quarta-feira, 17 de junho de 2020

A COLMEIA
João Cândido Martins

1
Em 2033, aos 60 anos, eu me permitia andar sem rumo por Curitiba, apenas observando. Planejava escrever um livro sobre as casas de madeira da cidade. E outro sobre o Teatro Paiol. Era um jornalista prestes a entrar na aposentadoria e acumulava planos e metas. Um dia, andando pelo Centro, tive a impressão de ter visto um colega da faculdade de jornalismo, mas ele estava com a mesma aparência da época em que estudamos juntos. Ignorei a coincidência e deixei para lá. Alguns dias depois, a uma quadra de distância da Praça Osório, avistei uma moça que foi minha colega de trabalho entre 98 e 2001. E ela também parecia não haver mudado nada. Estava acompanhada por um sujeito, mas tive certeza de que fui reconhecido, pois a ex-colega olhou de novo em minha direção, e quando nos encaramos, desviou os olhos meio sem jeito. Optei por não abordá-la.

Andando, às dez da noite numa quarta-feira chuvosa pela Praça Carlos Gomes, resolvi entrar naquele prédio na avenida Marechal Floriano onde havia um bar no 1º andar. Alguns poucos gatos pingados jogavam sinuca e, no fundo do salão, refestelado numa cadeira, Raul Filho, grande figura da crônica policial paranaense. Parecia uma personagem de cinema mudo. Atrás das lentes de um óculos antigo, seus olhos se contraíam enquanto sondavam o ambiente ao redor. Bebia cerveja preta e fumava charutos pequenos e de péssimo odor. Mas, de alguma forma, há anos tinha acesso de antemão a todas as novidades importantes no campo da política e também nas áreas policial e esportiva, de Curitiba.Perguntei-lhe se não havia nenhuma bomba prestes a explodir. O velho jornalista desconversou. Respondeu que não sabia de nada, porque nos últimos tempos, por causa da idade, só era incumbido de cobrir eventos oficiais e coisas protocolares em geral. Jogamos uma partida de sinuca, demos algumas risadas e, na saída, comentei com Raul que tinha avistado pessoas rejuvenescidas. Raul franziu o cenho e observou:

“Isso é coisa séria, João, melhor não se envolver”. 


“Pode confiar em mim, Raul, não sou jornalista policial como você, mas sei investigar uma informação", afirmei convicto.
 
Raul deu uma tragada no seu charuto e soltou uma fumaça espessa. Segurando meu braço, disse: “Eu não deveria te falar, mas se quiser saber alguma coisa sobre isso, procure pela Colmeia”. Achei aquilo meio vago, mas, em todo caso, nos despedimos com apreço.

2
Após algumas perguntas aqui e ali pelas imediações da Rua XV, cheguei a um nome que estaria ligado à Colmeia: Elton. Ao meio-dia, vi um jovem que se parecia muito com outro ex-colega de faculdade, Elton K. Chamei: “Elton!” O jovem se assustou, me viu e tentou fugir, mas o segurei pela manga da camisa. “Tá, tá”, disse ele. “Me larga, João, eu falo com você”.

Entramos num boteco nas proximidades da Biblioteca Pública. Era Elton mesmo. Quando eu o olhava, via o mesmo rapaz que conhecera trinta e poucos anos antes, parecia que estava viajando no tempo. Perguntei-lhe sobre a Colmeia. Elton tentou se esquivar do assunto, mas diante da minha insistência, acabou falando. A Colmeia, de acordo com ele, era um lugar onde qualquer um, em troca de mil reais, tinha direito a 24 horas de rejuvenescimento. Eles ofereciam a pessoas com mais idade, o vigor dos 20 anos durante um dia inteiro.

“Um monte de gente da nossa época já fez, você ia gostar, João”, afirmou Elton.

“E onde fica a Colmeia?”

“Você quer ir até lá?”

“Quero", respondi, "mas preciso antes passar em casa pra pegar o dinheiro, caso eu resolva ter vinte anos novamente, como você disse”.

"Eles só aceitam dinheiro", advertiu me ex-colega de faculdade.

Tomamos um táxi e descemos no bairro Mercês. Em poucos minutos, estávamos em umas ruelas que eu não conhecia. Elton nos guiou até um vasto terreno baldio e, após vários minutos andando por trilhas enlameadas, chegamos a uma parede com uma porta.

“Que lugar é esse?”, perguntei. 

Elton apertou um interfone, discretamente posicionado próximo ao chão. “É uma das entradas pros antigos túneis de Curitiba. Eles estavam abandonados. A Colmeia ocupou”. 

“Mas a gente tem de entrar lá?” 

“Sim", disse ele. "E andar por um túnel”.

Entramos. Elton tinha a senha e passamos por três vigias que guardavam a entrada. O rapaz me preveniu de que teríamos um caminho longo pela frente. E assim foi. Andamos alguns quilômetros passando por corredores amplos, outros estreitos, tubulações centenárias, salões com estátuas, adereços arquitetônicos típicos do século XIX e dos primeiros anos do século XX. Até mesmo gárgulas pendiam das alturas dos salões mais amplos. 


Conforme explicou Elton, o nome “Colmeia” se devia ao fato de que os salões principais, para onde estávamos nos dirigindo, eram hexágonos que, vistos de cima, lembravam a estrutura de uma colmeia. Elton ainda explicou que o método de rejuvenescimento estava contido numa infusão, num chá.

3
Quando chegamos, fomos recepcionados por uns tipos estranhos, alguns com paramentos religiosos. Aquele salão subterrâneo hexagonal ficava exatamente embaixo da Praça Tiradentes. Era o principal de um vasto conjunto que se interligava abaixo da superfície do centro de Curitiba. Eu não estava muito disposto a passar por um ritual ou coisa parecida. Até o intuito de transformar a experiência numa matéria jornalística havia se dissipado. Eu queria somente rejuvenescer o mais rápido possível, já que isso estava ao alcance de mil reais. E eu havia constatado de forma ocular nos últimos dias que aquilo seria possível, Elton era a prova disso, então a ideia de experimentar a saúde que se tem aos 20 anos se incutiu em meu ser. 

Elton conversou com os sujeitos e não houve necessidade de nenhum ritual místico. Algumas pessoas preferiam fazer, mas não era obrigatório. Simplesmente paguei o valor de mil reais e eles me entregaram o tal chá, que bebi num único gole. Para voltar à superfície, não era necessário andar todo o caminho de volta. Bastava entrar num elevador que levava até o porão de um prédio abandonado num dos cantos da Praça Tiradentes.

O elevador subiu até o porão do edifício e, quando a porta abriu, eu estava mais jovem. Eu me sentia mais jovem. Toquei meu braço com a força que já não tinha há anos. Percebi que minha memória e minha coordenação motora haviam voltado por completo. Eu estava mais jovem, mais leve, tinha fôlego, capturava os cheiros no ar, coisa que não fazia há anos por causa do cigarro... Eram seis da tarde e eu queria ver meu rosto. parei em frente a uma vitrine espelhada e ao invés de encontrar meu olhar devastado de 60 anos, me deparei com o olhar confiante que eu ostentava aos vinte anos. A sensação de liberdade, mesclada a uma consciência da minha própria energia física, me dominou por completo. Estava eufórico. Despedi-me de Elton e fui viver minhas 24 horas com vinte anos de idade.

4
Às seis horas da tarde do dia seguinte, acordei deitado na calçada em frente a uma loja na Praça Generoso Marques. Minha cabeça latejava e eu estava com uma garrafa de vinho Campo Largo na mão esquerda. Ajeitei meu corpo com alguma dificuldade e olhei minha mão novamente. Ela parecia continuar jovem. Apesar de terem passado as 24 horas combinadas, minha mão não havia voltado a ser a mão de um homem de 60 anos de idade. Procurei um espelho e confirmei: eu ainda estava com vinte anos. E se aquilo fosse irreversível? O que eu ia dizer para as pessoas que eu conhecia? 

Mantive a calma e andei até a entrada da Colmeia, no bairro Mercês. Demorei um bom tempo até conseguir refazer o caminho que no dia anterior percorrera com Elton. Os tais sujeitos com roupas religiosas poderiam resolver a situação. Era só dar mais dinheiro pra eles. Mas não foi o que aconteceu. Quando cheguei perto do local, pude avistar de longe que a entrada estava lacrada por aquelas fitas amarelas e pretas da polícia. 

Fiquei olhando atônito por alguns segundos quando a luz vermelha de um carro de polícia que estava estacionado nas proximidades acendeu desacompanhada de sirene e ficou piscando em silêncio. Discretamente me virei e continuei andando pela trilha no mato como se não tivesse nada a haver com aquilo. Consegui chegar à avenida Manuel Ribas sem ser abordado. Aturdido, retornei para o Centro. No bolso da minha jaqueta havia um maço de cigarros paraguaios, desses sem filtro. Tinha uns três. Acendi um sem pensar. 

Na metade da manhã do dia seguinte, consegui um quarto num hotel a uma quadra da rodoviária. Apesar do cheiro de mofo e dos gritos provenientes do quarto vizinho, adormeci ao meio dia de forma rápida e profunda, como costumam fazer os homens de 20 anos quando estão exaustos.   


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