quarta-feira, 27 de maio de 2020

LEGIÃO URBANA - 1989 - "AS QUATRO ESTAÇÕES"
João Cândido Martins


Dia 10 do desafio feito pelo amigo David Bessa, para que nos próximos 10 dias eu poste 10 discos que influenciaram minha formação musical.

"As Quatro Estações" (Legião Urbana, 1989)
https://www.youtube.com/watch?v=Q7CtMBINn04
Ninguém aqui está dizendo que o disco "As Quatro Estações" da banda Legião Urbana seja algum tipo de obra-prima do rock. A lista pede discos que influenciaram minha formação musical e eu estaria mentindo se dissesse que em 1989, aos 16 anos, não fiquei impactado com esse disco. Era um conjunto de canções coerente, bem tocado (dentro das limitações dos caras) e com passagens poéticas inteligentes, que afrontavam de forma direta a primariedade da "Dance Music", que naquele momento imperava quase absoluta nas rádios.


Alguns podem alegar que Renato Russo se valia de alguns clichês e frases de efeito para atingir a sensibilidade dos jovens, mas o fato é que ele fazia isso com o lastro de quem leu alguns poetas britânicos e americanos no original (ele foi professor na Cultura Inglesa de Brasília). Neste disco de 89, ele também citava Camões, entre outras referências literárias e cinematográficas. "As Quatro Estações" se afasta das questões político-sociais abordadas nos três primeiros discos e se aprofunda em temas intimistas e românticos sem soar piegas. Ao longo do disco, ele solta frases simples e diretas, mas que carregam intensas doses de verdade. "Todos têm as suas próprias razões", diz ele ao se referir ao amor. E por aí vai.

Em 89, eu era aluno em regime interno do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA). Ainda não conhecia tão bem as letras de Dylan, Lennon, Roger Waters, Nick Drake, Neil Young, Lou Reed, Bowie, Peter Hammill, Ian Anderson e outros poetas do rock que hoje respeito mais do que Renato Russo, Mas, naquele momento, aos 16 anos, interno numa instituição militar, aquelas canções de liberdade e amor cantadas num português castiço me atingiram em cheio. E lembro que o pessoal do Colégio Militar que preferia "Dance Music" não se cansava de fazer referências pejorativas às opções sexuais de Russo. Isso nunca me incomodou, e eu ainda achava curiosa a postura preconceituosa dos caras, na medida em que, segundo o crítico Camilo Rocha da revista Bizz, a Dance Music, que eles escutavam todo dia, estava estreitamente vinculada ao universo gay.

Um dia, algum colega comentou sobre "As Quatro Estações" em uma aula de Português. O professor, que tinha ouvido as músicas, fez uma crítica formal: disse que Renato Russo gostava de posar de intelectual, mas que tinha errado feio ao misturar um texto classicista com uma música barroca (ele estava se referindo a Monte Castelo). Eu entendi o que ele quis dizer, mas, da mesma forma, pouco me importei com aquele preciosismo. Continuei a ouvir minha fita K7 de "As Quatro Estações" sem maiores problemas de consciência. Alguns anos depois, me surpreenderia ainda com o disco "V" (91), em que Renato Russo se arriscaria em caudalosas águas progressivas.

01 Há Tempos
02 Pais E Filhos
03 Feedback Song For A Dying Friend
04 Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto
05 Eu Era Um Lobisomem Juvenil
06 1965 (Duas Tribos)
07 Monte Castelo
08 Maurício
09 Meninos E Meninas
10 Sete Cidades
11 Se Fiquel Esperando Meu Amor Passar





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