quarta-feira, 27 de maio de 2020

PERFIL - SAUL TRUMPET
Texto: João Cândido Martins, 2003. A matéria foi elaborada para o jornal "Folha da Praça" (Universidade Tuiuti), mas por alguma razão que não lembro, não foi publicada e acabou na gaveta todos esses anos).


A história do jazz em Curitiba está estreitamente vinculada a Saul da Silva Bueno, o Saul Trumpet. Músico há 42 anos, Saul associou seu nome ao instrumento que o tornou conhecido, mas o que pouca gente sabe, é que ele começou ainda jovem tocando escondido o bombardino, instrumento de sopro que seu pai executava na igreja. Sua primeira experiência profissional aconteceu, ainda com o bombardino, em bailes de carnaval. Posteriormente, passaria um breve período tocando trombone de vara, até que na primeira metade da década de 70,adotaria o trompete.

Se em 2003 a música instrumental ainda ocupa um espaço tímido na noite curitibana, entre os anos 50 e os anos 70, ela fervilhava. Bares como o Olaria e o Bebedouro começaram a adotar o estilo, e foi neles que Saul firmou seu nome tocando "standards", ou seja, temas conhecidos do jazz. Até esse período, Saul era um músico intuitivo, não lia partituras, mas o convívio com músicos como César Camargo Mariano e Victor Assis Brasil foi suficiente para que ele aprimorasse o estilo pessoal e incorporasse elementos de música brasileira às suas apresentações.


A mistura de jazz e samba já era feita desde a bossa nova, nos anos 50, e não foram poucos os músicos - brasileiros e estrangeiros - que realizaram experiências mesclando ambas as vertentes. Foi seguindo essa orientação que Saul ficou conhecido na noite curitibana, o que lhe proporcionou criar o Bar do Saul, em 1983. Durante 12 anos, o estabelecimento funcionou como um reduto da boemia, que acompanhava atenta os temas e improvisos que se estendiam noite adentro.


Inúmeras personalidades da música instrumental brasileira marcaram presença no bar, como Mauro Senise, Arismar do Espírito Santo e muitos outros. Infelizmente as dificuldades inerentes à administração de um estabelecimento noturno foram prejudiciais à saúde do músico, que, acometido de um aneurisma súbito, ficou inativo por 6 meses. O bar fechou suas portas, e Saul esteve à beira da morte.

Prêmio Saul Trumpet
Foi nessa época que o jornalista, radialista e produtor musical Cleverson Garrett tomou a iniciativa de criar o Prêmio Saul Trumpet, dedicado não só a revelar nomes desconhecidos da música paranaense como também homenagear os que estão na praça há mais tempo, como o próprio Saul. O sucesso do prêmio coincidiu com a recuperação do músico, que desde então continua a fazer o que mais gosta: tocar na noite.


Em 2000, Saul se juntou a músicos do calibre de Fernando Montanari e Maurílio Ribeiro e gravou um show no Teatro Antonio Kraide. Foi seu primeiro disco em 40 anos de carreira. Recentemente (2003), Saul reuniu novas composições no CD "Sal Grosso", lançado pela Gravadora Biguá, especializada em artistas paranaenses. O disco reúne samba, xaxado e outros estilos, sempre mesclados ao jazz. A música que dá nome ao disco é uma referência ao lendário bar-restaurante situado no Largo da Ordem. A segunda prensagem do CD terá um texto de apresentação da cantora Leny Andrade, sambista que na opinião de Saul é o grande nome feminino da música brasileira. Além desses dois registros, Saul também possui um disco inédito gravado no bar "Era Só o que Faltava".


Em abril do ano passado, Saul passou por outra dificuldade de saúde: dessa vez, um edema pulmonar quase o tirou de circulação, mas novamente ele se recuperou sem nenhuma sequela. Para ele, que mesmo desenganado duas vezes, superou as enfermidades, viver é aproveitar cada instante, sempre buscando o crescimento pessoal e a interação coletiva. A competição e o consumo desenfreado seriam, segundo Saul, entraves para as pessoas, que estariam envelhecendo mais cedo.

Hábitos simples
Saul se refere com carinho ao "Beto Batata", lugar onde se apresenta nas terças e quintas. O bar, além de ser um centro gastronômico, promove a cultura em suas muitas variantes, como a literatura, a pintura e a música. Apesar de iniciativas como essa, Saul constata que o público curitibano ainda recebe com reservas a produção cultural realizada na cidade. Para o trompetista, Curitiba despreza produções locais de qualidade em favor de trabalhos de fora que, muitas vezes, não estão à altura do que aqui é feito.

Depois de 42 anos tocando de forma quase ininterrupta, Saul chegou à conclusão de que o estilo mais difícil é o samba, em razão da complexidade harmônica e da divisão rítmica. É isso que ele ensina aos seus alunos nas aulas que ministra no Conservatório de MPB. Saul salienta que a música instrumental, justamente por não ter letra, possibilita muitas interpretações, pois dá margem à abstração.
Homem de hábitos simples e de muitos amigos, Saul dedica-se exclusivamente à música, inclusive nas suas horas vagas, ocupadas na audição contínua de discos antigos e lançamentos. Entre os grandes nomes do jazz contemporâneo, Saul cita o pianista cubano Gonzalo Rubalcalba, responsável, ao lado do também pianista Chucho Valdéz, pela renovação do jazz cubano de raízes africanas.

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Pequena Discoteca Básica do Jazz Brasileiro (jcm)
Tamba Trio - Tamba Trio (1962)
Tom Jobim - Jazz Samba Encore! (1963)
João Gilberto e Stan Getz - Getz/Gilberto (1964)
Zimbo Trio - Zimbo Trio (1964)
Alaíde Costa - Alaíde Costa (1965)
Rio 65 Trio - Rio 65 Trio (1965)
Milton Banana Trio - Balançando (1966)
Os Cariocas - Passaporte (1966)
Quarteto Novo - Quarteto Novo (1967)
Elizeth Cardoso & Zimbo Trio & Jacob Do Bandolim - Volumes 1 e 2 (1968)
João Donato - A Bad Donato (1970)
Tom Jobim - Stone Flower (1970)
Baden Powell ‎– Lotus (1971)
Airto Moreira - Free (1972)
Baden Powell - Gravado ao Vivo em Paris (1973)
Deodato - Prelude (1973)
Hermeto Paschoal - A Música Livre de Hermeto Paschoal (1973)
Egberto Gismonti - Academia de Danças (1974)
Flora Purim - Butterfly Dreams (1974)
Raul de Souza - Colors (1975)
Airto Moreira - Identity (1975)
Flora Purim ‎– 500 Miles High (1976)
César Camargo Mariano - São Paulo, Brasil (1977)
Hermeto Paschoal - Slaves Mass (1977)
Egberto Gismonti - Carmo (1977)
Egberto Gismonti - Palhaço (1979)
Toninho Horta - Terra dos Pássaros (1980)
Olmir Stocker - Longe Dos Olhos, Perto Do Coração (1981)
Grupo D'Alma - D'Alma (1981)
Elis Regina - Ao Vivo em Montreux (1982)
César Camargo Mariano, Victor Assis Brasil e Helio Delmiro - Performance (1985)
Zimbo Trio - Zimbo interpreta Milton Nascimento (1986)
Cama de Gato - Cama de Gato (1986)
Nouvelle Cuisine ‎- Nouvelle Cuisine (1988)
Hermeto Paschoal e Grupo - Festa dos Deuses (1992)
Badi Assad - Rhythms (1995)
Pau Brasil - Babel (1995) - com Marluí Miranda


Foto: Munir Bucair Filho
https://www.flickr.com/photos/munirbucair/10803708246/



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