terça-feira, 9 de junho de 2020

NÃO É O FIM DO MUNDO
João Cândido Martins

1
Meu nome é Teresa Valença. Já tive propriedades e maridos. E agora, aos 70 e poucos anos, todo dia vou a uma esquina no centro de Curitiba pedir esmolas. Ofereço balinhas em troca de 2 reais. Com o que arrecado durante o dia, de modo geral, tenho o suficiente para comer à noite. Eu não preciso me preocupar com moradia, pois habito gratuitamente um dos quartos dos fundos do hotel que fica nas proximidades. 

Claro que me sinto péssima com a derrocada, mas agora não há mais tempo para lamentar. Não tenho a quem recorrer. Só me resta pedir esmolas. Estou nesta esquina há 5 anos. Todo dia ganho uma marmita do restaurante chinês. A comida deles é boa. Para saciar minha fome à noite, só conto com as moedas que coleto das nove da manhã às dezenove. Não posso reclamar. Como tenho idade, as pessoas costumam contribuir, algumas com mais de dois reais. Depois de jantar, tomo banho no vestiário feminino do hotel e me dirijo para meu quarto, onde tento ler o jornal que é distribuído gratuitamente nas esquinas. Não é porque perdi tudo que tenho de me manter desinformada. 

Eu não sei nem como agradecer ao gerente do hotel pela gentileza, pelo ato humanitário de me permitir dormir aqui. Até já me ofereci para fazer a limpeza dos banheiros do hotel, mas eles não quiseram. Humildemente aceito a gentileza e durmo todas as noites nesse pequeno quarto que fica no fundo de um corredor. Os funcionários do hotel me deram até um catre para dormir. São todos uns anjos e eu nunca terei como agradecê-los da forma como deveria. 

2
Trabalho no cruzamento entre duas avenidas largas, cada uma com seis pistas de carros. De qualquer ponto que se olhe, é possível ver cada um dos quadrantes. De umas semanas pra cá, vejo que um jovem morador de rua vai e vem pela calçada esquerda de uma dessas ruas conduzindo um carrinho de supermercado cheio de cachorros. Ele fala sozinho e vai e vem, repetindo o ciclo inúmeras vezes ao longo do dia. Sinto pena dele, mas não tenho como ajudá-lo. Vejo que ele é abordado por agentes da assistência social, mas eles o deixam ali falando sozinho.

E assim, todos os dias, sucessivamente, lá está ele com seus cachorros. Não resisto e tento uma aproximação. Ele é sereno. Pergunta se tenho um cigarro. Eu tenho. Seu nome é Francisco. Mostra uma carteira de identidade suja e amassada. “Está com fome, Francisco?” “Sim”. Levo-o para o restaurante, mas ele está muito sujo para entrar. Peço que espere uns instantes e retorno com uma marmita para ele. O rapaz deve ter uns trinta anos. Come com voracidade. Devia estar sem comer há dias. Após fumar outro cigarro, parece que a lucidez toma conta de suas palavras. 

Relata que já foi casado, mas que sua esposa faleceu em virtude de uma doença rara. Depois disso, ele veio parar nas ruas.  Ele me conta que costuma dormir embaixo do viaduto do rio Belém. Pergunto se não seria o caso dele dormir em um albergue. "Esses caras dos albergues têm um monte de regras", objeta Francisco. “Não me importo de dormir na rua. Às vezes é ruim acordar no meio da noite com um rato roendo teu pé, mas não é o fim do mundo”, diz ele.

3
No dia seguinte, ao invés de ir mendigar, visto-me com minha única roupa normal e vou até a Biblioteca Pública do Paraná. Se eu tiver sorte ainda deve estar lá. E está. O Livro da Lei, de Aleister Crowley escrito em "enoquiano", que deixei nessa exata prateleira há 35 anos. Ninguém mexeu. É uma edição pequena, quase insignificante e escrita numa língua que pouca gente sabe que existe. Abro o livro e ali está, o papel verde com o qual eu costumava marcar as páginas. Nele há uma frase escrita. Dobro o papel, deposito o livro novamente na estante e saio sem chamar atenção.

 Encontro Francisco à tarde. O rapaz parece mais confuso do que o normal, mas redobra a atenção quando eu lhe digo que posso ressuscitar sua esposa.

“É sério isso?”, pergunta ele. 

“Sim, é só você me dizer onde ela está enterrada. Nós vamos lá à noite e eu resolvo pra você”.

“Dona Teresa eu...eu...”

O jovem mendigo não se contém de alegria. Abraça-me e não me incomodo com o fato dele estar imundo. No carrinho de supermercado, os cães latem. Ele me informa que sua mulher foi enterrada no Cemitério Água Verde. Não temos dinheiro pra condução e mesmo que tivéssemos, Francisco seria impedido de entrar em qualquer ônibus. Temos de ir a pé do Centro ao bairro Água Verde. Foram muitas, muitas quadras. 

Já no começo do caminho, os cães foram se retirando, como se soubessem que algo importante iria acontecer. Depois de quase duas horas andando, chegamos ao cemitério que estava prestes a fechar os portões. Entramos por uma porta lateral e nos escondemos atrás de um mausoléu. Alguns guardas municipais passaram pela área, mas não nos avistaram. A noite caiu.

4
Próximo à meia noite, acordo Francisco que dormia sobre um túmulo. Ele se recompõe e pergunta onde estamos. “No cemitério Água Verde. Você disse que iria mostrar onde sua esposa foi enterrada”. O jovem pôs a mão na cabeça. “Há anos não venho aqui, só lembro que descendo a alameda principal, havia um túmulo de esquina à direita, com azulejos amarelos e também uma árvore meio retorcida à frente”. 

“Vamos lá, então”, digo enquanto me certifico de que o papel verde está no meu bolso.

Andar por um cemitério à noite é uma experiência estranha. As sombras se projetam de forma diferente, formando imagens inesperadas. A luz da Lua torna macabras as faces dos mortos nas pequenas fotografias e a sensação de estar sendo observado é descomunal. Mas não sinto medo. Finalmente encontramos o túmulo da mulher de Francisco. Os azulejos precisam de limpeza. A luz da lua permite que eu veja o sorriso da mulher de Francisco no retrato ovalado. Embora retrate uma morta, a foto emana vida. Francisco começou a chorar. Deixei que ele extravasasse seus sentimentos. Acendi um cigarro e esperei ele se acalmar. 

Alguns minutos depois, me aproximei e disse: “Vamos trazer ela de volta?” 

“Vamos, vamos”, respondeu ele, se recompondo. 

Solicito a Francisco que se ajoelhe e ponho minhas mãos sobre sua cabeça. Entoo as palavras milenares escritas no papel que peguei na biblioteca e depois, peço que ele coma o papel. Ele me olha estranhado, como se não tivesse entendido.

"Coma", repito. Enquanto ele mastiga o papel, termino de entoar a frase pela 3ª vez. Só resta o silêncio. “E agora?” pergunta ele. “Amanhã ela vai estar de volta”, respondo. “Acredite nisso”. Ele se levanta e iniciamos nosso longo trajeto de retorno ao centro. Depois de muitas horas, chegamos às ruas próximas à nossa esquina. Eu só queria deitar e dormir. Francisco me agradece e vai em direção ao viaduto. O pessoal do hotel pergunta se está tudo bem comigo. Respondo que sim e me retiro. Tenho um sono pesado.

5
Acordo. Ando em direção à esquina onde costumo pedir dinheiro. Sento em frente ao hotel onde moro, do outro lado da rua, e depois de uns 45 minutos vejo uma ambulância chegar e levar amarrada numa maca a mulher que um dia foi Teresa Valença. Ela grita absurdos. Diz que seu nome não é Teresa e que, na verdade, ela é um homem. Aparentemente a mulher está descontrolada. Os funcionários do hotel olham a cena consternados. 

Depois que ela se vai, tudo se acalma e todos voltam para seus afazeres. Permaneço por uns cinco minutos observando se alguém ficou desconfiado comigo sentado aqui do outro lado da rua. Nada. Ninguém suspeita de nada. Eu me levanto e, do alto dos meus trinta anos, vou viver minha nova vida como Francisco.



























Foto 1: Ezio Angulski Filho/Foursquare City Guide
Foto 2: David Tareskiewicz/Foursquare City Guide
Foto 3: Ezio Angulski Filho/Foursquare City Guide
Foto 4: Maykel M./Foursquare City Guide

Sem comentários:

Publicar um comentário