quarta-feira, 27 de maio de 2020

BEATLES - 1966 - "REVOLVER"
João Cândido Martins


Dia 8 do desafio feito pelo amigo David Bessa, para que nos próximos 10 dias eu poste 10 discos que influenciaram minha formação musical.

O disco "Rubber Soul" (65) já mostrava os Beatles dispostos a trilhar caminhos musicais mais ousados do que em seus discos anteriores. Incorporar uma temática mais adulta e adotar sonoridades experimentais era uma proposta que estava na ordem do dia na nascente música "pop" da segunda metade dos anos 60. Com "Revolver", os Beatles conseguiram o que toda banda de rock deseja: soar simples e sofisticada ao mesmo tempo. No caso deles, muito sofisticada, como se verifica no arranjo de cordas para "Eleanor Rigby" ou nos experimentos com fitas em "Tomorrow Never Knows".


O disco foi precedido por um compacto lançado meses antes, contendo as músicas "Paperback Writer" e "Rain". Ambos os temas já sinalizavam uma guinada da banda em direção à psicodelia, que naquele momento ganhava expressão em figuras como Timothy Leary e espaço entre os jovens de comunidades como a que surgiu na confluência das ruas Haight-Ashbury, em São Francisco, na Califórnia. A esta altura, todos os integrantes dos Beatles estavam saturados das turnês em que eles tocavam sem conseguir ouvir os próprios instrumentos, pois tudo era abafado pela gritaria da fãs ensandecidas. Eles estavam dispostos a passar mais tempo em estúdio burilando as canções para poder competir com as novidades propostas por outros grupos como Beach Boys, Stones e The Who.


Em "Revolver" se tornam mais perceptíveis as diferenças de composição entre Lennon e McCartney. Se o primeiro apostou em canções psicodélicas como "I'm Only Sleeping", "Dr Robert" e "Tomorrow Never Knows", o segundo surpreendeu com melodias como a de "Good Day Sunshine", o emprego de metais em "And Your Bird Can Sing" e a delicadeza de "For No One", que mostra como McCartney evoluiu no curto período que separa essa música de "Yesterday", lançada um ano antes. E, é claro, o já citado conjunto de cordas em "Eleanor Rigby", cuja letra foi considerada "poesia moderna" por Allen Ginsberg, escritor Beatnik, autor de "Uivo" e hippie antes de existir movimento hippie.

George Harrison ganhou mais espaço nesse disco: três canções próprias, sendo uma delas, uma fusão ocidente/oriente e as escalas ascendentes e descendentes na guitarra de 12 cordas em "And Your Bird Can Sing", de McCartney. Coube a Ringo cantar a letra de "Yellow Submarine", que dois anos depois entraria para a trilha sonora da animação de mesmo nome. A contribuição do produtor e maestro George Martin foi essencial para a materialização das ideias trazidas pelos Beatles. Mas ele não conseguiu reproduzir em estúdio o som de mil macacos gritando ao mesmo tempo, sugestão dada por Lennon para a introdução de "Tomorrow Never Knows". Destaque também para Geoffrey Emerick, engenheiro de som que, contrariando as diretrizes da gravadora EMI, posicionou os microfones mais próximos aos instrumentos do que se costumava posicionar à época, o que gerou uma sonoridade mais "quente".

Sem "Revolver", não haveria "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" que foi lançado em 67 e se tornou um marco da cultura mundial. Mas um disco é melhor do que o outro? Difícil dizer, são obras distintas. "Sgt. Pepper's" soa melhor acabado porque há todo um clima que permeia e une as canções do disco, configurando uma aura de "obra conceitual", o que ele não chega a ser, pois as músicas não possuem necessariamente a mesma temática. Em "Revolver" não há esse clima, e o disco, justamente em função disso, é mais orgânico que seu sucessor. Ele tem mais espontaneidade, é mais rock.

Se os Beatles não tivessem lançado Revolver, é possível que a banda acabasse por ali mesmo. O cenário da música pop estava fervilhando de mudanças. Curiosamente, o conjunto de maior sucesso comercial do planeta, acabou sendo a ponta-de-lança de todo um movimento cultural e de conduta coletiva que, posteriormente, geraria o ambiente necessário para as manifestações políticas de 1968 em Paris e em outros lugares, incluindo o Brasil. Os Beatles foram a matriz de 90% de tudo que se criou no rock a partir de 1966, com exceção de Velvet Underground e Frank Zappa, que inventaram e desenvolveram suas próprias linguagens.


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Conheci "Revolver" em 1983, aos dez anos de idade. Foi numa festa de aniversário de um menino vizinho que também morava na rua Capiberibe, em Santa Quitéria. Lembro que chovia bastante e ficamos dentro de um salão nos fundos da casa dos pais desse garoto. Ele tinha uma irmã gêmea, mas eles eram diferentes tanto nos aspectos faciais quanto na personalidade e, até onde lembro, nem costumavam andar juntos, como fazem, de modo geral, os gêmeos nessa idade. No dia da festa, ela usava uma camiseta preta com a palavra Beatles. Tinha longos cabelos também pretos que escorriam sobre seus ombros e um olhar verde e felino que dava um ar de mistério às suas feições ainda infantis.

Eu sentia uma certa atração por ela, mas, do alto dos meus dez anos, não conseguia compreender nem dominar esses sentimentos com muita habilidade. Na prática, sempre que ficávamos a sós, eu não sabia muito bem o que dizer. A chuva parou e os garotos se organizaram para jogar futebol. Como sempre, fui preterido, pois eu era o gordinho da rua e, na verdade, eu até gostava disso, pois preferia assistir futebol a jogar. A prática de esportes coletivos nunca me interessou.

Ao lado desse salão, havia um gramado que servia de campo. Os times se distribuíram e o jogo começou. As meninas que estavam na festa se juntaram atrás do gol à minha direita. Em seguida, sentaram próximas a umas árvores e ficaram lá, conversando. Eu fiquei sozinho e notei que a irmã do meu amigo não estava por ali. Resolvi investigar e me deparei com ela dentro do salão mexendo nos discos que, imagino, fossem dos seus pais. Com cautela me aproximei e logo vi, pelas fotos das capas, que ela estava separando discos dos Beatles. Ela me viu e disse pra eu chegar mais perto.

Sentei ao lado dela com as pernas cruzadas e segurei o primeiro disco que estava próximo a mim. Ela disse: "conhece o Revolver?" Eu só conhecia uma coletânea dos Beatles de capa cinza que havia sido lançada naquele ano. Confessei minha ignorância quanto aos álbuns da banda e ela sorriu. Foi até o toca-discos, posicionou o vinil e, em poucos segundos estávamos ouvindo os primeiros acordes de "Taxman". Ela dançou e cantou todas as músicas. Sabia todas as letras e, quando vi, eu estava me movimentando ao lado dela. Quando acabou "And Your Bird Can Sing", caímos os dois, exaustos, sobre uma almofada gigante estilo "puff", que alguém posicionou de forma estratégica ao lado do aparelho de som.

Ficamos colados um no outro arfando pelo esforço físico. A música seguinte, "For No One", começou. Olhei pra ela e, num átimo, senti pela primeira vez na vida o lento e quente beijo de uma mulher. Mas aí aconteceu o inusitado. Sei que pode parecer uma coincidência pouco verossímil, mas um raio violentíssimo atingiu a casa bem naquele instante, provocando um estrondo seco e ensurdecedor. Eu e ela nos afastamos no ato e a energia elétrica caiu, escurecendo o ambiente. As crianças que estavam no campo adentraram o salão assustadas e se depararam conosco sentados um ao lado do outro naquela almofada gigante.

As brincadeiras foram muitas, viramos motivo de piadas. Quem conhece crianças sabe como elas podem ser cruéis e sarcásticas. A irmã do meu amigo pouco se importou com isso e, nos meses seguintes, era comum sermos vistos andando de mãos dadas pelas ruas de Santa Quitéria. Ela foi minha primeira namorada e também a pessoa que me apresentou praticamente todos os discos dos Beatles (e alguns do Elton John e do Supertramp). Eu a amei com todas as forças dos meus dez anos até o dia em que a vi andando na garupa da bicicleta de um cara mais velho que morava na rua lateral, e era conhecido por fazer malabarismos com sua Caloi Dez Marchas. Fiquei tão desolado, que prometi a mim mesmo nunca mais ouvir Beatles na vida. 

A promessa durou algumas semanas, e foi quebrada quando me flagrei escutando o disco "Pipes of Peace" do McCartney, que foi lançado naquele ano de 83. Até hoje, quando escuto "Revolver", lembro dessa menina de cabelos pretos que, anos depois, como vim a saber, casou com o acróbata da Caloi.


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Compacto (30 de maio 1966)

Lado A - Paperback Writer
https://www.youtube.com/watch?v=yYvkICbTZIQ
Lado B - Rain
https://www.youtube.com/watch?v=cK5G8fPmWeA



Revolver (05 de agosto de 1966)

01 Taxman (Harrison)
https://www.youtube.com/watch?v=l0zaebtU-CA
02 Eleanor Rigby (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=HuS5NuXRb5Y
03 I'm Only Sleeping (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=BT5j9OQ7Sh0
04 Love You To (Harrison) (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=s1X-q7MweIc
05 Here, There And Everywhere (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=xdcSFVXd3MU
06 Yellow Submarine (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=m2uTFF_3MaA
07 She Said She Said (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=rLzfo59AdEc
08 Good Day Sunshine (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=6e01nNA02vw
09 And Your Bird Can Sing (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=fH-3y_Ike5E
10 For No One (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=ELlLIwhvknk
11 Doctor Robert (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=Tb9L3iAUhc0
12 I Want To Tell You (Harrison)
https://www.youtube.com/watch?v=7kXusIyqQ2o
13 Got To Get You Into My Life (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=r95-7zfgtLw
14 Tomorrow Never Knows (Lennon-McCartney)
https://www.youtube.com/watch?v=pHNbHn3i9S4






























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