quarta-feira, 3 de junho de 2020

CWB FIGHT CLUB
João Cândido Martins  

"Everywhere I hear the sound of marching feet, boy / Cause summer's here and the time is right for fighting in the street, boy" (Rolling Stones, 1969)

Quarta-feira, 12 de março de 2003
07:00

Acordo com uma vaga indisposição, mas mesmo assim acendo um cigarro e observo a luz da manhã insinuar o calor opressivo do resto do dia. Contrariado, lembro que me prontifiquei a ajudar o vizinho, um senhor de sessenta e tantos anos a remover sua antiga geladeira, recentemente substituída por outra de design espalhafatoso. 

Durante a operação, corto meu braço. Não é nada grave, apenas um arranhão, mas a marca fica bastante visível. O dia transcorre sem maiores incidentes e, no final da tarde, levo meu carro pra lavar em um posto de gasolina do São Braz, como sempre faço uma ou duas vezes por mês. Normalmente aguardo lendo alguma coisa ou conversando com o dono do lava-rápido, que me conta como era o Brasil na época de Getúlio Vargas. Naquele dia, ele não está e como não tenho nada para ler, permaneço encostado em uma árvore fumando. Um dos funcionários do lava-rápido se aproxima e me pede o isqueiro. O sujeito tem as mãos calejadas – característica comum dos trabalhadores braçais – mas, além disso, seu rosto é marcado por hematomas e cortes. Permanecemos em silêncio alguns instantes até que ele me pergunta como fiz o tal corte no braço. Eu podia contar a história da geladeira e dar o assunto por encerrado, mas meu dia foi tão monótono que resolvo inventar que o corte aconteceu numa briga. Ele me encara sério e ouve atento os detalhes do meu relato. Quando concluo a mentira, ele dá risada e diz que todos os seus cortes e hematomas foram conseguidos em brigas também.

Ele me pergunta se gosto de brigar. Dessa vez eu dou risada, porque, em verdade, a última vez que me envolvi num conflito físico tinha dezesseis anos. Mas para não contradizer a história que contei anteriormente, digo que quando é o caso, a briga é a única forma de solucionar um problema. Ele então sugere:

"Sábado à tarde vá ao encontro de Mavericks no Parque Barigüi. Eu vou estar lá, quero te apresentar uma pessoa".


Sábado, 15 de março de 2003
18:00

O Maverick foi o Mustang brasileiro na década de 70. Um pouco mais encorpado que o Mustang americano, sua potência era medida pelo número cilindros. Os mais possantes variavam entre 6 e 8 mas já cheguei a ver Mavericks com 10 e até 12 cilindros. Imagine-se um trator que alcançasse mais de 150 Km/h: esse era o Maverick. Honestamente, eu nem lembrava do convite feito pelo rapaz do lava-rápido, mas voltando pra casa ali pelas seis da tarde, lá estavam os Mavericks enfileirados e seus donos conversando. Estaciono nas proximidades. Como quem não quer nada, acendo um cigarro e me aproximo. Alguns carros são verdadeiras preciosidades postas à venda por não menos que dez mil reais. Curiosamente as pessoas se vestem mais ou menos como nos anos 70. 

"Ei, você veio". É o rapaz do lava-rápido que se apresenta como Sérgio. Rapidamente ele me conduz ao encontro de Rui, proprietário de um Maverick GT V8, um mastodonte de uma tonelada e meia, cuja robustez talvez só fosse comparável à do próprio dono. 

O sujeito devia ter uns dois metros e uns 150 quilos. Tinha uma voz aguda de menina virgem, mas suava como um porco. 

"E então, João... o que achou da minha máquina?", pergunta ele.

"É uma beleza".

"Quer dirigir um pouco?"

Hesitei por alguns segundos. Por que aquele cara estaria me oferecendo uma volta no seu Maverick valiosíssimo? Eu disse que não tinha a intenção de comprar seu carro e ele logo retorquiu:

"Eu sei, não quero vender. Pode ir, eu confio em você. Conheço uma pessoa pelos olhos. Dê uma volta sossegado pelo parque, pode até pegar um pouco a estrada, se quiser. A gente te espera aqui".

Bom, há certas coisas na vida que não acontecem duas vezes. Entrei no Maverick, dei a partida e fui com cautela. Atravessei o parque e entrei na Rodovia do Café. Arrisquei 100 Km mas percebi que teria dificuldades pra controlar um carro daquele tamanho naquela velocidade. Retornei e os dois conversavam descontraídos. Rui sorria. Trocamos mais uma ideia. Ele me contou algumas características do automóvel e, quando eu já estava indo embora, ele perguntou sem maiores rodeios:

"Você assistiu o filme Clube da Luta?" 

Interlúdio Explicativo

Ao ser lançado no Brasil, o filme Clube da Luta (Fight Club) gerou polêmica. Mesclando elementos do zen-budismo com a cultura das brigas de rua, aparentemente o filme veio ao encontro de anseios guardados no íntimo de uma geração sufocada pela demanda sócio-econômica de produzir e consumir no contexto das sociedades pós-industriais. Verdadeiro marco do cinema existencialista americano dos anos 90, o filme se tornou particularmente polêmico no Brasil, pois um estudante de Medicina invadiu o cinema de um shopping com uma metralhadora e matou várias pessoas que o assistiam. 

Independente desse fato, O Clube da Luta atingiu em cheio o inconsciente coletivo. Este é o fenômeno visto em sua super-estrutura. Na infra-estrutura, ou seja, no submundo, o filme provocou o surgimento de inúmeros clubes da luta clandestinos espalhados pelas periferias das grandes capitais do Brasil. Curitiba não foi exceção e eu estava prestes a conhecer um desses grupos.


Sábado, 22 de março de 2003
23:00

Rui dirige com segurança. Apesar dos bancos de couro do Maverick, permite que eu fume no interior do carro. Sérgio, o rapaz do lava-rápido está sentado no banco de trás. Estamos em silêncio mas o rádio está sintonizado numa rádio rock. Lá pelas tantas, ele entra em uma estrada de terra, num trajeto que dura aproximadamente vinte minutos. Rui e Sérgio estão nitidamente empolgados. Eu, tenso e curioso. Meu celular toca: é um colega de faculdade me convidando pra tomar uma cerveja. Invento uma desculpa e desligo o celular a pedido de Rui.

Por fim, chegamos a uma espécie de chácara. Há vários carros e motos estacionados em torno de um galpão de enorme. O lugar lembra, guardadas as proporções, aqueles gigantescos hangares construídos para abrigar zepelins. Vozes entrecortadas silenciam quando entramos. Rui e Sérgio cumprimentam as pessoas e eu apenas sorrio, tentando aparentar tranqüilidade. 

Mais ou menos cinqüenta homens aguardam um certo Rodolfo, o líder desse grupo. Digo a Rui que preciso ir ao banheiro e ele me indica uma porta lateral próxima à saída. Dentro do cubículo infecto, ouço a última coisa que poderia imaginar ouvir num lugar como esse. É a voz de uma menina cantando. Saio do banheiro e ando em direção à voz. Sentada num sofá imundo e totalmente rasgado está uma moça de aproximadamente 17, 18 anos que pára de cantar ao me ver. Ela sorri e pergunta:

"Ele já chegou?"

Surpreso, respondo: "Quem?"

"Rodolfo..."

Nesse instante, Rui aparece e diz que o tal Rodolfo acabou de chegar. Caminhamos em direção aos demais lutadores. Ele me explica que a menina se chama Luisa. É irmã de Rodolfo. Ela participa dos encontros como vigia, caso a polícia apareça. Lembro que o Código Penal prevê o crime de “rixa”, isto é, o evento onde mais de duas pessoas provocam lesões corporais mútuas.

Rodolfo não se destaca pelo físico avantajado, mas o sujeito tem muito carisma entre os integrantes do grupo. Inicia um discurso muito parecido com o proferido por Tyler Durden no filme, mas sem a mesma consistência e embasamento filosófico, pois seu vocabulário e coerência são limitados. Essa breve introdução não dura mais que cinco minutos, mas o final me surpreende, pois antes de começarem as lutas, todos rezam um pai nosso.

Os dois primeiros contendores se engalfinham com fúria. Aparentemente estavam ansiosos por aquele momento. Desnecessário dizer que as regras da luta correspondem às do filme, mas existe um enorme abismo entre assistir um filme sentado confortavelmente na poltrona da sua casa e presenciar uma luta "in loco", sabendo que provavelmente será intimado a participar. Eu estava consciente que isso ia acontecer, mas aquela era uma experiência que eu não podia me furtar. Eu tinha 30 anos, estava puto e precisava descarregar minha energia em alguma coisa, ou em alguém. Além disso, queria transformar a experiência numa matéria jornalística na linha Gonzo. 

Olhei para os caras que compunham o círculo. Eu seria facilmente espancado por qualquer um deles, até porque brigar é algo que não faz parte da minha realidade. Mal sei desferir socos num saco de areia parado, que dirá em alguém. Um dos sujeitos me encara sério. Eu o reconheço: trata-se do funcionário de uma padaria do São Braz, com quem tive uma insignificante discussão sobre o valor de um troco. Um pouco maior do que eu, ele me olha e seus punhos estão fechados. 

As lutas se sucedem. Todas terminam com os envolvidos sangrando, mas rindo e conversando supostamente de forma amigável (como no filme). Quase uma hora e meia depois, o tal Rodolfo se posta no meio do círculo e diz que é chegado o momento dos iniciantes. Sinto um calafrio e, sem querer olho pro tal sujeito, funcionário da padaria. Nossos olhos se cruzam e ele ri. Começo a imaginar a reação das pessoas na faculdade ao me virem sem os dentes da frente. Mas a luta não seria com ele.

Os estreantes somos dois: eu e um rapaz de aproximadamente 20 anos. Percebo que ele está tão aflito quanto eu, com a diferença que consigo disfarçar melhor. Somos postos um em frente ao outro. Minha mente está confusa, não consigo me concentrar. Sou apresentado ao rapaz que me cumprimenta com força. Provavelmente não está disposto a sofrer a vergonha de apanhar de alguém mais baixo e gordo que ele. Questiono o que estou fazendo naquele lugar com aquelas pessoas, mas agora é tarde. Tento pensar em algo que me enfureça. A luta começa e estudamos um ao outro à distância. Ele tenta um soco, mas de forma inacreditável consigo me desviar e ainda lhe acerto um chute na barriga. Ele se recupera fácil e só me dou conta do contra-golpe quando meu rosto explode. O cara me acertou e agora estou no chão. Ele se joga em cima de mim, mas consigo me esquivar, o que não impede que ele me acerte mais um soco. 

Minhas tentativas de acertá-lo são frustradas porque seus braços são mais longos e ele consegue estabelecer uma distância. Além disso, sou fumante e isso retira quase toda a minha resistência. Passo a mão no rosto e percebo que estou sangrando. O último soco fez minha cabeça balançar. Em torno, as pessoas urram e entendo o que os gladiadores sentiam no picadeiro do Coliseu. Levanto-me cambaleante. Rodolfo se aproxima e pergunta se quero parar. Digo que não e quando estamos prestes a reiniciar a luta, Luísa, irmã de Rodolfo, abre a porta dizendo que a polícia está se aproximando. Todos correm. Rui e Sérgio me puxam em direção ao carro, mas minhas pernas não funcionam. Sérgio diz no meu ouvido: "mandou bem". As sirenes são audíveis e as luzes avermelham as árvores que rodeiam o galpão.

Na confusão, me perco dos caras. Percebo o tamanho da enrascada em que me envolvi e paro, já imaginando pra qual advogado vou conseguir ligar àquela hora. Alguém me puxa pelo braço e percebo que é Luísa. Atrás do galpão há uma torre de uns quinze metros, dessas que retransmitem sinais de telefone celular. 

Apesar do meu estado, consigo subir com ela até uma certa altura e, de lá, avistamos as pessoas serem colocadas em vários camburões. Inacreditavelmente, ninguém pensou em olhar para cima e lá permanecemos. Ela tem uma mochila com álcool e algum material de primeiros-socorros. Permanecemos no alto da torre até algum tempo depois de os policiais irem embora. Ela conta que seu irmão já foi preso várias vezes, mas segundo ela, o amor à luta “está no sangue”. Aceito a carona que ela me oferece. Ao chegar em casa, tomo um banho demorado e desmaio na cama. 


Domingo, 23 de março de 2003
13:47

Um sonho confuso é interrompido pelo som do telefone. Minha cabeça está zunindo. Sento na cama, esfrego meu rosto com as duas mãos e bocejo. Acendo um cigarro e atendo o telefone lá pelo sexto toque.

"Alô".

"João, é a Bruna".

"E aí? Tudo bem?"

"Tudo legal... Seguinte: você pode me passar o nome dos fotógrafos que o professor André falou pra pesquisar?"

"Já te passo. Eu vejo aqui e te ligo daqui a pouco. ‘Tô acordando..."

"Claro, João... Tudo bem com você? ‘Tá com uma voz estranha..." 

"Tudo bem", respondo sentindo um dos meus dentes laterais amolecido. 


JCM - Curitiba, 28 de abril de 2003

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Rolling Stones - 1969 - "Street Fighting Man"
https://www.youtube.com/watch?v=hU8o6usr_oU


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Foto 1: Mirror
Foto 2: Pinterest
Foto 3: Pinterest - Brad Pitt (Tyler Durden) e Helena Bonham Carter (Marla) em Clube da Luta (1999)
Foto 4: Eu no bairro São Bráz, em 2003. Ao fundo a Universidade Tuiuti do Paraná (UTP)
























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