de incrível, não se repetiu. Foi a única vez em que tivemos um contato dessa natureza, porque se não me engano, uns dias depois ela estava envolvida com algum outro colega e fiquei na minha. Nos anos que se seguiram, acho que conversamos no máximo umas duas vezes. Hoje somos amigos virtuais e conversamos vez ou outra. Acho que ela não deve nem lembrar daquele beijo. Nas fotos atuais ela parece feliz. Apesar disso, se eu fizesse uma lista dos beijos mais inesquecíveis da minha vida, o dela estaria entre os primeiros. E toda vez que escuto "Pinball Wizard", não há como não sentir de memória o gosto da sua boca.


"Pinball Wizard" (The Who, 1969)

Foto 1: Shutterstock
Foto 2: Antiga sede da FDC na rua Emiliano Perneta, em Curitiba (Google)
Foto 3: "Mistérios" Isaac Asimov, 1968 (Skoob)
Foto 4: "O Crime de Plágio Perfeito" (Rubem Braga)








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