sexta-feira, 5 de junho de 2020

ELE
João Cândido Martins

1
Chego à mansão de Pedro exatamente às 10 da manhã. Ele lê jornais à beira da piscina. Cumprimentamo-nos com efusão, pois há muito não nos víamos. Deposito as duas pastas que carrego sobre a mesa. Ele as abre e se depara com o milhão de dólares em dinheiro que fora prometido antes da missão. Digo a ele que me pediram para lhe informar sobre outra missão.

“Não quero viajar no tempo de novo”, diz ele.

“Vai ser uma coisa mais simples. Século XX, 1972, aqui no Brasil mesmo, em Curitiba.”

“Curitiba? nasci lá", comentou Pedro acendendo um cigarro. Ele me olhou e disse: "O cara que inventou a máquina do tempo não previu que o viajante seria tomado por todo tipo de enjoos e sensações de mal-estar. Realmente não quero mais fazer isso.”

“A Companhia está se dispondo a pagar 3 milhões por essa, mas tem de ser você. Você é o melhor. Já roubou coisas dificílimas em diversas épocas.”

“Inclusive o maior diamante do mundo”, disse Pedro.

“Sim, todos sabemos disso e reconhecemos seu esforço. Por isso tem de ser você.”

“O que houve de especial em Curitiba em 1972?”

“Uma exposição de joias no Museu Paranaense. Entre elas, algumas peças da coleção de diamantes do Império Britânico.”

“Se era dos ingleses a segurança deve ter sido reforçada.”

“Foi. Só você dá conta desse serviço. Encare como um desafio.”

“Não sei... Juntei bastante dinheiro nos últimos anos, realmente não estou precisando desesperadamente viajar no tempo de novo.”

“Faça por mim", disse eu. "Lembre que fui seu preceptor quando a Companhia te tirou do orfanato. Graças à ela, você aprendeu tudo para ser o que é hoje. Tudo que você tem, deve a ela.”

“Eu não nego” disse Pedro, “mas já roubei tantas coisas pra Companhia durante todos esses anos que considero minha dívida paga.”

“Faça por mim. É a primeira e última vez que te peço alguma coisa”, insisti.

Ele ponderou em silêncio por alguns instantes até que concordou.


2
Os planos não deram certo. Pedro invadiu sorrateiramente o local e tinha os equipamentos necessários para burlar a tecnologia de segurança de 1972, mas foi visto e houve uma troca de tiros. Ele conseguiu escapar e só lhe restou hospedar-se num hotel e esperar uma nova oportunidade de entrar no Museu, já sabendo que a segurança seria redobrada. Os dias se passaram e ele estudava a melhor forma de realizar o furto sem que fosse necessário machucar ou mesmo matar alguém. 

Um dia antes de entrar novamente no Museu, foi a um bar de jovens. Tomava cerveja sentado junto ao balcão, quando percebeu que estava sendo observado por uma garota. Aproximaram-se. Seu nome era Luana. Tinha 22 anos, estudava sociologia na Universidade Federal e trabalhava como professora infantil. Ele inventou que era um advogado em férias por Curitiba. 

Depois de fazerem sexo, ela lhe contou sobre seu ódio contra o governo. Seu pai havia desaparecido nas mãos da polícia e ela resolveu devotar-se à causa dos mais humildes. Pedro passou toda sua vida furtando objetos, nunca teve tempo para se aprofundar em questões sociais. Mas Luana era uma engajada e ele, apaixonado, passou a segui-la por acampamentos de famílias sem-terra (cujo movimento só seria oficializado mais de 10 anos depois).

Foram dias tranquilos para Pedro. Sempre que viajava no tempo, levava consigo algumas joias para o caso de algo dar errado. Então ele tinha dinheiro suficiente para ficar com Luana por um bom tempo. Ele chegou a se esquecer do real motivo que o levara até aquela época. Esqueceu de tudo. Só pensava em Luana, em como iria revelar a ela que na verdade ele era oriundo do futuro. “Será que ela concordaria em ir para o futuro comigo?”, indagava-se ele. 

Um dia, ao se aproximarem de um acampamento na região sul de Curitiba, foram abordados pela polícia. Pedro mostrou a eles os documentos falsos que trouxera do futuro e um dos policiais achou algo estranho. Passou a xingá-lo. O viajante do tempo tentou argumentar e já calculava mentalmente como iria imobilizar os policiais, quando foi atingido por uma coronhada na parte de trás da cabeça e caiu desacordado.

Os policiais tiraram suas roupas e a máquina do tempo estava na parte de trás da fivela, portanto, não havia como ele fugir. Foi encarcerado num cubículo apinhado de gente. Diariamente era retirado da cela e, durante algumas horas, passava por excruciantes sessões de tortura. Eles queriam saber quem ele era, o que estava fazendo no acampamento e quem era a moça que estava com ele. Não dizia nada. A Companhia o treinou para resistir à tortura. Mas aqueles caras estavam quase atingindo o limite de Pedro. Depois de muitos meses, descobriu que estava em 1976, ou seja, estava há três anos naquele presente. Como estaria Luana?


3
“Você tem visita”, disse um policial certo dia. Curiosamente Pedro estava a sós na cela

A única pessoa que poderia visitá-lo naquele lugar e naquele tempo seria Luana. Era a única explicação. Mas quem entrou pela porta da cela fui eu, o supervisor geral da Companhia. Ficamos nos olhando em silêncio por alguns segundos até que ele perguntou:

“Pode me tirar daqui?” 

“Bem”, disse eu, “para o futuro você não pode mais voltar. A Companhia tirou você da lista de empregados-associados. Acho que eles não gostaram de você ter falhado na missão. Eles me enviaram até aqui pra dizer que seu castigo vai ser viver como criminoso político numa ditadura.”

Indignado, ele retorquiu: 

“Mas eu não sou um criminoso político!” 

“Pedro, a partir do momento em que você frequenta uma invasão de propriedade privada, inclusive levando mantimentos e roupas pros invasores, a situação fica complicada. Ainda mais nesse período de direita que o Brasil vive agora. Que confusão você foi se envolver, rapaz...” 

Eu estava realmente bravo, como um pai decepcionado. Praticamente vi aquele rapaz crescer. Ele me interrompeu com a pergunta: 

“Você tem alguma notícia da mulher que estava comigo, Luana?” 

Limpando as lentes dos óculos com a gravata, respondi: 

“Lamento te dizer, mas ela morreu de pneumonia alguns meses depois da prisão. Parece que apanhou muito.”

A notícia o atingiu como uma faca. Percebendo seu olhar desolado, lhe passei uma fotografia. 

“O que é isso?”, ele perguntou. “Quem é esse menino?” 

“É o filho que vocês tiveram. Luana morreu um mês depois que ele nasceu. O menino está com três anos.”

“Eu tenho um filho... isso é incrível. Eu quero conhecê-lo, você pode providenciar isso, pelo menos?” 

“Poder até posso, mas não acho aconselhável.” Aproximei-me da porta de saída da cela. 

“Por que não? Por que não quer que eu veja meu filho? Qual o problema?” 

“Qual o problema?" perguntei. "O problema é que ele, o seu filho, é você”, respondi fechando a porta atrás de mim.



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