quarta-feira, 3 de junho de 2020

METAFONIA
João Cândido Martins

A banda Metafonia surgiu em Curitiba no início de 1968, proveniente da junção de dois outros grupos: "Farewell Baby", especializado em blues urbano, e "Lua Cheia", que desenvolvia algo próximo da folk-psicodelia feita em San Francisco, nos Estados Unidos, durante aquele mesmo período. Destas "garage bands" restam uma fita demo com três versões da canção " Farewell Baby", sendo, uma delas, uma jam de 15 minutos e uma fita caseira do grupo Lua Cheia com 10 versões diferentes da música "Íris". A primeira formação do Metafonia contava com João Neves (guitarra), Laércio (bateria), Lucas Noronha (baixo), Sérgio Guimarães (teclados) e Sônia Cecatto (vocal e harmônica).

Não se pode afirmar que a banda naquele momento possuísse um estilo determinado, ou mesmo que se orientasse por alguma das linhas que estavam em voga à época. Em verdade, como comprova a também raríssima fita demo "Aquilo, aqui não", o som realizado pela primeira encarnação do Metafonia era uma mistura das tendências folk-blues acima citadas porém de um modo primário e sem o esmero de produção já perceptível naquela época em grupos do Rio de Janeiro e São Paulo. Era necessário organizar aquele amálgama sonoro e, para isso, seria imprescindível a presença unificadora de um líder, um determinador de diretrizes, fato que aconteceu com a substituição do burocrático João Neves pelo guitarrista Plínio "Bomba" Moura, em 1970.

 Egresso de experiências com o Fandango, dança popular do litoral do Paraná, Plínio "Bomba" soube misturar essa informação com as influências dos demais integrantes do grupo criando uma espécie de jazz-fandango psicodélico. Simultaneamente Sônia Cecatto passou a produzir letras de impressionante beleza e apuro formal. Influenciada por "Bomba", com quem iniciou um namoro logo após sua entrada no grupo, Tânia substituiu seu nome próprio por Sonja e passou a utilizar a harmônica (gaita de boca) de uma forma diferente em comparação ao blues tradicional. 

Percebendo que estavam ficando defasados em relação aos colegas, Lucas e Laércio resolveram estudar seus instrumentos com afinco e, em poucos meses faziam a mais famosa "cozinha" baixo-bateria de Curitiba. Adepto de poliritmias e do uso da bateria como um conjunto de instrumentos percussivos, Laércio proporcionava a Lucas a possibilidade de criar linhas melódicas mais complexas no baixo, que passou a ser mais flutuante, menos sincopado.

Apesar dessas revoluções internas, Sérgio, o tecladista, permaneceu fazendo as mesmas harmonias de blues que realizava no Farewell Baby. Os colegas em princípio não exigiram que ele alterasse seu modo de tocar, mas com o tempo, ficou nítido que o teclado estava destoando e Sérgio abandonou o grupo sem maiores hostilidades. Para seu lugar foi convocado Flávio Ramos, oriundo da Faculdade de Artes do Paraná. Legítimo bachiano, Flávio em princípio conteve-se pois a sonoridade do Metafonia naquele momento não dava margem à pirotecnias instrumentais. De qualquer modo, o proto-sintetizador VCS-3 caracterizou as gravações feitas a partir da sua entrada.
Após vários meses de intensos ensaios em uma pequena chácara nos confins do bairro Santa Cândida, o grupo iniciou uma série de apresentações que culminaram com a gravação do disco "Nunca Venta em Vão" (Independente, 1971). Um exemplo da poesia de Sonja deste período é a letra da música "Flutuação":

"Flutuo
Um tanto vago
Enquanto vago flutuando por aí
Enquanto andas sobre as ondas
Inquieto canto o contraponto
Resultante do som 
Oriundo do encontro
Das fendas
Infindas
Do universo que eu fiz
Ontem"

A levada intensa e ao mesmo tempo compassada da bateria contrastava com a leveza da letra. Por outro lado, um violão de 12 cordas possibilitou a Plínio "Bomba" garantir a aura rural que tanto lhe agradava. O disco independente foi muito bem recebido e conquistou para o grupo inúmeros fãs que se aglomeravam mesmo sob a chuva para presenciar as apresentações ao ar livre realizadas em parques e bosques da cidade. A emergente cena rock que acontecia em Curitiba foi receptiva à suíte "Orgasmo Solar", tema de 18 minutos dividido em 7 partes com longos trechos instrumentais, um inequívoco indício de que a sonoridade do Metafonia já estava se orientando para o rock progressivo. Isso, aliás, ficou evidente durante os inúmeros shows feitos entre 71 e 72 não só em Curitiba, como também no litoral. no interior do Paraná e nos estados de São Paulo, Mato Grosso e Santa Catarina.

No final de 72, conforme relatos de integrantes da banda e de pessoas que frequentavam os ensaios, o baixista Lucas decidiu que estava apaixonado por Sonja, e passou a criar canções nas quais expunha seus sentimentos, mesmo consciente da fratura que criava no seio do grupo. O mais incrível é que a qualidade dessas canções, fruto da evolução de Lucas enquanto letrista e compositor era tão inegável que o Metafonia foi contratado pela gravadora EMI, que lançou um compacto com as músicas "Amor" e "Eflúvio" (valsa instrumental). Segue a letra de "Amor", de Sonja Cecatto:

"Amor é algo que se busca
Em veredas e fontes distantes
Em sina insana e tonta
Quando se encontra
Amor é coisa que ofusca
Labareda incandescente e constante

Amor que se diz em voz alta
É flor incauta que num salto
Transcende, transpira e traduz
A aspereza de qualquer asfalto
A invisível voz que vem da luz"

O compacto "Amor/Eflúvio" vendeu em 1973 mais de dez mil cópias só em Curitiba. Com aparições em programas de televisão, o grupo ficou conhecido nacionalmente. Tudo indicava que a liderança do grupo estava pendendo para Lucas que, agora, era mais influente na formatação dos arranjos. O instrumental estava se tornando mais pesado e complexo, o que limitava, em certo sentido, as experimentações acústicas de Plínio "Bomba". O guitarrista então percebeu que o interesse de Lucas ia além de determinar este ou aquele arranjo. Ele flertava abertamente com Sonja, que via tudo como uma brincadeira, mas não tardou para que "Bomba", frustrado, partisse para a Itália, abandonando a cantora e o grupo.

Desiludida e confusa, ela também se retira e, meses depois, funda com sua amiga Léia Botelho e alguns amigos, o grupo "Dancing Meat Under Lux", com o qual lançou o fundamental "A cor azul caminha aqui" (74), um dos mais pungentes registros não só da história do rock nacional como também de toda a música brasileira. Confessional ao extremo, o disco não vendeu bem e, dispensada pela gravadora, Sonja se uniu a um promotor de Justiça com quem permaneceu casada até 1994.

O Metafonia, desfalcado, passa algum tempo sem rumo certo, mas Lucas assume os vocais e chama para a guitarra Silas Vasconcelos, músico proveniente de experiências progressivas com os grupos mineiros "Nuvem Nua" e "Fator Verde". Neste ponto, a música do Metafonia ganha contornos mais grandiloqüentes como fica comprovado no disco "À Deriva", (Harvest-EMI, 1975) que conta com a participação da Orquestra Sinfônica de Curitiba nos temas "O Sono da Razão" e "Poliedro". As demais canções apresentam tendências ao hard rock medieval. 

Embora tenha vendido o suficiente para fazê-los viver exclusivamente da música e das apresentações, o disco "À Deriva" foi considerado auto-complacente e escapista pela crítica especializada que, de modo geral, classificava a saída de Plínio "Bomba" e Sonja como o fim daquilo que o grupo tinha de melhor, ou seja, as experimentações psicodélico-rurais-vanguardistas. Tais críticas procedem, mas somente até certo ponto pois, mesmo neste disco há canções memoráveis como "Constatação":

"Eu sempre acreditei em muitos mitos
Quase sempre preferindo o surreal
Mesmo vendo a face dos aflitos
Vivendo num eterno carnaval

A coisa toda fez sentido
Quando a lua sorriu pra mim
De um modo nenhum pouco precavido
De uma forma
De forma alguma 
Ruim"

Ou ainda as "Vinhetas-Quase-Hai-Kai", de influência leminskiana:

"Sexo faço bem
Amor também
Talvez"

"De dentro
Afora
InventoAgoras"

A fraca recepção ao disco "À Deriva" e as mudanças operadas no gosto popular em virtude das trilhas sonoras de novelas não impediram que em 1977 o Metafonia registrasse uma das mais lendárias gravações da história do rock nacional. Intitulado simplesmente como "Metafonia", este disco foi totalmente censurado e nunca lançado oficialmente, mas durante anos pôde ser obtido através de cópias piratas. Indo da brutalidade extrema de "A Verdade" até momentos etéreos como "O Sol Em Mim", o disco proporciona uma visão panorâmica de praticamente todos os temas polêmicos que permearam os anos 70, como o fortalecimento do feminismo e do Black Power, a possibilidade de uma guerra nuclear e a hegemonia militar nos governos da América Latina. 

A rigor, este foi o motivo principal que levou a censura a proibir o disco. As apresentações do grupo eram vigiadas por agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) e, em muitos casos, como aconteceu em Vitória, no Espírito Santo, a polícia dispersou a audiência com gás lacrimogênio e bombas de efeito moral.

Inquestionavelmente o disco "Metafonia" é o grande momento criativo de Lucas Noronha, tanto como letrista quanto músico, mas infelizmente poucos puderam conferir ao vivo a performance da banda no hard rock "A Verdade":

"Não existe verdade absoluta
Em verdade, verdade mesmo nunca há
A única que conheço é a das putas
Que cobram conforme a fome
Daqueles que querem pagar"

Sem espaço para tocar, sem um disco para vender, enfrentando um sério problema com o uso desenfreado de alucinógenos por parte do tecladista Flávio Ramos e, principalmente, sem apoio da gravadora, o Metafonia encerra suas atividades numa noite melancólica, porém intensa no Estádio Couto Pereira, em Curitiba. Foram executadas músicas de todas as fases da banda. Reza a lenda que a audiência foi estimada em mais de quinze mil pessoas e que o show, iniciado à meia noite, só encerrou duas horas após o sol nascer. Cópias piratas dessa apresentação são vendidas informalmente até hoje.

O baterista Laércio passa a integrar em 79 o grupo curitibano de black music "Jinga Jazz Afins", de curta duração. Atualmente é advogado. Silas Vasconcelos se tornou professor de violão erudito em um conservatório no interior do Rio Grande do Sul, onde permanece até hoje. Flávio Ramos lançou em 80 um elogiado livro de poesias intitulado "A Fala da Esfinge". Faleceu no ano seguinte em um trágico acidente de automóvel. Plínio "Bomba" reapareceu no rock nacional em 85, quando, em Brasília fundou a banda new wave "Trocas Etruscas". Após um período de relativo sucesso, desapareceu, e alguns dizem que mora na França, onde teria casado com uma haitiana.

Lucas foi contratado como produtor e arranjador de músicas de novelas da Rede Globo, mas reapareceu em 96 com "Lucas e os Caras que Foram Lá", grupo que contava nos vocais com ninguém menos do que Sonja, recém separada de seu esposo. O grupo emplacou a música "Néctar", considerada por muitos críticos como uma retomada dos melhores momentos do Metafonia. Interessantes também são as experiências da dupla com música prog-eletrônica, antecedendo em alguns anos o que viria a ser conhecido atualmente como "wind-beat". Lamentavelmente o disco se perdeu entre inúmeros lançamentos que conquistaram maior simpatia por parte das rádios FM. Lucas, agora casado com Sonja, voltou à direção musical de novelas da Globo.

Disputados a preço de ouro nos sebos e na internet, os discos lançados pelo Metafonia e grupos correlatos são verdadeiras peças de colecionador. A coletânea "Gotas de Trovão" (EMI, 2002) peca pela falta de informações gerais como datas e os nomes dos músicos que participaram de cada gravação, mas ganha importância pela inclusão de três faixas inéditas: "Vertente" de 70 (fase Plínio "Bomba"), "Abstraia" (sobra do progressivo "À Deriva", de 75) e "Luzcarnefúria" (77), que não consta em nenhuma das versões piratas do censurado disco "Metafonia". 

De qualquer forma, embora a banda não receba o reconhecimento devido mesmo em Curitiba, sua cidade de origem, esta coletânea é um excelente referencial para quem quer conhecer um pouco da história do rock brasileiro pós Tropicalismo e anterior ao advento das bandas dos anos 80.

DISCOGRAFIA - METAFONIA E GRUPOS CORRELATOS

LUA CHEIA
Fita K7 caseira com várias versões da música "Íris" (circa jul-ago 67)

FAREWELL BABY 
"Ao Vivo no Largo da Ordem - 14 de outubro de 67" (K7 caseiro)

METAFONIA 
Aquilo, Aqui Não (68 – K7 caseiro)
Nunca Venta em Vão (71 – Independente – vinil)
Amor / Eflúvio (73 - EMI – compacto)
À Deriva (1975 – Harvest – EMI)
Metafonia (gravado em 77 - censurado, permanece inédito)
Ao Vivo em Curitiba, 3 de janeiro de 1978 (Pirata)
Gotas de Trovão (2002 – Coletânea – EMI)

DANCING MEAT UNDER LUX (Sonja Cecato e Léia Botelho)
A Cor Azul Caminha Aqui (74 – EMI)

JINGA JAZZ AFINS (Laércio Costa)
Blacktéria (referência ao bairro de Santa Quitéria em Curitiba, onde o disco foi gravado) – Independente, 1979.

TROCAS ETRUSCAS (Plínio "Bomba" Moura)
Trocas Etruscas – WEA – 84

OS CARAS QUE FORAM LÁ
Néctar – Universal – 96







 




















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