domingo, 14 de junho de 2020

ARANHA, A LENDA VIVA
João Cândido Martins, 2003


Sábado, mais ou menos sete da noite. A mãe havia ido a um bingo. A filha caçula se aproxima do pai, que está sentado na poltrona da sala já sonolento vendo tv.

-Pai, me dá um dinheiro?

-Pra quê?

-É que eu vou sair com o Aranha.

-Aranha? Quem é esse?

-Meu novo namorado.

-Sei... O que o Aranha faz da vida? Ele trabalha? Estuda?

-O Aranha anda de moto. Vai me dar o dinheiro?

-Dou, claro, mas quero conhecer o rapaz.

Meia hora depois um barulho de motor em frente à casa.

-Que é isso?

-É o Aranha, papai.

O pai abre a porta e se depara com um senhor de sessenta e poucos anos, jaqueta de couro, óculos escuros, barba cerrada, luvas pretas, recendendo a nicotina e sabe-se lá mais o quê.

-É piada?

-Não pai, esse é o Aranha.

-Minha filha, esse sujeito é mais velho do que eu, o que significa isso?

Aranha intercede:

-Fica frio, xará.

-Você não vai sair com esse homem, está proibida, nem adianta fazer essa cara.

-Mas pai...

-Suba pro seu quarto, agora.

A menina se afasta, chorando. Os dois homens se encaram e o motoqueiro, acendendo um cigarro, comenta:

-Viu o que você fez? ‘Tá feliz?

-Se você encostar na minha filha eu te ponho na cadeia.

-Meu chapa... eu escuto essa conversa desde os anos 70.

-Eu vou ligar pra polícia agora.

-Come on man, relax.

-O que você disse?

-Relax.

-Diga de novo.

-Relax.

-Eu conheço essa voz... não pode ser... você é o Spider Jones, que no final dos anos 60 foi guitarrista dos Highlights?

-Eu mesmo - responde o motoqueiro soltando fumaça pelo nariz.

-Cara... isso é incrível, nem acredito, você é uma lenda viva.

-Lenda virou meu sábado à noite. Chama a garota.

-Filha! Desça aqui, agora.

A menina retorna com um sorriso.

-Minha filha, esse é o Spider Jones, um dos maiores guitarristas de Curitiba.

-É, o Aranha manda uma guita.

-Mando mesmo. Agora vamo' nessa.

O pai fica repentinamente sério e diz:

-Não. Espera aí.

-O que é agora, papai? Vai embaçar de novo?

O pai vai até o interior da casa e retorna com um LP de vinil, a capa amarelada pelo tempo. Encara o Aranha e diz:

-Autografe isso aqui, Spider. Conheci minha mulher ouvindo esse disco.

-Pra já, bródi.

Depois de escrever uns garranchos incompreensíveis, o Aranha devolve o disco, enlaça a menina e a conduz em direção à motocicleta. O ronco ensurdecedor da máquina não impede que o pai grite da porta:

-Você ainda toca?

Aranha joga fora o cigarro e responde:

-Toda noite.  

Os dois desaparecem numa esquina e o pai diz em voz alta pra si mesmo:

-Spider Jones, o Aranha... quem diria que um dia eu ia conhecer a lenda... pena que o disco está riscado.




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