segunda-feira, 8 de junho de 2020

A INSTRUMENTALIDADE DAS FORMAS
João Cândido Martins

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Meu nome é Gabriel Matos Arcanjo. Sou advogado. Na faculdade, havia essa moça, Vanessa, que sempre me chamou muito a atenção. Cursávamos algumas disciplinas juntos. Rapidamente me fiz amigo dela. Disse-lhe que a palavra Vanessa era uma invenção do escritor Jonathan Swift, autor de "Gulliver". Ela ficou impressionada, nunca ninguém havia lhe falado isso antes. Mas toda essa amizade se mostrou um equívoco, pois ela acabou me tratando como um confidente. Na mesma época, um colega de nome Gilson também se aproximou de Vanessa. Ele era da mesma idade que eu, mas tinha muito mais dinheiro, trabalhava num escritório mais importante e, verdade seja dita, era mais bonito que eu. 

Continuei minha relação com Vanessa como se nada estivesse acontecendo, talvez com a esperança de que ainda pudesse ter alguma chance, mas não tardou para que ela me contasse que havia “ficado” com Gilson. Isso não significava que ela tivesse feito sexo com o colega, mas já era um indicativo de que iria acontecer. A partir do momento em que ela me revelava tal confidência, já era possível prever que eu jamais teria alguma chance com ela. Agora só me cabia a resignação. Ou não. Aproximei-me de Gilson, cujo namoro com Vanessa a essa altura já era público. Foi fácil me tornar seu amigo porque não havia dificuldade nenhuma em aprender seus hábitos e gostos.

Um dia, fui a uma festa de despedida de solteiro numa boate que ficava no começo da Rua Cruz Machado, no centro de Curitiba. Era a festa de um colega de trabalho que estudava em outra faculdade. Não havia nenhum colega da minha faculdade presente, o que me proporcionou guardar segredo sobre o que acabei vendo nessa boate. De início, eu estava mais concentrado em comer as porções de batatas fritas pagas pelo noivo, do que em ver ou conversar com as prostitutas que circulavam pelo ambiente, mas em certo momento surgiu uma mulher que à distancia me pareceu familiar. Olhei com atenção e, por um breve instante, achei que fosse Vanessa. 

Mas não era Vanessa. Aproximei-me e ofereci uma bebida. Ela agradeceu e disse que seu nome era Paloma. Possuía um rosto igual ao de Vanessa. Sua altura, seu corpo, suas mãos... Com exceção dos cabelos, todo o resto era igual. A semelhança era tamanha que não seria exagero dizer que eu estava diante do que os alemães chamam de “doppelgänger”. Fiquei aturdido. Senti vontade de beijá-la, mas evitei. Pelo menos naquele momento inicial. 

Conversamos sobre outros assuntos até que ela contou sobre um problema jurídico. Na verdade, quando ela soube que eu era um estudante de direito, resolveu fazer uma breve consulta, uma pequena dúvida, algo insignificante. Muita gente faz isso. Ela havia sido citada num processo e compareceu à audiência, mas a outra parte estava alegando que ela não recebeu o documento de contrafé, o que tornaria a audiência inválida. Segurei sua mão e disse: 

“Eu posso resolver seu problema, confie em mim”. Dei a ela meu cartão: “Gabriel Matos Arcanjo”.



A solução era simples. Bastava invocar o princípio da “Instrumentalidade das Formas”, que prescreve que a não realização de algum dos requisitos do ato processual não invalida esse ato, caso ele seja levado a efeito. Ou seja, mesmo não tendo recebido o documento alegado pela parte contrária, Paloma foi à audiência. O fim do ato foi atingido. Portanto, não cabia se falar em invalidade. Foi o que propus no processo, a partir do momento em que convenci meu chefe a se tornar o representante legal de Paloma (esse era seu nome real, não uma alcunha profissional). 

Nos dias seguintes, a expressão “instrumentalidade das formas” ficou presa em meus pensamentos. Ela passeava em minha cabeça enquanto eu tocava o corpo de Paloma. Ao mesmo tempo, associava aquelas palavras também às minhas fantasias com Vanessa, e ficava horas imaginando como seria bom ter as duas ao mesmo tempo ou uma mescla das duas. Mas isso era impossível. Eu só poderia ter uma delas. 

Em paralelo a isso, apresentei Gilson à cocaína. Ele ficava realmente bastante eufórico com aquilo. Quando percebi que ele estava suficientemente viciado, o levei até a boate na Cruz Machado. Como previ, ao ver Paloma, Gilson ficou louco. Passou a frequentar a boate toda noite. Já não ia mais à faculdade nem ao trabalho. Vanessa estava desolada com o desaparecimento do namorado e, nessa hora, contou com minhas palavras reconfortantes. 

Gilson sumiu em definitivo (alguns comentavam, à boca pequena, que ele teria virado motorista de táxi para sustentar uma prostituta). Eu dizia não saber de nada e me declarava bastante surpreso com o comportamento estranho do amigo. “Vida que segue”, eu sentenciava. 

E, realmente a vida prosseguiu. Em seis meses eu namorava Vanessa. Gilson se tornou apenas uma imagem em algumas fotos de festas antigas. Assim que concluímos a faculdade, casamos, sendo que ela passou no concurso para a magistratura e eu consolidei minha carreira como advogado. 

Durante sete anos vivi o paraíso com Vanessa, até o dia em que fui procurado no escritório por Paloma, que havia pintado o cabelo e estava bem diferente. Se antes era idêntica a Vanessa, agora parecia uma versão envelhecida desta. Paloma reclamou de Gilson, disse que ele se tornara violento com o passar dos anos, que ainda usava cocaína em altas dosagens e que nos últimos tempos deu para sumir durante horas, dias. 

Ao ouvir isso, levei Paloma até a rua e prometi-lhe que iria tentar dar um jeito. Assim que ela se foi, entrei no meu carro e fui para casa. Chegando, me deparei com Vanessa e Gilson despidos, suados e resfolegando no sofá da sala. Da sala. Descarreguei minha pistola salpicando de vermelho o quadro na parede. Tudo bem. Eu comprei outro.




Imagem: "Roman ruins" (Wenceslas Hollar - Public Domain)
Edição: João Cândido Martins

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