quinta-feira, 11 de junho de 2020

MINHA MÃE, A COMUNISTA
João Cândido Martins

1
Vou contar a história como minha mãe me contou e complementar com informações que vim a tomar conhecimento por meio de outras pessoas. Pode ser que um detalhe ou outro não seja totalmente fiel à verdade, mas, no geral, acredito que foi mais ou menos isso que aconteceu. No final dos anos 70, começo dos 80, minha mãe atuava como professora de matemática e diretora do Colégio Estadual Paula Gomes, em Santa Quitéria. Neste período, ela pode acompanhar o percurso estudantil de um rapaz de nome César V. R. ou, como era mais conhecido, Cezinha. 

Parece que ele sempre teve um desempenho escolar dentro do satisfatório e algum destaque no futebol que era jogado pelos campos de Santa Quitéria. Era filho de uma das professoras do colégio e eu lembro bem da sua figura meio nórdica. Às vezes minha mãe me levava, ainda criança, para o colégio e eu ficava por lá enquanto ela trabalhava. Cheguei até a assistir umas aulas do 2º grau à noite, justamente na turma desse cara, Cezinha.

Ele não pretendia cursar nenhuma faculdade. Dominava todos os detalhes mecânicos de qualquer automóvel lançado pelo mercado naquela época, e acreditava que poderia ganhar dinheiro com isso. Namorava com uma moça de nome Valéria, que era neta do seu Vítor, um militar que se mudou para a rua Divina Providência em Santa Quitéria no final dos anos 40, mesma época em que meu avô comprou a casa algumas quadras abaixo, na rua Capiberibe, onde hoje moram minha prima Cynthia Werpachowskki e Lucinéa Dobrychlop. 

O que acontece é que em algum momento, entre 80 e 81, Cezinha passou a demonstrar interesses políticos e chegou a escrever um artigo no jornalzinho dos estudantes sobre questões que se colocavam naquele momento como a ainda atuante censura, as detenções realizadas pela polícia sem auto de prisão em flagrante. Ele também sugeria investigações sobre casos de tortura que aconteceriam nos porões do regime e que ele cabalmente afirmava serem reais, entre outros temas mencionados no texto. Eu tinha guardada uma cópia, mas perdi.

Daí houve o atentado no Riocentro. Militares queriam explodir uma bomba em meio a um show que estava sendo realizado no dia 31 de abril de 1981 no Centro de Convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, mas a bomba explodiu com antecedência no colo de um desses militares enquanto eles estavam no carro. A ideia era que as mortes produzidas no show pela explosão freassem o processo de abertura política que já vinha se estabelecendo de forma gradual há algum tempo, mas o incidente gerou uma crise e alguns setores do governo como o Serviço Nacional de Informações (SNI) tentaram atribuir o atentado às esquerdas, versão que era insustentável, pois nessa época, todos os grupos de resistência ao regime estavam dispersos e, apesar da vigência da anistia, ainda não havia clima para a retomada de uma resistência armada, por exemplo. Com o recrudescimento da violência policial, novos grupos de resistência começaram a surgir, principalmente nas periferias.


2
Certo dia, minha mãe recebeu no colégio a visita de um homem de bigode e óculos escuros. Ele se identificou como agente P., membro do setor de Inteligência do Exército, mas não especificou exatamente onde trabalhava ou o que fazia. Perguntou de forma direta sobre o jornalzinho dos estudantes, sobre quem o editava e com que dinheiro. Em seguida, passou uma lista de nomes à minha mãe. Queria saber se ela estava consciente de que eles praticavam política estudantil nas dependências do colégio, que era estadual. Minha mãe disse que sabia que alguns alunos tinham atividades políticas fora do colégio, mas que ali dentro ela mantinha uma disciplina apolítica. "Eles estão aqui pra aprender matemática, português, história, geografia e biologia. É como eu vejo", disse minha mãe.

O militar afirmou que estava a par da conduta da minha mãe frente ao colégio e disse que ela estava no caminho certo. Mas, na opinião dele, aquela matéria que saiu no jornalzinho era uma brecha perigosa dentro de toda aquela disciplina. Minha mãe respondeu que só veio a saber do texto após sua publicação e que, considerou inútil tentar censurar algo que já estava nas mãos de todos os alunos. 

"Esse rapaz, César, a senhora tem contato com ele?", perguntou o agente P. Minha mãe respondeu que no momento não atuava como sua professora, mas, sempre que podia, acompanhava o desenvolvimento de Cezinha. 

"Nós estamos numa guerra, professora Lôla. Eu entendo que os professores muitas vezes desenvolvam ternura e afeto por seus alunos, mas por trás de um alegre rosto juvenil, pode se esconder um comunista sem pátria, a senhora não concorda? E a obrigação dos professores e funcionários das escolas, públicas ou particulares, é impedir que os estudantes criem núcleos comunistas. A senhora sabe disso, não sabe?"

"Como eu disse, tento impedir qualquer ação político-partidária dentro da escola", respondeu com cautela minha mãe, "mas pode ser que alguma coisa escape. São 15 turmas, quase 500 alunos... o tema política nacional está nas manchetes todos os dias, em todos os jornais, na televisão, no rádio, nas revistas... Meu entendimento pessoal, que trago desde 1950, é que a escola deve se limitar a ensinar as matérias da grade curricular, mas não posso impedir que eles se interessem pelos assuntos do momento".

"Bom, professora Lôla, se entendermos que a senhora não está administrando a escola da forma correta, vamos intervir. Era isso que eu tinha a dizer pra senhora". O Agente P. se levantou e, sem esperar que minha mãe falasse nada, se retirou.


3
Naquela semana, houve várias batidas policiais em diretórios acadêmicos e grêmios estudantis. Muita gente foi detida para averiguações e isso instalou um clima de terror entre os estudantes que, ao mesmo tempo que sentiram medo, não gostaram de ver - mais uma vez - cerceado seu direito à manifestação. Cezinha andava desaparecido. Às vezes ele sumia com sua namorada Valéria, então ninguém estava muito preocupado porque todos sabiam que uma hora ou outra ele reapareceria. 

Uma noite, minha mãe estava trabalhando em sua sala, quando ouviu um som de voz ao microfone vindo do lado de fora. Olhou pela janela e avistou Cezinha em cima de um caminhão de som em companhia de alguns colegas. Segurando o microfone ele disse em alto volume que iria ler uma lista com os nomes de todos os estudantes desaparecidos nas últimas semanas em Curitiba. A primeira coisa que minha mãe pensou foi na sinistra figura do Agente P. e na segurança do próprio Cezinha. Durante seu breve contato com o agente, ela percebeu que aquele homem seria capaz de qualquer violência.

Minha mãe saiu da sala e foi em direção à rua para interromper a manifestação antes que a polícia aparecesse, mas foi tarde, porque minha mãe demorou para chegar ao térreo (o prédio não tinha elevadores e minha mãe, como todos sabem, mancava da perna esquerda, na qual tinha implantada internamente uma peça de platina). A polícia surgiu e cercou a rua, seguindo-se um breve mas tumultuado conflito. Alguns estudantes foram detidos e outros escaparam (Cezinha entre eles). As aulas foram suspensas e os alunos dispensados. 

O agente P. estava presente na batida e disse a minha mãe pra ficar descansada porque eles sabiam que, naquele caso, ela não teria como prever que os alunos fariam aquilo. Ele falou que ela podia ir pra casa em sossego. Na época, meu pai era Delegado de Polícia em Castro, mas minha mãe decidiu não envolvê-lo nisso. Só apelaria a ele, caso fosse detida. 


4
Quando ela chegou em casa, eu, que estava com 8 anos à época, dormia. Minha tia Jesuína, irmã de meu pai que cuidava de mim na ausência de minha mãe, também estava dormindo. Minha mãe pensou sobre a minha segurança, se alguém não poderia me machucar visando prejudicá-la. Ela pensava nessas hipóteses quando ouviu alguém se jogar para dentro do corredor que ficava junto ao muro dos fundos da nossa casa. A primeira coisa que pensou foi que se tratava de um ladrão, mas não demorou para que a voz de Cezinha se fizesse ouvir:

"Dona Lôla... Dôna Lôla, sou eu..."

Minha mãe abriu a porta dos fundos e disse: "Cezinha, você não deveria estar aqui".

"Eu sei, mas minha casa está sendo vigiada e não tenho dinheiro pra me esconder em nenhum hotel".

Ele entrou. Estava sujo e suas roupas rasgadas. Minha mãe esquentou rapidamente uma sopa de feijão que estava na geladeira. Depois que eles comeram, ela disse que ele não poderia ficar ali.

"Eu moro com meu filho, meu marido trabalha no interior. Se eles vierem te procurar aqui e te encontrarem, vou presa junto e ainda me tiram meu filho. Não posso ser presa, meu filho precisa de mim".

"Eu entendo professora Lôla. Mas se eles me encontrarem, acho que não vai sobrar nada de mim pra contar a história".

Ambos ficaram em silêncio por alguns momentos. Minha mãe sabia que ele não estava exagerando. Até que ela teve uma ideia. Pediu a Cezinha que esperasse um pouco e foi à casa de minha tia Leony, que ficava na parte da frente do terreno. Elas haviam combinado que iriam doar umas roupas velhas para a Igreja de Santa Quitéria, e minha mãe usou essa desculpa pra conseguir algumas peças de vestimentas do meu tio que fossem do tamanho de Cezinha. De banho tomado e vestido, Cezinha aceitou uns cruzeiros que minha mãe lhe deu. 

"Vá até a lateral da Igreja de Santa Quitéria, do lado do campo de futebol, e aguarde uma Belina branca, daqueles modelos antigos. Já está tudo combinado. Um ex-aluno meu, o Ribas, vai te levar a uma chácara perto de Almirante Tamandaré. Lá mora só o caseiro e a família dele. Você fica na chácara por uns dias, um mês talvez seja o suficiente. Não saia pra nada, você tem tudo lá. Nem pense em dar as caras em Curitiba. Fique lá bem escondido. Se quiser levar uns dois ou três livros pra passar o tempo, pode escolher na biblioteca do meu marido". Ele pegou minha edição de "Vinte Mil Léguas Submarinas" e uma coletânea de contos de autores paranaense lançada pela Secretaria de Cultura uns anos antes. Em seguida, se despediu de minha mãe, pulou novamente o muro e desapareceu nas sombras. 

Minha mãe contava que naturalmente pensou muito antes de decidir ajudá-lo naquela noite, mas a essa altura, depois dos encontros com o Agente P. e da violência do conflito ocorrido ao lado do colégio, ela já não tinha dúvidas de que os boatos sobre prisões ilegais e torturas poderiam ser verdade e nem passava por sua cabeça a ideia de saber, ou mesmo ser cúmplice, na prisão de Cezinha ou quem quer que fosse. Na verdade, minha mãe, que era uma entusiasta da pedagogia antiga, passou a ver com simpatia a divulgação e o ensino de temas políticos nas escolas. Ela defendia isso abertamente nos últimos anos da sua vida. 

Parece que Cezinha se engraçou com a filha do caseiro da tal chácara em Almirante Tamandaré e o casal fugiu para alguma cidade no interior de Goiás. Ele nunca mais reapareceu ou alguém teve notícias suas. E os anos passaram. 

5
Em 1999 eu estava com 26 anos. Numa tarde qualquer assistia televisão com minha mãe, quando o porteiro do condomínio interfonou dizendo que havia um certo Cezinha querendo falar com ela. Eu não sabia quem era, mas estava acostumado com visitas de ex-alunos que iam ver como ela estava e mostrar suas famílias. Minha mãe sorriu e disse ao porteiro pra deixar eles entrarem. Cezinha estava acompanhado pela esposa. Abraçou minha mãe por um bom tempo e, em seguida, retirou de uma valise os dois livros que havia emprestado em 81 e um envelope contendo a quantia que minha mãe deu a ele naquela noite. Mostrou a foto dos filhos já com 19 e 20 anos respectivamente e revelou que ali entre 89 e 90 largou a militância política, financiou um caminhão e saiu fazendo frete pelo Brasil. conheceu o país todo e conseguiu juntar um dinheiro pra se estabelecer em definitivo novamente em Curitiba.

Perguntei a ele se tinha se desvinculado totalmente da política. Ele respondeu que perdera o interesse. "Mas justamente agora, que a esquerda está ativa e competindo com força pra chegar ao poder?", perguntei. 

"O poder é uma ilusão, meu amigo. Em alguns lugares, a política é dominada por grupos que se revezam por décadas, séculos. Isso nem a esquerda vai conseguir mudar". Ele bebeu um gole de gasosa gengibirra e concluiu dizendo que estava desiludido e que, no momento, só estava interessado em servir a Deus e defender os interesses de sua família. O assunto desvirtuou para outros temas e lembranças. 

Em certo momento, minha mãe foi buscar algo no quarto e retornou com algumas fotografias. Uma delas mostrava Cezinha em cima do caminhão de som enquanto lia os nomes dos desaparecidos entre 80 e 81. Ele ficou segurando a foto com um misto de admiração e surpresa. Estava visivelmente emocionado e, por alguns segundos, achei que fosse chorar. Mostrou à mulher e comentou: "Nessa época, eu dava aula de mais-valia pros colegas. Olha, eu não tinha um fio de cabelo branco". A visão da foto parece ter mexido com ele. Mesmo falando sobre outros assuntos e rememorando outras pessoas e fatos, ele olhava com alguma regularidade para a imagem que ainda estava em suas mãos. 

Na saída, um tanto constrangido, ele pediu a minha mãe, ou a mim, que lhe enviasse uma cópia digital da foto. Minha mãe respondeu que ele podia ficar com ela. "Essa imagem é um dos momentos mais importantes da sua vida. Quem tem de ficar com ela é você", disse minha mãe. O velho comunista chorou.


 

 


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