segunda-feira, 8 de junho de 2020

MAX BOLD 16
João Cândido Martins

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Todos sabem quem eu sou. Desde 1980 chefio o departamento de Design da Universidade Federal do Paraná. Também ministro aulas na Universidade Católica e sou professor-consultor da USP, além de manter relações com universidades do exterior. Minha especialidade é tipologia, o estudo das fontes tipográficas. Desde criança sempre me interessei pelo formato das letras. 

Também presto consultoria a empresas na elaboração de logomarcas e outros produtos. Faço o que gosto e ganho muito bem para isso. Estou envolvido com o assunto desde os 20 anos. Agora estou com 60. Se eu parar, morro. Devo aproveitar que a vida me concedeu saúde para estar aqui desempenhando todas essas funções.

Em junho de 1983 fui procurado por Walter Pereira, um dos alunos mais aplicados do curso de Design da Federal. Para mim, foi um prazer recebê-lo, afinal de contas, sempre é bom estimular jovens talentos. Meu gabinete era espartano, mas havia uma mesinha de café num canto. Após nos servirmos, sentamos para conversar. Ele disse que estava para se formar, que tinha planos de continuar os estudos, fazer o mestrado e seria uma honra para ele ter a mim como orientador. 

“Que bom”, disse eu. “E já tem um tema?” 

Walter abriu a pasta que carregava e tirou dela um papel com um texto impresso. 

“O professor consegue identificar que fonte é essa?”, perguntou ele. 

Ponderei por alguns segundos e respondi: 

“Assim, de vista, não sei. Diria que ela se parece com a fonte Futura, em algumas características, mas posso estar enganado.”

Ele me encarou e disse: 

“Professor, essa é a fonte Max no formato Bold e no tamanho 16. Ela realmente existe, não é uma lenda.” 

Examinei com mais atenção. Realmente, ela poderia se passar pela lendária fonte alemã, criada pelo tipógrafo nazista Max Hoffman. A historiografia sobre o período aponta que Hoffman teria sido uma espécie de “tipógrafo oficial” de Hitler. Um garoto-prodígio que tinha como objetivo criar uma fonte cuja leitura induzisse 100% dos leitores a aceitar como verdade o conteúdo do texto. Algumas fontes são persuasivas, de fato, mas elas não garantem que a totalidade do público vá aceitar a ideia exposta ou comprar o produto anunciado. Max Bold no tamanho 16 cumpriria essa meta. 

Mas aparentemente o projeto deu errado, os testes feitos resultaram inconclusivos e os apontamentos deixados por Max Hoffman (que foram encontrados após sua fuga) não traziam maiores esclarecimentos. Detalhes como a dimensão das hastes em certas letras não estavam claros. Apesar dessas deficiências, Max Bold 16 entrou no imaginário dos que estudam tipografia como a fonte hipnótica. O Santo Graal dos tipos móveis. Olhei para Walter e disse:

“Isso é um mito.”

Ele me disse que fez algumas viagens para a Alemanha e que esteve em diversas bibliotecas e museus. Reuniu material suficiente para ao menos chegar perto do que foi imaginado por Max Hoffman. Nesse ponto eu o interrompi e disse que na tipografia não existe quase. Ou é ou não é. 

“Por isso essa fonte é tão almejada”, decretei. 

Ele concordou e ficou um instante em silêncio. Em seguida disse que tinha certeza que seus resultados eram fiéis ao projeto original. Esclareceu que sua intenção, além do mestrado, era patentear a fonte como “Max Bold 16” e buscar interessados em alugá-la, como empresas dos ramos alimentício e farmacêutico, grupos políticos, grupos religiosos e por aí afora. Mas, para isso, Walter precisava do aval de alguém de peso no meio, e era aí que meu nome entrava. Concordei em fazer cinco baterias de testes, mas adiantei que aquilo seria infrutífero. 

2
Os testes eram relativamente simples. Um grupo de pessoas era exposto a um texto argumentativo e a uma propaganda, ambos impressos com a fonte a ser testada. De acordo com as respostas, verificávamos o nível de adesão que aquela fonte estimulava. Nunca, em nenhuma hipótese, se conseguia 100% de adesão. Max Bold 16 seria a solução desse problema. Já na primeira bateria de testes, a fonte mostrou a que veio. Todas as pessoas do grupo concordaram com as ideias expostas no texto (uma defesa do aborto) e também disseram que estavam dispostas a comprar o produto anunciado na propaganda (um chocolate). O mesmo se repetiu nas quatro baterias restantes. Walter realmente conseguiu chegar à fórmula da fonte persuasiva perfeita.

Marcamos um jantar em Santa Felicidade para comemorar sua descoberta. Walter comeu com a voracidade dos jovens. Eu, com a frugalidade dos velhos. Ficou decidido que eu orientaria seu mestrado e que seríamos sócios na empresa que comercializaria a fonte. Ficou decidido que teríamos um brilhante futuro. Apesar de bem conservado, eu já não vislumbrava maiores emoções para o que restava da minha vida, mas o surgimento daquela fonte mudou tudo. 

“Walter, você aprecia um vinho?” 

“Sim professor, com certeza.” Chamei o garçom.

Meia hora depois estávamos no meu carro. Ele bebeu uma boa parte das duas garrafas de vinho que eu pedi, então exalava alegria. Disse-lhe que queria mostrar um local importante na história da tipografia em Curitiba. Ele concordou. O lugar ficava no bairro Santo Inácio, um grande lote nas proximidades do Parque Barigui. Após um bosque denso, havia uma clareira ampla. A casa mais próxima ficava do outro lado da estrada. Comentei que ali seria um bom local para instalarmos a sede da empresa. A lua cheia nos iluminava. Ele exultou com a ideia. 

“Professor, isso seria incrível.” 

Afirmei que eu me dispunha a custear os gastos iniciais, afinal, ele era apenas um estudante que penou para fazer algumas viagens para a Europa. Mostrei-lhe o local onde poderia ser a pedra fundamental da construção. Ele já nem falava mais nada, deveria estar pensando no que iria fazer com todo o dinheiro que ganharia. 

“Você descobriu praticamente todas as coisas sobre a fonte Max Bold 16, foi uma grande pesquisa, parabéns”, eu disse. 

Ele agradeceu. 

“Mas tem uma coisa que você não descobriu.” Walter se virou em minha direção. “Você não descobriu que eu sou Max Hoffman!”, respondi enfiando-lhe no abdômen o punhal que ganhei de um oficial da SS em 1943. Ele me olhou sem acreditar que aquilo estava acontecendo e, em seguida, cuspiu sangue. Arqueou por alguns segundos e caiu sem vida.



Imagem: Pinterest

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