domingo, 14 de junho de 2020

AQUILO (ou o carnaval da carne de lagarto)
João Cândido Martins


1
Carnaval de 2002, Praia de Leste, Pontal do Paraná. O calor era extremo e se fazia presente ao longo do dia e noite adentro. Era impossível pisar descalço nas calçadas sob o sol e, mesmo à sombra, a sensação de mormaço era entorpecente. Milhares de pessoas e carros transitavam sem parar nas vias da pequena cidade. Eu estava em companhia da minha amiga Stella e de seu namorado. Ia completar 29 anos em algumas semanas e há meses andava sozinho por aí. Meu pai havia falecido em setembro do ano anterior e, só naquele momento, passados vários meses, eu conseguia dirigir o carro com o rádio ligado. Passei todo esse tempo dirigindo em silêncio. Aos poucos, voltava à normalidade e escutava eventualmente alguma coisa, nem que fosse um noticiário. O convite para passar o carnaval na Praia de Leste feito por Stella veio no momento certo.

A casa era de um tio de Stella. Curiosamente, era construída com o mesmo ferro utilizado na fabricação de navios. A residência era agradável e espaçosa, mas um verdadeiro forno. Dezenas de ventiladores se espalhavam por todos os ambientes, principalmente nos quartos. Eu optei por me instalar no cômodo que ficava acima da churrasqueira nos fundos do terreno. Era um lugar amplo e bem ventilado. Além disso, ali eu não incomodaria o casal, que se alojou num dos quartos da casa. 

Ambos estavam dentro daquela bolha semi-transparente que envolve os namorados. Pareciam distantes e, ao mesmo tempo, em harmonia com tudo. Apesar disso, na primeira noite, comemos carne, tomamos vinho e conversamos um pouco sobre assuntos diversos, antes de nos retirarmos trôpegos e satisfeitos para nossos respectivos quartos. Eles pareciam felizes e eu estava longe de me sentir insatisfeito, mas a verdade é que meus propósitos naquela praia iam além de conversas descontraídas e aventuras etílicas. 

Cheguei no quarto, abri as janelas e liguei os ventiladores. Só assim conseguiria dormir. Lembro que deitei, me cobri com o lençol e tomei uma posição para dormir, tendo apagado imediatamente. Sonhei que estava assistindo um filme erótico com sons de gemidos e de uma cama de madeira rangendo até seu limite. Acordei e fiquei de olhos abertos no escuro, mas os sons que eu ouvia em sonho continuavam. Era minha amiga e seu namorado. Apesar de estarem distantes e de haver várias barreiras se interpondo entre nós, os ruídos produzidos por eles chegavam a mim. Devo ter dormido novamente na sequência. Acordei umas seis ou sete horas depois com o braço esquerdo dormente, pois passei todo esse tempo deitado na mesma posição.


2
Na noite de domingo pra segunda, saímos os três na direção oposta às grandes aglomerações. Difícil precisar quantas pessoas transitavam pela orla da Praia de Leste naquela madrugada. Milhares, literalmente. Lá pelas tantas, o casal decidiu permanecer num determinado bar e eu me embrenhei por algumas ruas escuras, mas não menos movimentadas. Parei em uma lanchonete de madeira com uma velha jukebox dos anos 60 ao lado da porta de entrada. Das caixas de som do aparelho saíam as notas iniciais de "Here Comes Your Man", da banda Pixies. Por alguma razão, achei que era a trilha sonora ideal para aquele instante. Sentei e pedi um cheese egg. A música encerrou e tocou mais uma vez. Na terceira ou quarta repetição, percebi que a jukebox tocaria aquela música a noite toda. Por mim tudo bem, eu poderia ouvi-la infinitas vezes. 

Depois de comer, fiquei um tempo andando a esmo, até que cheguei a um cruzamento onde havia um bar em cada esquina, mas a concentração de pessoas se dava em torno de um grupo de samba que tocava no meio da rua. Postei-me junto aos espectadores, acendi um cigarro, e não demorou para que meus olhos cruzassem os de uma garota que estava a alguns metros de distância. Pressupus, de forma acertada, ser uma moradora local. Seus cabelos negros e lisos envolviam um rosto levemente ovalado. Os olhos castanho-claros me encararam e os lábios se contraíram a um breve contato da língua, como se ela houvesse passado um batom imaginário. 

A menina me lembrava um pouco a imagem de uma mulher fotografada para um cartão-postal francês de 1890, que eu tinha visto uns tempos antes. Sorriu maliciosa exibindo uma fileira de dentes branquíssimos e comentou algo com uma amiga. A multidão em torno do grupo de dança ganhou volume o que dificultou os movimentos. Mesmo assim fui me aproximando dela lentamente até que nossos corpos se encostaram.

A menina não disse nada e ficamos alguns minutos nos conhecendo num roçar recíproco e discreto. É incrível o que pode acontecer a um casal apertado em meio a um monte de gente, entretanto fomos interrompidos por uma briga em um dos bares. Percebi que poderia perdê-la em meio à confusão que se instaurou, mas corremos juntos para fora do tumulto e andamos algumas quadras trocando breves palavras até que chegamos a um ponto isolado e escuro da praia. De lá, era possível ouvir um vago murmúrio ao longe, que distingui ser a música "I've Just Seen A Face", dos Beatles. Nada podia ser melhor.


3
Em algum ponto da madrugada, ela me convidou pra ir à sua casa. Nascera e fora criada ali, à beira do mar. Seu nome era Vânia. Disse que naquele dia, à tarde, seu irmão havia caçado e assado um lagarto gigantesco em comparação aos lagartos que habitavam a região. Segundo ela, algo digno de ser visto. Eu nunca havia comido um lagarto, ou melhor, até então eu jamais experimentara qualquer espécie de réptil, mas estava morrendo de fome e, oras, era carnaval. Aceitei o convite e novamente percorremos um labirinto de ruas parecidas entre si. Apesar do horário avançado, ainda havia muita gente transitando, cantando, bebendo e etc, mas nosso trajeto foi tranqüilo.

Eu estava gostando da sua companhia. Vânia falava pouco, mas me desarmava com o olhar. A tonalidade da pele denunciava o contato diário com o sol litorâneo e os seus pés pequenos conheciam cada grão de areia daquele local. Eu beijava suas costas só pra perceber o arrepio percorrendo seu corpo pequeno. Andamos nesse ritmo por uns quinze minutos até que chegamos.

Seu irmão deixou um bilhete dizendo que fora com alguns amigos para Paranaguá, e que só voltaria depois do feriado. Tínhamos a casa inteira para nós e ainda havia alguns pedaços da tal carne de lagarto. Imediatamente ela acendeu o fogo e ficamos num sofá, nos tocando. Vânia então me falou vagamente sobre sua vida, suas aspirações, desejos, sonhos, ardores, medos e gozos. Eu, por outro lado, não me sentia muito inclinado a falar sobre mim. Não porque desconfiasse dela, ao contrário. Apenas queria ficar em silêncio, acariciando seu corpo.

A carne ficou pronta e o cheiro era convidativo. Sentamos à mesa e comemos com indisfarçável fúria. Aquilo era delicioso. Eu e ela comemos vários pedaços até que ficamos satisfeitos. Tínhamos apenas cinco cigarros. Acendemos um e ficamos soltando baforadas em direção ao teto, tentando imaginar quais formas a fumaça assumiria. Fiquei inventando nomes de plantas e de animais só pra ouvir sua risadinha. Momentos depois eu estava mordendo sua coxa quando aconteceu um blecaute e a multidão gritou ao longe.

A luz da lua cheia invadia a sala repentinamente escurecida, dando uma coloração prateada a cantos insuspeitos. Estirei meu corpo ao lado de Vânia e nos encaixamos. Repentinamente, fui tomado por uma incandescência demencial. Vânia também desvairou e por um longo período nos transformamos numa labareda. Houve momentos em que me senti como um mecanismo, uma máquina movida por uma energia cuja intermitência faria supor o tal moto perpétuo, o movimento definido pelos antigos como infindo. Eu nunca tinha feito aquilo daquela forma, mas a contundência como tudo aconteceu me deixou extasiado. Uma sensação de umidade elétrica nos vinculava, cúmplices. Quando tudo terminou, permanecemos conectados um ao outro e nos encarando por vários minutos até que nossas respirações normalizaram e nos separamos. Ela fechou os olhos, exausta, e dormiu. Pensei em fumar um cigarro, mas meus olhos pesavam e também adormeci.


4
Ao acordar, demorei alguns instantes para lembrar onde estava. Vânia ainda dormia. Os raios de sol filtrados pela cortina ganhavam tons de um amarelo ouro que incidiam de forma diagonal sobre seu rosto, desenhando um complexo mosaico. Seu sono era tranqüilo. Acendi um cigarro e fiquei contemplando-a por alguns segundos. Pensei em acordá-la pra fazer aquilo de novo, mas me contive. Só tínhamos mais um cigarro. Resolvi sair pra comprar mais e voltar antes que ela acordasse.

As ruas estavam vazias. Comecei a pensar sobre o que havia acontecido. Confesso que nunca antes eu tivera uma experiência sexual tão intensa, mas aquela fulgor não passava de um detalhe circunstancial. O que realmente me deixou perplexo, foi a sensação de estranhamento físico e mental que permeou todo o ato e que ressurgia agora, em lapsos vertiginosos.

Eu sentia câimbras por todo o corpo. Minhas sandálias havaiana estavam me incomodando e as tirei, ficando descalço. O cheiro do sexo de Vânia vinha à minha memória e eu lembrava a pressão dos seus dentes em meu ombro. Uma ou duas quadras depois, um jipe do exército parou ao meu lado. Três soldados desceram, vieram em minha direção e pediram pra ver meus documentos. Depois, me conduziram até o veículo. Perguntei o que estava acontecendo, mas eles não disseram nada. Levaram-me ao que parecia ser uma espécie de quartel-general improvisado na praia. Onde antes as pessoas dançavam e jogavam frescobol, havia dúzias de soldados, jipes, caminhões e até um carro blindado. 


Fui algemado ao volante do jipe durante uma meia hora sem entender nada do que estava acontecendo, até que um militar se aproximou. Pensei em perguntar-lhe se havia acontecido algum golpe de estado e, se fosse o caso, por que invadir uma pequena praia do litoral do Paraná, mas apenas respondi algumas perguntas genéricas que ele me dirigiu e, em poucos minutos fui levado até a casa de ferro do tio de Stella.

Quando cheguei, ela e o seu namorado estavam em sobressalto. Imaginei que estariam preocupados com meu paradeiro e iriam perguntar onde eu estivera durante a noite. Mas antes que eu falasse qualquer coisa, eles se adiantaram relatando que no dia anterior, um objeto voador não identificado (OVNI) fora avistado na região e esse mesmo ovni teria caído num mato próximo à estrada. Os boatos que circularam falavam em dois alienígenas de aspecto reptiliano, sendo que um deles teria sido capturado, e outro evadido mata adentro. Os militares estariam no encalço deste último, mas até o momento não teriam rastro do seu paradeiro. 

Passei o resto do dia vomitando.


Pixies - Here Comes Your Man

Beatles - I've Just Seen A Face











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