segunda-feira, 8 de junho de 2020

EXEMPLAR NEOCLÁSSICO
João Cândido Martins

1
Em 1999 recebi uma casa de herança. Ela veio de uma tia, prima de meu pai. Eu mesmo nunca cheguei a conhecer essa tia, mas meu pai falava bastante sobre ela. Seu nome era Estefania e consta que tinha muito dinheiro. Naquele ano, o imóvel completava um século de existência. Era classificado pela prefeitura como uma unidade de interesse, ou seja, não podia ser demolido nem alterado sem aprovação dos órgãos competentes. Eu não tinha intenção de demoli-lo. Era um bonito prédio de dois pavimentos situado numa das principais esquinas do bairro Portão. À época alguém me disse que a casa era de arquitetura italiana.

Não chegava a ser suntuosa, mas era imponente. Resolvi me mudar para lá. Minhas necessidades se resumiam a uma cama, um fogão, um aparelho de som, uma geladeira, um cabideiro para guardar minhas roupas e uma mesa com duas cadeiras. E um sofá na sala principal. Essencialmente era isso de que eu precisava para ter uma vida mais ou menos normal. Mas, de qualquer forma, me adaptei bem à casa. Era bom ter todo aquele espaço. 

Certa noite, convidei N., minha namorada à época, para conhecer a casa. Correu tudo bem até o momento em que ela, ao ir à cozinha, soltou um grito e veio correndo para a sala. 

“Tem um homem na cozinha, João.”

“Não pode ser, tá tudo trancado.” 

“Não interessa, tem um homem estranho na cozinha, faça alguma coisa.” 

Peguei um tijolo que estava no canto da sala e fui em direção à cozinha, sem saber se conseguiria usá-lo contra uma pessoa. Olhei com cautela a cozinha. Verifiquei todas as portas, janelas e trancas, revistei todos os cômodos. Não havia nada, mas ela ainda estava nervosa. Era curioso porque, de modo geral, N. era uma pessoa que não externava sentimentos. Conversamos um pouco sobre o acontecido, mas nada ficou claro. Ela insistia em dizer que tinha visto um homem.

2
O encanador disse ter visto um homem na casa. O rapaz da TV a cabo contou que viu uma menina. E, da mesma forma, houve também quem dissesse ter visto um homem acompanhado por uma menina. Eu já morava ali há um ano e nunca vira nada e, pra ser honesto, sempre fui cético quanto à possibilidade de ter qualquer contato com os mortos. Devo concordar, entretanto, que a casa realmente era soturna: o pé-direito alto, as portas de madeira antiga, as balaustradas nas varandas da frente, as colunas coríntias que ladeavam a porta principal, o grande vitral da frente, tudo convergia para um clima triste e melancólico. 
Mas em todos aqueles meses eu realmente não vi nada. Até aquela noite. 

Tudo começou à tarde. Objetos mudavam de lugar, o aparelho de som ligava sozinho, uma série de eventos dessa natureza se sucedeu, até que ao me mirar no espelho do quarto, vi ao fundo um homem e uma menina. 



Meu coração disparou. Pensei em correr, mas eles estavam bem na porta do quarto. Se eu saltasse pela janela, minha queda na calçada seria desastrosa. Virei-me calmamente e os encarei. Não eram bizarros. Pareciam tristes e cansados. O homem levantou a mão em minha direção:

“Precisamos da sua ajuda.”

Continuei olhando em silêncio os dois espectros. O que dizer? Como entabular uma conversa normal com alguém que já morreu? O homem continuou:

“Estamos presos nesse prédio, ele precisa ser demolido para que nosso descanso seja eterno.”

Pensei por alguns instantes e respondi que não sabia se a prefeitura iria autorizar.


“Nós não queremos ficar aqui, queremos ir embora, por favor nos ajude.” 

Eu prometi que tentaria ajudá-los, mas já prevendo que seria complicado. Os dois fantasmas se dissiparam na minha frente. Naquela noite e nos dias seguintes optei por dormir na casa de minha mãe. 


3
Refleti bastante nos dias seguintes sobre o assunto e resolvi que tentaria ajudá-los. Eles reapareceram mais duas vezes, reiterando o pedido para que a casa fosse demolida. Fui à prefeitura e procurei me localizar quanto à situação jurídica do imóvel. Disseram que eu deveria me encaminhar à Casa da Memória, no Largo da Ordem. Neste órgão, um historiador especialista na história da arquitetura de Curitiba me explicou que qualquer possibilidade de demolir o prédio estava fora de cogitação.


“É um exemplar neoclássico muito bem conservado. Se a prefeitura autorizasse uma demolição dessas, seria um crime”, argumentou. 

Ficou combinado que no dia seguinte o historiador iria à casa acompanhado por um engenheiro para averiguar o estado da construção. No horário marcado, lá estavam eles. Olharam por tudo e chegaram ao veredicto de que a construção deveria ser mantida em pé. Mostrei-lhes uns vazamentos que havia na parede da cozinha, mas foi inútil.


“Essas casas foram feitas pra durar pra sempre e essa aqui vai resistir muitos anos ainda”, decretou o estudioso.
 
Achei que o homem e a menina fossem aparecer ali na nossa frente, mas nada aconteceu. Ofereci um café. Fomos até a cozinha. O especialista começou a me explicar sobre as funções que aquele prédio desempenhou ao longo dos anos. Mercearia, pensão, escritório de contabilidade, residência... 

De onde estávamos era possível ver a rua através do vitral da entrada. Essa foi a nossa sorte. Foi o que possibilitou que víssemos o enorme ônibus biarticulado sair da canaleta e vir a toda velocidade em direção à casa. Só houve tempo de nos jogarmos pela porta dos fundos que dava para um pequeno jardim. O impacto tremeu o chão e provocou uma espessa nuvem de fumaça que pairou por mais de meia hora. Felizmente ninguém saiu ferido na casa ou no ônibus, mas a parte da frente do imóvel foi totalmente destruída. O que sobrou foi comprometido. Entre os destroços, um bilhete azul com uma tremida letra infantil: 

“Obrigado João, mas outros resolveram nos ajudar. Até.” 

Semanas depois, o trator tomou posição para demolir o que sobrara da casa.























Fotos e Edição: João Cândido Martins

Sem comentários:

Publicar um comentário