domingo, 21 de junho de 2020

O BEIJO
João Cândido Martins


1
Ali por  1996 ou 97, tive de me confrontar na faculdade de Direito com a Teoria da Pena, assunto das aulas do professor K, um especialista com obras escritas sobre o tema. As pessoas que estavam na iminência de se formar diziam, "perto das provas do K no 5º período, o resto do curso é um passeio". Todo mundo dizia isso. Ele também tinha fama de ser um cara meio durão e inflexível na aplicação das notas. E de não fazer concessão nenhuma quanto à disciplina em sala. Já nas primeiras aulas deu pra perceber que não dava pra brincar com aquele cara. Ele falava caminhando entre as carteiras e confesso que quando ele passava ao meu lado, eu evitava encarar seus olhos azuis de coelho branco maligno. 

Tentei me envolver com o assunto, aprender aquilo, mas havia outras matérias que exigiam minha atenção e, em certo ponto do semestre, tive de faltar uma ou duas aulas de K e, depois disso, não consegui retomar a linha de raciocínio. Fiquei perdido, estava assistindo às aulas sem nem ter ideia do que ele falava. Aos poucos, com ajuda de alguns colegas, consegui me localizar, mas era tarde, pois quando veio a primeira prova, meu desempenho foi medíocre, acho que tirei um cinco, algo assim. Mas isso não era motivo pra ter vergonha: mais da metade da turma ficou abaixo da média e os colegas mais antigos diziam "ele sempre faz isso, mas fiquem tranquilos. Vocês vão ver a prova final desse cara. É de cometer harakiri". 

E nessa primeira prova houve também uma situação desagradável. o professor K flagrou a cola de um colega que escapava pelo vão da carteira. Ele puxou o papel e disse em tom incisivo: "os senhores são testemunhas. os senhores são testemunhas de que o aluno estava agindo de má-fé". Após questionar a presença do rapaz, que era meu amigo, na faculdade, disse que iria abrir o procedimento cabível naqueles casos. Pessoalmente acho que ele poderia ter lidado com a situação de uma forma menos dramática, mas era o jeito dele. Um dia, a trabalho, fui à Penitenciária de Piraquara. Fiquei fumando um cigarro num pequeno pátio enquanto aguardava ser atendido. Senti uma mão em meu ombro e me virei. Era o professor K. Acho que ele trabalhava lá à época, não sei exatamente. Ele disse: "você estuda na Curitiba, não?"

Respondi que sim, que meu nome era João Cândido e que eu era seu aluno no 5º período. Ele ficou me encarando sério e disse:

"Apaga esse cigarro".

Não gostei da maneira como ele falou e dei uma última tragada antes de apagar o cigarro com o pé. 

K me encarava sério e disse: "Você foi o único aluno dessa turma que se remeteu às origens da palavra pena, citou até a origem grega do vocábulo. Quando li, achei ótimo, mas o resto da sua prova era um lixo, me esforcei pra encontrar coisas que justificassem uma nota cinco".

Achei curioso ele lembrar da minha prova, será que ele saberia dizer detalhes das provas de todos os colegas? Olhando para o chão, respondi que iria me esforçar mais.

Ele continuou. "tem outra coisa, seu João Cândido".

Pensei "meu deus, o que esse cara vai dizer agora?"

"Distribuíram uma revista feita pelos alunos e tinha um texto de um João Cândido, acho que no momento você deve ser o único João Cândido na faculdade".

Eu confirmei, disse que era uma iniciativa de alguns colegas e que eu tive a oportunidade de colaborar com um pequeno conto. Na época eu já escrevia algumas coisas no jornal do diretório acadêmico.

"Seu texto é um plágio", afirmou ele. Gelei. Como ele sabia? O texto não era exatamente um plágio, mas era totalmente inspirado em um conto do escritor Isaac Asimov, publicado no livro "Mistérios". O enredo do conto original tratava de um cientista que era pressionado por políticos a criar um veneno que eliminasse o que eles consideravam um "excesso populacional". O cientista, forçado, cria o veneno e convida os políticos para uma reunião. Todos se fartam com um lauto jantar e o cientista revela que os pratos servidos, com exceção de um, continham o veneno inventado por ele. O cientista estava aplicando aos políticos a mesma metodologia genocida que eles pretendiam usar contra a população. Revelou também que tinha tomado anteriormente uma dose do veneno e que aguardava a presença de todos no inferno. E morreu em seguida, deixando os demais sob a expectativa da morte iminente. Esse era o conto do Asimov.

Eu estava disposto a fazer um bom texto pra revista, mas, pra variar, estava envolvido com notas baixas e outras questões que me impediram de criar qualquer coisa. O prazo para entregar o material estava terminando, então resolvi adaptar esse conto do Asimov, transformando o cientista em um empresário importante da cena paranaense que, à beira da morte, mata seus mais fiéis bajuladores. Intitulei o texto como "Álea" e gravei num antigo disquete que foi entregue ao pessoal da revista. Desde criança eu conhecia uma crônica do Rubem Braga chamada "O Crime de Plágio Perfeito", em que ele confessava em tom de humor, que no início de carreira, em 1933, "emprestava" uns textos do Carlos Drummond de Andrade. Ele não assinava os textos que, apesar de serem do Drummond, também não eram assinados no original. Então, na prática, segundo ele, ninguém saía prejudicado. 

Minha adaptação do conto do Asimov, que foi publicada sob minha assinatura, teve alguma repercussão, lembro que amigos e pessoas que eu não conhecia vinham comentar sobre ele comigo. Eu estava convicto de que ninguém ali conhecia o original, até aquele momento em que o professor K, revelou que sabia meu segredo.

"Veja, professor, plágio é uma coisa, livre inspiração é outra", tentei argumentar.

"É uma cópia barata, eu leio Asimov desde que eu era mais novo que você. O que você pensa da vida? Acha que está lidando com quem rapaz? Na sua cabeça você está cercado por idiotas, é isso?"

Eu fiquei sem palavras, não conseguia imaginar o professor K dedicando algumas horas de sua vida à ficção científica.

"Eu devia te delatar, pilantrinha, mas não vou fazer isso. Minha conversa com você é Teoria da Pena. Só fique atento e aprenda que, ao contrário do que você acredita, você não é mais esperto que todo mundo. Quando caras como você amassam a farinha, eu já estou voltando com pão assado".

Achei estranha essa frase do pão assado, mas me desculpei e saí dali rapidamente.


2
Na época, eu era orador do Diretório. Não cheguei a desempenhar o papel mais do que duas vezes ao longo da gestão, mas uma delas foi por ocasião de um aumento das tarifas cobradas pela faculdade. Eu fui breve, mas incisivo e declarei frente a uma pequena multidão que se reunia no pátio da entrada da faculdade que o corpo discente não aceitaria de forma passiva aquele aumento, que em comparação com as tarifas cobradas por outras faculdades particulares, se configurava abusivo. No final, com o canto do olho, avistei o professor K que me observava fumando encostado em uma coluna distante.

Um dia antes da prova final de K, entrei no banheiro do 1º andar e lá estava o professor K no mictório. Ele me viu e soltou sua risada sarcástica. "Olha quem tá aí... o escritor... Escuta escritor, amanhã é o dia da verdade. Sabe fazer os cálculos da dosimetria penal? Espero que tenha aprendido alguma coisa", disse ele fechando o zíper da calça. Ele estava se referindo ao cálculo da pena de alguém que está sendo julgado, uma espécie de matemática da culpa e do perdão. Esperei que ele saísse do banheiro pra poder entrar, mas mudei de ideia e escalei alguns lances de escada para usar outro banheiro. 

Eu estudei para a prova, mas meu esforço não foi suficiente e acabei pegando a prova final (acho que era esse o nome). Era a última chance de tentar passar de ano. Eu e mais da metade da turma tínhamos de provar a ele que havíamos entendido a Teoria da Pena. A prova de recuperação iria acontecer em 4 dias, então decidi me jogar de cabeça e li o máximo que pude, mas no dia da tal prova ainda havia partes da matéria que me soavam nebulosas.

Quando ele distribuiu as provas, percebi que eu só não sabia uma das perguntas. Resolvi caprichar nas que eu sabia e escrevi tudo que eu lembrava. Fui um dos primeiros a entregar e saí para o corredor, onde alguns colegas fumavam e aguardavam a divulgação das notas. E a eventual conversa com o professor, na hipótese de reprovação. Todo ano acontecia a mesma coisa. Após a prova final, os alunos reprovados tentavam cavar alguma nota com ele, que até acabava cedendo, após severas descomposturas. As pessoas nem ligavam, contanto que ele as aprovasse, o que nem sempre acontecia. 

Assim que todos terminaram, o professor K corrigiu as provas e nos chamou de volta para a sala. Desnecessário dizer que o clima era de tensão e medo. Ele passou a ler as notas. Fulano, 4. Sicrano, 5. Não sei quem, 4. Suas palavras eram envolvidas pelo silêncio gelado e estupefato da turma. Não sei quem, 5 e meio. João Cândido, 8 e meio. Quando ele disse isso, eu não acreditei. Levantei devagar e me dirigi à sua mesa. "Professor, pode repetir minha nota?" Ele me encarou e disse: "Sua nota foi 8,5. Por que? Não gostou? Quer fazer outra prova?" Respondi que não, me despedi dele e desci exultante as escadas em saltos de felicidade.  


3
Na entrada do prédio, encontrei L, uma colega de turma que tinha sido namorada de um amigo. Até aquele momento eu tinha trocado poucas palavras com ela, mas a via com constância no diretório. L tinha sido uma das poucas pessoas de nossa turma que passou direto com K, não precisou fazer a prova final, mas me perguntou como eu tinha me desempenhado. Respondi que havia dado tudo certo. Pelo menos pra mim. 

Fui com ela ao bar do Meng, que ficava na esquina. Tomamos umas cervejas e seguimos em direção à Praça Tiradentes, de onde saíam nossos respectivos ônibus. Eu estava leve, feliz e ligeiramente alcoolizado. Falava bobagens e ria. L tinha um sorriso incrivelmente cativante, digno de uma pintura. Eu a acompanhei até seu ponto que ficava na rua Prefeito João Moreira Garcez, uma curta via lateral que compreendia apenas duas quadras entre a catedral e a Praça Generoso Marques. Naquele horário, o local estava escuro e praticamente vazio. Da janela de um dos prédios vizinhos vinham os acordes da música "Pinball Wizard", da banda The Who, na versão com Elton John. Encostamos na porta de ferro de uma farmácia em frente ao ponto e ela me perguntou sem rodeios: "João, você é fã de ficção científica?" 

Claro que ela também sabia do meu texto. Fui pego de surpresa e fiquei totalmente sem jeito com a pergunta. Quando ia elaborar alguma resposta convincente, L, que era mais alta que eu e fisicamente um pouco maior, me empurrou contra a porta de ferro, segurou meu rosto com força e me beijou na boca. Foi tudo tão rápido e inesperado que fiquei sem reação sentindo aquele contato quente e delicioso. Depois reagi e nos beijamos mais algumas vezes até que seu ônibus chegou e ela foi embora. 

O momento, apesar de incrível, não se repetiu. Foi a única vez em que tivemos um contato dessa natureza, porque se não me engano, uns dias depois ela estava envolvida com algum outro colega e fiquei na minha. Nos anos que se seguiram, acho que conversamos no máximo umas duas vezes. Hoje somos amigos virtuais e conversamos vez ou outra. Acho que ela não deve nem lembrar daquele beijo. Nas fotos atuais ela parece feliz. Apesar disso, se eu fizesse uma lista dos beijos mais inesquecíveis da minha vida, o dela estaria entre os primeiros. E toda vez que escuto "Pinball Wizard", não há como não sentir de memória o gosto da sua boca.


"Pinball Wizard" (The Who, 1969)

Foto 1: Shutterstock
Foto 2: Antiga sede da FDC na rua Emiliano Perneta, em Curitiba (Google)
Foto 3: "Mistérios" Isaac Asimov, 1968 (Skoob)
Foto 4: "O Crime de Plágio Perfeito" (Rubem Braga)








quinta-feira, 11 de junho de 2020

MINHA MÃE, A COMUNISTA
João Cândido Martins

1
Vou contar a história como minha mãe me contou e complementar com informações que vim a tomar conhecimento por meio de outras pessoas. Pode ser que um detalhe ou outro não seja totalmente fiel à verdade, mas, no geral, acredito que foi mais ou menos isso que aconteceu. No final dos anos 70, começo dos 80, minha mãe atuava como professora de matemática e diretora do Colégio Estadual Paula Gomes, em Santa Quitéria. Neste período, ela pode acompanhar o percurso estudantil de um rapaz de nome César V. R. ou, como era mais conhecido, Cezinha. 

Parece que ele sempre teve um desempenho escolar dentro do satisfatório e algum destaque no futebol que era jogado pelos campos de Santa Quitéria. Era filho de uma das professoras do colégio e eu lembro bem da sua figura meio nórdica. Às vezes minha mãe me levava, ainda criança, para o colégio e eu ficava por lá enquanto ela trabalhava. Cheguei até a assistir umas aulas do 2º grau à noite, justamente na turma desse cara, Cezinha.

Ele não pretendia cursar nenhuma faculdade. Dominava todos os detalhes mecânicos de qualquer automóvel lançado pelo mercado naquela época, e acreditava que poderia ganhar dinheiro com isso. Namorava com uma moça de nome Valéria, que era neta do seu Vítor, um militar que se mudou para a rua Divina Providência em Santa Quitéria no final dos anos 40, mesma época em que meu avô comprou a casa algumas quadras abaixo, na rua Capiberibe, onde hoje moram minha prima Cynthia Werpachowskki e Lucinéa Dobrychlop. 

O que acontece é que em algum momento, entre 80 e 81, Cezinha passou a demonstrar interesses políticos e chegou a escrever um artigo no jornalzinho dos estudantes sobre questões que se colocavam naquele momento como a ainda atuante censura, as detenções realizadas pela polícia sem auto de prisão em flagrante. Ele também sugeria investigações sobre casos de tortura que aconteceriam nos porões do regime e que ele cabalmente afirmava serem reais, entre outros temas mencionados no texto. Eu tinha guardada uma cópia, mas perdi.

Daí houve o atentado no Riocentro. Militares queriam explodir uma bomba em meio a um show que estava sendo realizado no dia 31 de abril de 1981 no Centro de Convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, mas a bomba explodiu com antecedência no colo de um desses militares enquanto eles estavam no carro. A ideia era que as mortes produzidas no show pela explosão freassem o processo de abertura política que já vinha se estabelecendo de forma gradual há algum tempo, mas o incidente gerou uma crise e alguns setores do governo como o Serviço Nacional de Informações (SNI) tentaram atribuir o atentado às esquerdas, versão que era insustentável, pois nessa época, todos os grupos de resistência ao regime estavam dispersos e, apesar da vigência da anistia, ainda não havia clima para a retomada de uma resistência armada, por exemplo. Com o recrudescimento da violência policial, novos grupos de resistência começaram a surgir, principalmente nas periferias.


2
Certo dia, minha mãe recebeu no colégio a visita de um homem de bigode e óculos escuros. Ele se identificou como agente P., membro do setor de Inteligência do Exército, mas não especificou exatamente onde trabalhava ou o que fazia. Perguntou de forma direta sobre o jornalzinho dos estudantes, sobre quem o editava e com que dinheiro. Em seguida, passou uma lista de nomes à minha mãe. Queria saber se ela estava consciente de que eles praticavam política estudantil nas dependências do colégio, que era estadual. Minha mãe disse que sabia que alguns alunos tinham atividades políticas fora do colégio, mas que ali dentro ela mantinha uma disciplina apolítica. "Eles estão aqui pra aprender matemática, português, história, geografia e biologia. É como eu vejo", disse minha mãe.

O militar afirmou que estava a par da conduta da minha mãe frente ao colégio e disse que ela estava no caminho certo. Mas, na opinião dele, aquela matéria que saiu no jornalzinho era uma brecha perigosa dentro de toda aquela disciplina. Minha mãe respondeu que só veio a saber do texto após sua publicação e que, considerou inútil tentar censurar algo que já estava nas mãos de todos os alunos. 

"Esse rapaz, César, a senhora tem contato com ele?", perguntou o agente P. Minha mãe respondeu que no momento não atuava como sua professora, mas, sempre que podia, acompanhava o desenvolvimento de Cezinha. 

"Nós estamos numa guerra, professora Lôla. Eu entendo que os professores muitas vezes desenvolvam ternura e afeto por seus alunos, mas por trás de um alegre rosto juvenil, pode se esconder um comunista sem pátria, a senhora não concorda? E a obrigação dos professores e funcionários das escolas, públicas ou particulares, é impedir que os estudantes criem núcleos comunistas. A senhora sabe disso, não sabe?"

"Como eu disse, tento impedir qualquer ação político-partidária dentro da escola", respondeu com cautela minha mãe, "mas pode ser que alguma coisa escape. São 15 turmas, quase 500 alunos... o tema política nacional está nas manchetes todos os dias, em todos os jornais, na televisão, no rádio, nas revistas... Meu entendimento pessoal, que trago desde 1950, é que a escola deve se limitar a ensinar as matérias da grade curricular, mas não posso impedir que eles se interessem pelos assuntos do momento".

"Bom, professora Lôla, se entendermos que a senhora não está administrando a escola da forma correta, vamos intervir. Era isso que eu tinha a dizer pra senhora". O Agente P. se levantou e, sem esperar que minha mãe falasse nada, se retirou.


3
Naquela semana, houve várias batidas policiais em diretórios acadêmicos e grêmios estudantis. Muita gente foi detida para averiguações e isso instalou um clima de terror entre os estudantes que, ao mesmo tempo que sentiram medo, não gostaram de ver - mais uma vez - cerceado seu direito à manifestação. Cezinha andava desaparecido. Às vezes ele sumia com sua namorada Valéria, então ninguém estava muito preocupado porque todos sabiam que uma hora ou outra ele reapareceria. 

Uma noite, minha mãe estava trabalhando em sua sala, quando ouviu um som de voz ao microfone vindo do lado de fora. Olhou pela janela e avistou Cezinha em cima de um caminhão de som em companhia de alguns colegas. Segurando o microfone ele disse em alto volume que iria ler uma lista com os nomes de todos os estudantes desaparecidos nas últimas semanas em Curitiba. A primeira coisa que minha mãe pensou foi na sinistra figura do Agente P. e na segurança do próprio Cezinha. Durante seu breve contato com o agente, ela percebeu que aquele homem seria capaz de qualquer violência.

Minha mãe saiu da sala e foi em direção à rua para interromper a manifestação antes que a polícia aparecesse, mas foi tarde, porque minha mãe demorou para chegar ao térreo (o prédio não tinha elevadores e minha mãe, como todos sabem, mancava da perna esquerda, na qual tinha implantada internamente uma peça de platina). A polícia surgiu e cercou a rua, seguindo-se um breve mas tumultuado conflito. Alguns estudantes foram detidos e outros escaparam (Cezinha entre eles). As aulas foram suspensas e os alunos dispensados. 

O agente P. estava presente na batida e disse a minha mãe pra ficar descansada porque eles sabiam que, naquele caso, ela não teria como prever que os alunos fariam aquilo. Ele falou que ela podia ir pra casa em sossego. Na época, meu pai era Delegado de Polícia em Castro, mas minha mãe decidiu não envolvê-lo nisso. Só apelaria a ele, caso fosse detida. 


4
Quando ela chegou em casa, eu, que estava com 8 anos à época, dormia. Minha tia Jesuína, irmã de meu pai que cuidava de mim na ausência de minha mãe, também estava dormindo. Minha mãe pensou sobre a minha segurança, se alguém não poderia me machucar visando prejudicá-la. Ela pensava nessas hipóteses quando ouviu alguém se jogar para dentro do corredor que ficava junto ao muro dos fundos da nossa casa. A primeira coisa que pensou foi que se tratava de um ladrão, mas não demorou para que a voz de Cezinha se fizesse ouvir:

"Dona Lôla... Dôna Lôla, sou eu..."

Minha mãe abriu a porta dos fundos e disse: "Cezinha, você não deveria estar aqui".

"Eu sei, mas minha casa está sendo vigiada e não tenho dinheiro pra me esconder em nenhum hotel".

Ele entrou. Estava sujo e suas roupas rasgadas. Minha mãe esquentou rapidamente uma sopa de feijão que estava na geladeira. Depois que eles comeram, ela disse que ele não poderia ficar ali.

"Eu moro com meu filho, meu marido trabalha no interior. Se eles vierem te procurar aqui e te encontrarem, vou presa junto e ainda me tiram meu filho. Não posso ser presa, meu filho precisa de mim".

"Eu entendo professora Lôla. Mas se eles me encontrarem, acho que não vai sobrar nada de mim pra contar a história".

Ambos ficaram em silêncio por alguns momentos. Minha mãe sabia que ele não estava exagerando. Até que ela teve uma ideia. Pediu a Cezinha que esperasse um pouco e foi à casa de minha tia Leony, que ficava na parte da frente do terreno. Elas haviam combinado que iriam doar umas roupas velhas para a Igreja de Santa Quitéria, e minha mãe usou essa desculpa pra conseguir algumas peças de vestimentas do meu tio que fossem do tamanho de Cezinha. De banho tomado e vestido, Cezinha aceitou uns cruzeiros que minha mãe lhe deu. 

"Vá até a lateral da Igreja de Santa Quitéria, do lado do campo de futebol, e aguarde uma Belina branca, daqueles modelos antigos. Já está tudo combinado. Um ex-aluno meu, o Ribas, vai te levar a uma chácara perto de Almirante Tamandaré. Lá mora só o caseiro e a família dele. Você fica na chácara por uns dias, um mês talvez seja o suficiente. Não saia pra nada, você tem tudo lá. Nem pense em dar as caras em Curitiba. Fique lá bem escondido. Se quiser levar uns dois ou três livros pra passar o tempo, pode escolher na biblioteca do meu marido". Ele pegou minha edição de "Vinte Mil Léguas Submarinas" e uma coletânea de contos de autores paranaense lançada pela Secretaria de Cultura uns anos antes. Em seguida, se despediu de minha mãe, pulou novamente o muro e desapareceu nas sombras. 

Minha mãe contava que naturalmente pensou muito antes de decidir ajudá-lo naquela noite, mas a essa altura, depois dos encontros com o Agente P. e da violência do conflito ocorrido ao lado do colégio, ela já não tinha dúvidas de que os boatos sobre prisões ilegais e torturas poderiam ser verdade e nem passava por sua cabeça a ideia de saber, ou mesmo ser cúmplice, na prisão de Cezinha ou quem quer que fosse. Na verdade, minha mãe, que era uma entusiasta da pedagogia antiga, passou a ver com simpatia a divulgação e o ensino de temas políticos nas escolas. Ela defendia isso abertamente nos últimos anos da sua vida. 

Parece que Cezinha se engraçou com a filha do caseiro da tal chácara em Almirante Tamandaré e o casal fugiu para alguma cidade no interior de Goiás. Ele nunca mais reapareceu ou alguém teve notícias suas. E os anos passaram. 

5
Em 1999 eu estava com 26 anos. Numa tarde qualquer assistia televisão com minha mãe, quando o porteiro do condomínio interfonou dizendo que havia um certo Cezinha querendo falar com ela. Eu não sabia quem era, mas estava acostumado com visitas de ex-alunos que iam ver como ela estava e mostrar suas famílias. Minha mãe sorriu e disse ao porteiro pra deixar eles entrarem. Cezinha estava acompanhado pela esposa. Abraçou minha mãe por um bom tempo e, em seguida, retirou de uma valise os dois livros que havia emprestado em 81 e um envelope contendo a quantia que minha mãe deu a ele naquela noite. Mostrou a foto dos filhos já com 19 e 20 anos respectivamente e revelou que ali entre 89 e 90 largou a militância política, financiou um caminhão e saiu fazendo frete pelo Brasil. conheceu o país todo e conseguiu juntar um dinheiro pra se estabelecer em definitivo novamente em Curitiba.

Perguntei a ele se tinha se desvinculado totalmente da política. Ele respondeu que perdera o interesse. "Mas justamente agora, que a esquerda está ativa e competindo com força pra chegar ao poder?", perguntei. 

"O poder é uma ilusão, meu amigo. Em alguns lugares, a política é dominada por grupos que se revezam por décadas, séculos. Isso nem a esquerda vai conseguir mudar". Ele bebeu um gole de gasosa gengibirra e concluiu dizendo que estava desiludido e que, no momento, só estava interessado em servir a Deus e defender os interesses de sua família. O assunto desvirtuou para outros temas e lembranças. 

Em certo momento, minha mãe foi buscar algo no quarto e retornou com algumas fotografias. Uma delas mostrava Cezinha em cima do caminhão de som enquanto lia os nomes dos desaparecidos entre 80 e 81. Ele ficou segurando a foto com um misto de admiração e surpresa. Estava visivelmente emocionado e, por alguns segundos, achei que fosse chorar. Mostrou à mulher e comentou: "Nessa época, eu dava aula de mais-valia pros colegas. Olha, eu não tinha um fio de cabelo branco". A visão da foto parece ter mexido com ele. Mesmo falando sobre outros assuntos e rememorando outras pessoas e fatos, ele olhava com alguma regularidade para a imagem que ainda estava em suas mãos. 

Na saída, um tanto constrangido, ele pediu a minha mãe, ou a mim, que lhe enviasse uma cópia digital da foto. Minha mãe respondeu que ele podia ficar com ela. "Essa imagem é um dos momentos mais importantes da sua vida. Quem tem de ficar com ela é você", disse minha mãe. O velho comunista chorou.


 

 


terça-feira, 9 de junho de 2020

NÃO É O FIM DO MUNDO
João Cândido Martins

1
Meu nome é Teresa Valença. Já tive propriedades e maridos. E agora, aos 70 e poucos anos, todo dia vou a uma esquina no centro de Curitiba pedir esmolas. Ofereço balinhas em troca de 2 reais. Com o que arrecado durante o dia, de modo geral, tenho o suficiente para comer à noite. Eu não preciso me preocupar com moradia, pois habito gratuitamente um dos quartos dos fundos do hotel que fica nas proximidades. 

Claro que me sinto péssima com a derrocada, mas agora não há mais tempo para lamentar. Não tenho a quem recorrer. Só me resta pedir esmolas. Estou nesta esquina há 5 anos. Todo dia ganho uma marmita do restaurante chinês. A comida deles é boa. Para saciar minha fome à noite, só conto com as moedas que coleto das nove da manhã às dezenove. Não posso reclamar. Como tenho idade, as pessoas costumam contribuir, algumas com mais de dois reais. Depois de jantar, tomo banho no vestiário feminino do hotel e me dirijo para meu quarto, onde tento ler o jornal que é distribuído gratuitamente nas esquinas. Não é porque perdi tudo que tenho de me manter desinformada. 

Eu não sei nem como agradecer ao gerente do hotel pela gentileza, pelo ato humanitário de me permitir dormir aqui. Até já me ofereci para fazer a limpeza dos banheiros do hotel, mas eles não quiseram. Humildemente aceito a gentileza e durmo todas as noites nesse pequeno quarto que fica no fundo de um corredor. Os funcionários do hotel me deram até um catre para dormir. São todos uns anjos e eu nunca terei como agradecê-los da forma como deveria. 

2
Trabalho no cruzamento entre duas avenidas largas, cada uma com seis pistas de carros. De qualquer ponto que se olhe, é possível ver cada um dos quadrantes. De umas semanas pra cá, vejo que um jovem morador de rua vai e vem pela calçada esquerda de uma dessas ruas conduzindo um carrinho de supermercado cheio de cachorros. Ele fala sozinho e vai e vem, repetindo o ciclo inúmeras vezes ao longo do dia. Sinto pena dele, mas não tenho como ajudá-lo. Vejo que ele é abordado por agentes da assistência social, mas eles o deixam ali falando sozinho.

E assim, todos os dias, sucessivamente, lá está ele com seus cachorros. Não resisto e tento uma aproximação. Ele é sereno. Pergunta se tenho um cigarro. Eu tenho. Seu nome é Francisco. Mostra uma carteira de identidade suja e amassada. “Está com fome, Francisco?” “Sim”. Levo-o para o restaurante, mas ele está muito sujo para entrar. Peço que espere uns instantes e retorno com uma marmita para ele. O rapaz deve ter uns trinta anos. Come com voracidade. Devia estar sem comer há dias. Após fumar outro cigarro, parece que a lucidez toma conta de suas palavras. 

Relata que já foi casado, mas que sua esposa faleceu em virtude de uma doença rara. Depois disso, ele veio parar nas ruas.  Ele me conta que costuma dormir embaixo do viaduto do rio Belém. Pergunto se não seria o caso dele dormir em um albergue. "Esses caras dos albergues têm um monte de regras", objeta Francisco. “Não me importo de dormir na rua. Às vezes é ruim acordar no meio da noite com um rato roendo teu pé, mas não é o fim do mundo”, diz ele.

3
No dia seguinte, ao invés de ir mendigar, visto-me com minha única roupa normal e vou até a Biblioteca Pública do Paraná. Se eu tiver sorte ainda deve estar lá. E está. O Livro da Lei, de Aleister Crowley escrito em "enoquiano", que deixei nessa exata prateleira há 35 anos. Ninguém mexeu. É uma edição pequena, quase insignificante e escrita numa língua que pouca gente sabe que existe. Abro o livro e ali está, o papel verde com o qual eu costumava marcar as páginas. Nele há uma frase escrita. Dobro o papel, deposito o livro novamente na estante e saio sem chamar atenção.

 Encontro Francisco à tarde. O rapaz parece mais confuso do que o normal, mas redobra a atenção quando eu lhe digo que posso ressuscitar sua esposa.

“É sério isso?”, pergunta ele. 

“Sim, é só você me dizer onde ela está enterrada. Nós vamos lá à noite e eu resolvo pra você”.

“Dona Teresa eu...eu...”

O jovem mendigo não se contém de alegria. Abraça-me e não me incomodo com o fato dele estar imundo. No carrinho de supermercado, os cães latem. Ele me informa que sua mulher foi enterrada no Cemitério Água Verde. Não temos dinheiro pra condução e mesmo que tivéssemos, Francisco seria impedido de entrar em qualquer ônibus. Temos de ir a pé do Centro ao bairro Água Verde. Foram muitas, muitas quadras. 

Já no começo do caminho, os cães foram se retirando, como se soubessem que algo importante iria acontecer. Depois de quase duas horas andando, chegamos ao cemitério que estava prestes a fechar os portões. Entramos por uma porta lateral e nos escondemos atrás de um mausoléu. Alguns guardas municipais passaram pela área, mas não nos avistaram. A noite caiu.

4
Próximo à meia noite, acordo Francisco que dormia sobre um túmulo. Ele se recompõe e pergunta onde estamos. “No cemitério Água Verde. Você disse que iria mostrar onde sua esposa foi enterrada”. O jovem pôs a mão na cabeça. “Há anos não venho aqui, só lembro que descendo a alameda principal, havia um túmulo de esquina à direita, com azulejos amarelos e também uma árvore meio retorcida à frente”. 

“Vamos lá, então”, digo enquanto me certifico de que o papel verde está no meu bolso.

Andar por um cemitério à noite é uma experiência estranha. As sombras se projetam de forma diferente, formando imagens inesperadas. A luz da Lua torna macabras as faces dos mortos nas pequenas fotografias e a sensação de estar sendo observado é descomunal. Mas não sinto medo. Finalmente encontramos o túmulo da mulher de Francisco. Os azulejos precisam de limpeza. A luz da lua permite que eu veja o sorriso da mulher de Francisco no retrato ovalado. Embora retrate uma morta, a foto emana vida. Francisco começou a chorar. Deixei que ele extravasasse seus sentimentos. Acendi um cigarro e esperei ele se acalmar. 

Alguns minutos depois, me aproximei e disse: “Vamos trazer ela de volta?” 

“Vamos, vamos”, respondeu ele, se recompondo. 

Solicito a Francisco que se ajoelhe e ponho minhas mãos sobre sua cabeça. Entoo as palavras milenares escritas no papel que peguei na biblioteca e depois, peço que ele coma o papel. Ele me olha estranhado, como se não tivesse entendido.

"Coma", repito. Enquanto ele mastiga o papel, termino de entoar a frase pela 3ª vez. Só resta o silêncio. “E agora?” pergunta ele. “Amanhã ela vai estar de volta”, respondo. “Acredite nisso”. Ele se levanta e iniciamos nosso longo trajeto de retorno ao centro. Depois de muitas horas, chegamos às ruas próximas à nossa esquina. Eu só queria deitar e dormir. Francisco me agradece e vai em direção ao viaduto. O pessoal do hotel pergunta se está tudo bem comigo. Respondo que sim e me retiro. Tenho um sono pesado.

5
Acordo. Ando em direção à esquina onde costumo pedir dinheiro. Sento em frente ao hotel onde moro, do outro lado da rua, e depois de uns 45 minutos vejo uma ambulância chegar e levar amarrada numa maca a mulher que um dia foi Teresa Valença. Ela grita absurdos. Diz que seu nome não é Teresa e que, na verdade, ela é um homem. Aparentemente a mulher está descontrolada. Os funcionários do hotel olham a cena consternados. 

Depois que ela se vai, tudo se acalma e todos voltam para seus afazeres. Permaneço por uns cinco minutos observando se alguém ficou desconfiado comigo sentado aqui do outro lado da rua. Nada. Ninguém suspeita de nada. Eu me levanto e, do alto dos meus trinta anos, vou viver minha nova vida como Francisco.



























Foto 1: Ezio Angulski Filho/Foursquare City Guide
Foto 2: David Tareskiewicz/Foursquare City Guide
Foto 3: Ezio Angulski Filho/Foursquare City Guide
Foto 4: Maykel M./Foursquare City Guide

segunda-feira, 8 de junho de 2020

O SUSTENTO DA CASA
João Cândido Martins

1
Entre 1985 e 1988 estudei no Colégio Militar de Curitiba. Foi tempo suficiente para que eu percebesse que não teria futuro na profissão militar. Minha natureza era muito diferente da que se espera de um militar. De qualquer forma, quando o colégio em Curitiba encerrou suas atividades no final de 1988 por determinação do Ministério do Exército, decidi continuar meus estudos no Colégio Militar de Porto Alegre, junto a outros colegas que fizeram a mesma opção. Estudaria no internato. 

Não foi uma boa ideia. Se antes algumas características do ambiente militar me causavam algum tédio, em Porto Alegre passaram a me provocar indignação. Eu tinha 16 anos e estava propenso a me revoltar com tudo e com todos. Discursos, desfiles, engraxar os sapatos, cortar rente o cabelo, limpar a fivela do cinto, prestar continência, dizer sim senhor inúmeras vezes por dia, tudo isso deixou de fazer sentido para mim.

Eu preferia passear por Porto Alegre, tentar reconhecer nela o que havia lido nos livros do Érico Veríssimo que meu pai colecionava. Passear pelo Parque da Redenção, ir ao cinema, conhecer garotas, ler quadrinhos (Watchmen, Cavaleiro das Trevas e Graphic Novels). E ouvir música. Foi o momento em que comecei a ouvir Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple e o rock clássico em geral, tendência que me acompanha até hoje. Essencialmente eram essas as coisas que eu queria fazer. 

Claro que eu tinha consciência do esforço dos meus pais para que eu estudasse naquele local, mas para um filho único superprotegido, estar livre numa cidade desconhecida foi uma sensação nova e revigorante. Colegas mais maduros me aconselhavam a manter a atenção, caso contrário poderia reprovar, repetir de ano. Isso nem passava pela minha cabeça. Em Curitiba sempre me mantive entre os 15 primeiros da turma. Posteriormente os conselhos se revelaram corretos. 

Veio um feriado e, antes dele, seria realizado um desfile ali na Redenção mesmo (o Colégio Militar de Porto Alegre fica em frente ao parque). O general que estava organizando o evento queria que os alunos piscassem uma lanterna junto ao peito com a mão esquerda e, com a direita, acenassem um lenço sobre a cabeça. Todos riram da instrução insólita, mas eu não ri e, além disso, me recusei a participar. O que me indignou foi que com o feriado, eu não teria tempo hábil pra viajar pra casa e descansar uns dias. Eu teria de ficar em Porto Alegre. Desde o anúncio do evento, eu já comecei a maquinar em minha mente como faria para não participar, ou como se dizia entre os alunos do Colégio Militar, “matar” o desfile.

Os dias se passaram, mas eu não conseguia pensar em nada. Finalmente chegou a data. Um colega de Curitiba concordou em responder à chamada por mim quando estivesse no grupamento de alunos. O evento seria realizado às 19 horas. Meia hora antes, todos estavam perfilados no pátio trajando uniforme de gala, menos eu e o gaúcho Lucena, que torcera o tendão do tornozelo e tinha de usar uma bota ortopédica. Autorizado a não participar do desfile, Lucena brincava na mesa de sinuca que havia no centro do dormitório dos alunos. 

“Martins” disse ele, “é melhor você se ligar cara, porque o capitão R.pode aparecer a qualquer momento. Ele disse que era pra todo mundo estar no desfile hoje.”

“Eu sei. mas agora é tarde, nem arrumei meu uniforme de gala”, desconversei. 

“Usa o meu, nós somos do mesmo tamanho”, disse ele. 

Quando eu ia explicar ao colega que na verdade não iria participar por motivos filosóficos, alguém apontou na escada que dava para o dormitório. Era o capitão R., comandante da 2ª Companhia de Alunos. Rapidamente olhei em volta e encontrei uma cama que estava desarrumada. O cobertor impedia que se visse o que estava por baixo dela. Só tinha aquele lugar pra se esconder. Na hora em que me deitei no chão, imaginei a cena ridícula que seria eu saindo debaixo daquela cama e me levantando humilhado, mas nem tive tempo de refletir porque me queimei com o cigarro que se multiplicou em faíscas sobre mim e, quando vi, estava deitado embaixo da cama. 

O oficial olhou todos os compartimentos do dormitório, falou com Lucena, olhou a parte dos armários, o banheiro, a sala de TV. Incrivelmente, só não olhou onde eu estava. Frustrado, foi para o desfile. Ele adorava ter um réu para julgar, afinal era ele mesmo quem aplicava a pena. Saí debaixo daquela cama e fui até a janela. Na praça, o desfile começava. 

Olhei para Lucena com o objetivo de convidá-lo para uma partida de sinuca, mas ele já não estava mais ao lado da mesa, e sim, sentado em sua cama retirando a bota ortopédica. Entre os alunos internos naturais do Rio Grande do Sul, Lucena era o mais sóbrio e sério. Nós não tínhamos conversado muito até aquele momento. Na verdade, confesso que nos meses iniciais em que estive no internato, interagi pouco com os gaúchos. Mas, posteriormente, fiz muitos amigos entre eles. 

“Deve doer muito”, eu disse. 

“Na hora doeu mesmo, mas depois de uma semana eu tava bem melhor. Já consigo andar sem essa bota maldita.”

“Quer jogar sinuca?”, perguntei. 

“Não”, ele respondeu. “Vou te levar numa viagem no tempo.” 

Olhei para Lucena com curiosidade. 

“Esse prédio foi construído em 1872 e o segundo pavimento, que é onde estamos, é de 1900, aproximadamente”, disse ele. “Quer conhecer o sótão?” perguntou mostrando um molho de chaves.


2
Subimos por uma escada de madeira que dava para um alçapão. Em pouco instantes, estávamos no sótão da ala esquerda do Colégio Militar de Porto Alegre. Além da escuridão, um cheiro de coisa guardada nos cercou e impregnou minhas narinas. Com as mesmas proporções do salão inferior onde ficavam os beliches, o sótão estava ocupado por centenas de papéis, documentos oficiais, cadernetas, livros, uniformes, baionetas, espadas, coturnos, retratos e objetos afins. Foi o que conseguimos ver com nossas pouco potentes lanternas. 

Lucena me disse que no lado oposto do sótão havia uma passagem para o salão central, que ficava abaixo da cúpula e acima do portão de entrada do colégio. Lá chegando, encontramos um buraco na parede. A uns três metros de distância, outra parede e outro buraco, mas para chegar nela, era necessário andar sobre umas vigas de madeira que pareciam bem velhas. Lembrei do meu pai comentando que as vigas de apoio do telhado da primeira catedral de Curitiba, quando foram retiradas na década de 1870, após mais de cem anos de uso, pareciam novas. 

Passamos por esse obstáculo sem maiores dificuldades e chegamos ao salão nobre que, só não estava totalmente escuro, porque recebia as luzes que vinham da praça. Nos retratos pendurados nas paredes, ex-comandantes do Colégio Militar de Porto Alegre nos olhavam com uma vaga censura. 

“Você quer ser militar?”, perguntei a ele. 

Lucena respondeu que sim. “Por isso estou aqui.”

“Mas essa coisa de não poder viajar no feriado porque tem de participar de um desfile como esse, que com esse frio que tá fazendo, não tem praticamente ninguém assistindo... eu soube que o pessoal da sua cidade também não vai poder viajar no feriado por causa desse negócio... esse tipo de coisa não te enche o saco às vezes?"

"Faz parte do jogo", disse ele seco enquanto mexia em sua perna machucada.

Ele desconversava. Eu queria que Lucena expusesse algum incômodo em relação ao mundo militar. 

“Seu pai é militar, não é?” 

“Sim, do Exército Brasileiro”, respondeu com orgulho. Mas logo se corrigiu: “Na verdade, meu pai já é falecido, mas sempre foi do E.B.”

“Os caras te deram uma oportunidade aqui como órfão de militar” eu disse, “mas nunca passou pela sua cabeça fazer outra coisa, ter outra profissão?”

Lucena me olhou sem dizer nada, e perguntou se eu tinha um cigarro. Eu tinha. Ele acendeu o cigarro com muita calma. Era daqueles que posicionavam o cigarro entre o dedo mindinho e o anelar e fumava com a mão espalmada sobre o rosto, só abrindo uma fresta pros olhos. 

“O que acontece, João Martins” disse ele, após soltar uma baforada, “é que essa oportunidade pra mim é única. Que chance eu, órfão de militar de baixa patente, de baixa renda, com seis irmãos, teria no mundo sem o Colégio Militar? Mais fácil continuar por aqui, tentar ser oficial, ter estabilidade, ser promovido. Uma faculdade não vai me dar essa segurança.”

Na época eu não sabia nada da vida, achava que quem estava ali tinha mais ou menos as mesmas oportunidades que eu dispunha. Respondi, de forma ingênua, que ele poderia tentar uma faculdade, nem que fosse só por tentar. 

“Você não entende, Martins” disse ele impaciente, “semestre que vem eu começo a trabalhar pra ajudar no sustento da minha casa. Pela manhã frequento as aulas aqui no colégio e depois trabalho das 14 até as 21h e, só então, volto pro internato às 22 horas". seus olhos tremiam enquanto ele falava. Sua voz era contida, mas incisiva. "Acha que gosto disso?", continuou ele. "Você tem liberdade pra ficar lendo revistas em quadrinhos a tarde toda, mas eu não.”

Depois dessas palavras, optei por me calar. O local estava passando por algum tipo de reforma, então havia ferramentas de construção espalhadas pelo chão. Lucena recolheu um martelo e depositou em um saco. Perguntei o que ele estava fazendo. 

“Preciso levar. Meu irmão é pedreiro. Roubaram o martelo dele e ele tá precisando.”

Por óbvio que na volta do feriado houve uma investigação sobre o tal martelo desaparecido. Todos os alunos do internato perfilados e o capitão explicando que não sairíamos dali enquanto não surgisse o nome do responsável pela subtração. Marchamos e ficamos parados por horas e depois novamente marchamos e ficamos parados. Lucena, com sua bota ortopédica, acompanhava tudo sentado num banco embaixo das arcadas, ao lado da entrada térrea da biblioteca do colégio. 

Com certeza alguém entre os demais alunos sabia, ou ao menos desconfiava de nós. Mas ninguém disse nada, conforme previa a ética vigente no Internato. Nos três dias seguintes, a mesma coisa. Marchamos e ficamos parados e marchamos novamente contínuas vezes até que o capitão se cansou daquilo e fomos dispensados. 

Imagens

Foto 1: A cúpula situada na entrada do Colégio Militar de Porto Alegre.
Foto 2: Eu, ainda no tempo do Colégio Militar de Curitiba (desfile de 7 de Setembro de 1987).
Foto 3: Insígnias do Colégio Militar de Curitiba (6ª e 7ª séries, estrelas da boina e identificador ou "biriba").
Foto 4: Vista aérea do Colégio Militar de Porto Alegre, no bairro do Bonfim.

















 

EXEMPLAR NEOCLÁSSICO
João Cândido Martins

1
Em 1999 recebi uma casa de herança. Ela veio de uma tia, prima de meu pai. Eu mesmo nunca cheguei a conhecer essa tia, mas meu pai falava bastante sobre ela. Seu nome era Estefania e consta que tinha muito dinheiro. Naquele ano, o imóvel completava um século de existência. Era classificado pela prefeitura como uma unidade de interesse, ou seja, não podia ser demolido nem alterado sem aprovação dos órgãos competentes. Eu não tinha intenção de demoli-lo. Era um bonito prédio de dois pavimentos situado numa das principais esquinas do bairro Portão. À época alguém me disse que a casa era de arquitetura italiana.

Não chegava a ser suntuosa, mas era imponente. Resolvi me mudar para lá. Minhas necessidades se resumiam a uma cama, um fogão, um aparelho de som, uma geladeira, um cabideiro para guardar minhas roupas e uma mesa com duas cadeiras. E um sofá na sala principal. Essencialmente era isso de que eu precisava para ter uma vida mais ou menos normal. Mas, de qualquer forma, me adaptei bem à casa. Era bom ter todo aquele espaço. 

Certa noite, convidei N., minha namorada à época, para conhecer a casa. Correu tudo bem até o momento em que ela, ao ir à cozinha, soltou um grito e veio correndo para a sala. 

“Tem um homem na cozinha, João.”

“Não pode ser, tá tudo trancado.” 

“Não interessa, tem um homem estranho na cozinha, faça alguma coisa.” 

Peguei um tijolo que estava no canto da sala e fui em direção à cozinha, sem saber se conseguiria usá-lo contra uma pessoa. Olhei com cautela a cozinha. Verifiquei todas as portas, janelas e trancas, revistei todos os cômodos. Não havia nada, mas ela ainda estava nervosa. Era curioso porque, de modo geral, N. era uma pessoa que não externava sentimentos. Conversamos um pouco sobre o acontecido, mas nada ficou claro. Ela insistia em dizer que tinha visto um homem.

2
O encanador disse ter visto um homem na casa. O rapaz da TV a cabo contou que viu uma menina. E, da mesma forma, houve também quem dissesse ter visto um homem acompanhado por uma menina. Eu já morava ali há um ano e nunca vira nada e, pra ser honesto, sempre fui cético quanto à possibilidade de ter qualquer contato com os mortos. Devo concordar, entretanto, que a casa realmente era soturna: o pé-direito alto, as portas de madeira antiga, as balaustradas nas varandas da frente, as colunas coríntias que ladeavam a porta principal, o grande vitral da frente, tudo convergia para um clima triste e melancólico. 
Mas em todos aqueles meses eu realmente não vi nada. Até aquela noite. 

Tudo começou à tarde. Objetos mudavam de lugar, o aparelho de som ligava sozinho, uma série de eventos dessa natureza se sucedeu, até que ao me mirar no espelho do quarto, vi ao fundo um homem e uma menina. 



Meu coração disparou. Pensei em correr, mas eles estavam bem na porta do quarto. Se eu saltasse pela janela, minha queda na calçada seria desastrosa. Virei-me calmamente e os encarei. Não eram bizarros. Pareciam tristes e cansados. O homem levantou a mão em minha direção:

“Precisamos da sua ajuda.”

Continuei olhando em silêncio os dois espectros. O que dizer? Como entabular uma conversa normal com alguém que já morreu? O homem continuou:

“Estamos presos nesse prédio, ele precisa ser demolido para que nosso descanso seja eterno.”

Pensei por alguns instantes e respondi que não sabia se a prefeitura iria autorizar.


“Nós não queremos ficar aqui, queremos ir embora, por favor nos ajude.” 

Eu prometi que tentaria ajudá-los, mas já prevendo que seria complicado. Os dois fantasmas se dissiparam na minha frente. Naquela noite e nos dias seguintes optei por dormir na casa de minha mãe. 


3
Refleti bastante nos dias seguintes sobre o assunto e resolvi que tentaria ajudá-los. Eles reapareceram mais duas vezes, reiterando o pedido para que a casa fosse demolida. Fui à prefeitura e procurei me localizar quanto à situação jurídica do imóvel. Disseram que eu deveria me encaminhar à Casa da Memória, no Largo da Ordem. Neste órgão, um historiador especialista na história da arquitetura de Curitiba me explicou que qualquer possibilidade de demolir o prédio estava fora de cogitação.


“É um exemplar neoclássico muito bem conservado. Se a prefeitura autorizasse uma demolição dessas, seria um crime”, argumentou. 

Ficou combinado que no dia seguinte o historiador iria à casa acompanhado por um engenheiro para averiguar o estado da construção. No horário marcado, lá estavam eles. Olharam por tudo e chegaram ao veredicto de que a construção deveria ser mantida em pé. Mostrei-lhes uns vazamentos que havia na parede da cozinha, mas foi inútil.


“Essas casas foram feitas pra durar pra sempre e essa aqui vai resistir muitos anos ainda”, decretou o estudioso.
 
Achei que o homem e a menina fossem aparecer ali na nossa frente, mas nada aconteceu. Ofereci um café. Fomos até a cozinha. O especialista começou a me explicar sobre as funções que aquele prédio desempenhou ao longo dos anos. Mercearia, pensão, escritório de contabilidade, residência... 

De onde estávamos era possível ver a rua através do vitral da entrada. Essa foi a nossa sorte. Foi o que possibilitou que víssemos o enorme ônibus biarticulado sair da canaleta e vir a toda velocidade em direção à casa. Só houve tempo de nos jogarmos pela porta dos fundos que dava para um pequeno jardim. O impacto tremeu o chão e provocou uma espessa nuvem de fumaça que pairou por mais de meia hora. Felizmente ninguém saiu ferido na casa ou no ônibus, mas a parte da frente do imóvel foi totalmente destruída. O que sobrou foi comprometido. Entre os destroços, um bilhete azul com uma tremida letra infantil: 

“Obrigado João, mas outros resolveram nos ajudar. Até.” 

Semanas depois, o trator tomou posição para demolir o que sobrara da casa.























Fotos e Edição: João Cândido Martins