terça-feira, 2 de junho de 2020

GLOBO DA MORTE
João Cândido Martins 


1
Fui criança em Santa Quitéria. Cresci na rua Capiberibe, que até meados dos anos 1970 era de terra e tinha postes de madeira onde pica-paus e joões-de-barro faziam seus ninhos. Praticamente o bairro era uma cidade do interior dentro de Curitiba, e como tal, possuía um imenso terreno onde eventualmente se instalavam circos e outras atrações. O que eu mais gostava no circo, mais do que malabaristas e trapezistas, mais até do que palhaços, era o Globo da Morte. Fiquei paralisado quando vi pela primeira vez. Os movimentos sincronizados, o barulho das motos, as luzes... O artista que coordenava tudo se chamava André Gomes. Fui com meu pai nos bastidores para conhecê-lo. Virei fã do cara, antes mesmo de saber o que era ser fã de alguém. Ele foi simpático. 

Gomes conversava com tia Úrsula, a mulher do dono de uma das bancas de revistas da região. Ela estava acompanhada pelo filho, que tinha a minha idade. Eles riam bastante. Gomes brincou comigo. Eu disse que ele era corajoso. Ele respondeu algo como “todos somos corajosos, está dentro de você”. Tiramos uma foto juntos e fui embora satisfeito por tê-lo conhecido. O circo faria mais duas apresentações: na sexta-feira e no sábado de aleluia. Meu pai, percebendo meu entusiasmo, comprou ingressos para voltarmos no sábado. Fiquei exultante.



Na sexta à tarde, o filho de tia Úrsula me convidou para ir até sua casa jogar pingue-pongue. Quando cheguei, descobri a verdadeira razão do convite. Ele queria, com orgulho, que eu visse André Gomes em sua casa. E lá estava o motociclista. Ele e tia Úrsula não nos viram, mas ficamos posicionados num local em que podíamos observá-los sem que eles soubessem. Eu já tinha visto a atriz Romy Schneider nua numa revista, mas tia Úrsula sem roupa era real. Gomes também se despiu e montou sobre ela. Quando eles terminaram e foram embora, pude sair da casa. Estava confuso e chocado ao mesmo tempo. 



Mas espalhou-se entre a gurizada do bairro o boato de que o motociclista fora visto na casa de tia Úrsula.A coisa ficou no disse me disse por horas. Naturalmente silenciei sobre o que eu tinha visto. No final da tarde, o boato se confirmou com base no testemunho de gente ilibada, conforme chegou aos meus ouvidos. Os adultos, que até aquele momento encaravam o suposto encontro de Tia Úrsula com André Gomes como brincadeira, mudaram de postura. À noite eu queria estar no circo vendo o Globo da Morte, mas estava contente em saber que iria no dia seguinte. Confesso, porém, que a imagem de Tia Úrsula fazendo todos aqueles movimentos com Gomes insistia em ocupar espaço em minha mente, e sonhei que ela estava dentro do Globo pilotando nua uma moto.  


2

No dia seguinte, Sábado de Aleluia, havia a tradicional “Malhação de Judas”, que acontecia pela manhã. Hoje isso está em desuso, mas antigamente, nesta data, as pessoas se reuniam nas ruas e batiam em bonecos que representavam figuras públicas execráveis. As crianças adoravam e eu mesmo participei de algumas dessas catarses de violência infantil. Mas, naquele dia, eu estava mais interessado em que a noite chegasse logo para assistir pela última vez o Globo da Morte. Tinha de esperar, não havia outro jeito, e nada melhor para isso do que assistir o espetáculo proporcionado pela Malhação de Judas. 

Havia bonecos de jogadores de futebol, de personagens de novelas, do Bandido da Luz Vermelha, tinha de tudo... É verdade que em plenos anos 70, ninguém tinha coragem de confeccionar bonecos de políticos, mas era possível encontrar bonecos representando temas genéricos como a inflação, por exemplo. Para melhor serem alvos da fúria dos malhadores, os bonecos ficavam pendurados nos postes aguardando seu fim. Às nove horas em ponto, começou a Malhação e as crianças descarregaram uma carga de brutalidade acima do normal em comparação com anos anteriores. Os bonecos eram estilhaçados e queimados.

De súbito, alguém apontou para um dos bonecos, de cuja cabeça aflorava o que parecia ser sangue. Realmente, havia alguém ali camuflado para parecer um boneco, e a pessoa foi severamente espancada. Quem seria? Pensei em André Gomes, em sua transgressão. Mas me enganei: era uma mulher. Era tia Úrsula, que não resistiu aos ferimentos. O inquérito sobre sua morte não prosperou. Ao longo dos anos, foi retomado e arquivado três vezes, sem nunca chegar a nenhum resultado conclusivo. André Gomes, “o artista do Globo da Morte”, como era anunciado, viajou com o circo e, 
até onde se sabe, nunca mais foi visto em Curitiba.





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