terça-feira, 2 de junho de 2020

A DEUSA SERKET DE BRAÇOS ABERTOS
João Cândido Martins                                          


1
Era uma excursão religiosa para Aparecida do Norte, no interior de São Paulo. Acho que aconteceu em 1979 ou 80. Eu tinha sete anos. Estávamos eu, meus pais, minha tia, meu primo e meu avô. E também outros “romeiros” que queriam visitar a imagem da padroeira do Brasil. Eu já tinha frequentado missas lotadas, mas Aparecida foi um choque. Milhares de pessoas no entorno da imensa basílica e igualmente em seu interior. Se a intenção dos construtores da basílica era fazer com que as pessoas se sentissem pequenas diante da grandeza de Deus, eles conseguiram. Mas qualquer pessoa, com ou sem deus, se sentiria pequena ao lado daquela construção brutal. 

Visitamos a Torre Brasília, e observamos a cidade do mirante. Foi a primeira vez que subi a mais de 100 metros do chão. Outro local que me chamou a atenção foi uma espécie de museu que fica no subsolo da basílica. Lá estão expostos os ex-votos, isto é, os presentes dados pelos fiéis à santa em agradecimento por supostos milagres. Pés e mãos em gesso e madeira revelavam as curas que a santa teria promovido. Também constatei por toda a cidade um intenso comércio de bugigangas turísticas, os chamados “souvenirs”. Meus pais  compraram vários. Lembro nitidamente de um deles. Era um globo de plástico com água e purpurina em seu interior, semelhante ao que aparece no início do filme "Cidadão Kane", com a diferença de que no nosso globo não havia uma casa, mas a imagem da padroeira. E também uma pequena televisão de plástico vermelho, com slides de imagens de Aparecida.   

O evento que mais marcou minha passagem pela Basílica de Aparecida foi enfrentar uma fila descomunal para tocar no vidro onde estava a imagem da santa. Anos depois,uma pessoa com problemas mentais quebrou esse vidro e danificou a escultura, que passou a ser exposta fora do alcance dos romeiros. Mas em 1980, ela estava ali, e centenas de pessoas se aglomeravam para encostar no vidro que a protegia e fazer suas orações. Eu tinha sete anos e perguntei à minha mãe o propósito daquilo. Ela disse que eu poderia pedir alguma coisa. "Alguma coisa real, que não seja impossível”. Vendo que eu a olhava em dúvida, complementou: “Você pode pedir à santa algo para alguém que esteja precisando de ajuda”. 

Eu podia mesmo, mas resolvi que iria pedir algo para mim. Na minha inocência infantil, pedi os bonequinhos Playmobyl versão medieval, que eu havia visto numa loja, no centro de Curitiba. E, se desse, um Boneco Falcon Espião.   


2
Atravessamos uma grande passarela para chegar à parte antiga da cidade. Lá se encontrava a Basílica Velha, uma digna construção barroca. Para me acalmar, minha mãe me deu um pequeno violão de madeira, desses de brinquedo que nem tem como afinar. Foi com ele que eu martirizei os romeiros no ônibus durante a volta pra Curitiba, dois dias depois. Após o almoço, em que aprendi o que era um "bife a cavalo", meu avô se sentiu um pouco cansado e quis sentar num banco de praça. Eu e meu primo estávamos inquietos e queríamos passear pela cidade. Meu pai foi escalado para nos acompanhar. Seguimos por umas ruas sinuosas e, em alguns trechos, labirínticas.  

No meio de uma ladeira, nos deparamos com um local muito atrativo: um museu egípcio. Fomos informados de que o acervo era composto por réplicas de peças expostas em museus de todo o mundo. Parece que esse acervo foi transferido anos depois para o Museu Rosa Cruz, em Curitiba. Eu não sabia nada sobre egiptologia, a não ser algumas informações vagas sobre as pirâmides e a esfinge. Lembro de ter visto naquele museu a réplica da múmia do faraó Tutankhamon acompanhada por peças de uso pessoal. Lembro também da estatueta da divina adoradora Karomama, entre outras representações de divindades. O lugar estava repleto de estátuas e peças diversas. Alguns alto-falantes espalhados pelas salas tocavam músicas de filmes épicos como "Os Dez Mandamentos".

Perguntei ao monitor do museu sobre a pequena estatueta de braços abertos numa das vitrines. “É Serket, a deusa-escorpião. Ela recebe os mortos no outro mundo”. 

Meu primo perguntou: “Mas não é Deus quem faz isso?” 

O monitor sorriu e disse: “Existem vários deuses e deusas”. Olhei confuso para meu pai e ele concordou com a cabeça. Mas então, se isso era verdade, eu poderia fazer um pedido à deusa Serket. 

O que eu pediria a ela? Minha mãe havia dito sobre pedir algo para alguém. Tentei pensar em uma pessoa, mas não me ocorreu ninguém. Lembrei do meu gato, Tom, que aos 13 anos de idade, sofria as agruras do envelhecimento. Na verdade ele inicialmente foi do meu primo (que já tinha um cachorro de nome Vogue), mas o gato Tom parecia preferir minha casa, e meus pais concordaram que ele ficasse por lá. 

Eu me acostumei a dormir com ele sobre mim. Tínhamos uma verdadeira cumplicidade, entretanto, como eu disse, ele já estava cego de um olho, mancava, tinha dificuldades pra comer... seu organismo já não era o mesmo e isso se refletia em seu comportamento. Eu queria o antigo Tom, ágil, esperto, rápido. Mas ele deitava no chão acarpetado da sala e se deixava ficar lá por horas. Eu queria meu gato de volta. Resolvi rezar por ele. 


3
Quando retornamos ao hotel, esperei que todos dormissem e fui até o corredor. Era um prédio meio colonial com janelas estreitas e ovaladas na parte superior. Aproximei-me de uma delas, fechei os olhos e sussurrei: “Deusa Serket, ajude o Tom a melhorar dos problemas que ele tem. Você é uma deusa, transforme ele num gatinho bebê, pra eu poder brincar com ele de novo, ver ele crescer”. Abri os olhos e era possível apalpar o silêncio em torno de mim. Fui dormir.  

Voltamos à Curitiba. Tom, que na nossa ausência recebera os cuidados de minha tia Jesuína, continuava deitado no seu canto. Minha mãe disse que ele agora estava velhinho e tinha de respeitar o tempo dele de fazer as coisas. Fiquei frustrado, porque realmente acreditava que Serket teria poderes pra rejuvenescer o bicho. Todo dia eu acordava, ia lá, passava a mão nele, conversava com ele. O gato respondia a seu modo, dando a pata ou lambendo minha mão. Depois, eu ia brincar, fazer outras coisas. 

Assim se passaram meses, até o dia em que ele, de surpresa, apareceu no jardim. Parecia eufórico. Correu, brincou. Chegou a escalar, com muita dificuldade, uma árvore. Andou por sobre o muro e só não saltou pro telhado da casa, porque não tinha condições físicas pra executar esse esforço. Brincamos a tarde toda e, no final do dia, dormi abraçado com ele no chão da sala. Minha mãe me levou dormindo para o quarto. No dia seguinte, Tom não acordou. Chorei muito. Foi a primeira morte que senti de verdade. Imaginei que Serket ao menos o receberia com alguma dignidade no mundo dos mortos. 

Mas não tinha como saber se ela faria isso. Não tinha como saber sequer se ela de fato existia, e se em algum lugar se ergueriam os castelos desse hipotético mundo dos mortos. Eu estava cansado de ter de acreditar em coisas intangíveis por medo do que aconteceria, caso eu não acreditasse. Acho que foi meu primeiro confronto com dogmas. De tanto pensar nisso, nunca mais acreditei em deuses ou deusas.


 


 

 

 

  


 

 





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