domingo, 31 de maio de 2020

TODOS OS INFINITOS
João Cândido Martins

1
Tive duas experiências teatrais na vida. Numa delas, no Colégio Paranaense, encarnei uma abóbora. Tentei empregar algumas técnicas teatrais de Stanislavski e Artaud, mas minha abóbora só dizia uma frase: "todas as frutas devem ser lavadas antes de serem comidas". Diante dessa limitação, tentei dizer a fala como Charles Bronson faria. Não sei se eu consegui convencer alguém de que eu era um cara durão vestido numa roupa de abóbora, mas tenho a certeza de que nunca antes na história do teatro, uma abóbora foi tão visceral.

O outro papel que interpretei foi o de Deus, ou pra ser mais exato, da voz de Deus. Nesse caso eu também só dizia uma frase: "vocês estão todos condenados". Na hora, eu falei a frase pelo microfone e, em seguida soltei a risada do Orson Welles em O Sombra. O pessoal não gostou muito.

O garoto ao meu lado na foto da abóbora se chamava Cristiano. O cara era um furacão, batia em todo mundo, jogava bola, escalava as árvores mais difíceis, colocava tachinhas e colas nas cadeiras, foi o primeiro garoto da turma a namorar uma menina, sabia jogar baralho e também foi a primeira pessoa que vi colar numa prova.

Um dia brigamos, não lembro o motivo. Provavelmente futebol, pois ele era coxa branca e eu, por influência do meu pai, atleticano. Ficamos sem nos falar um tempo e, como ele era o capitão do time de futebol, fui automaticamente excluído. Sem os amigos habituais, resolvi conhecer melhor o interior do Colégio Paranaense, um prédio majestoso do começo do século XX, que deu origem ao nome do bairro Seminário, no que, à época, era a região sul de Curitiba. Foi caminhando pelos corredores do colégio que conheci a biblioteca, onde por indicação da bibliotecária, pela primeira vez na vida emprestei um livro: "Memórias de um Fusca", do Orígenes Lessa.

2
O colégio era Marista, isto é, católico. Então tínhamos atividades religiosas. Como eu estava andando sozinho pelo colégio e meio sorumbático, fui convidado por um dos religiosos que trabalhavam lá a assistir um ensaio do coral de crianças. Eu nem sabia que o colégio tinha um coral. Fui ver. De cara me apaixonei por uma das meninas que compunham o grupo, eu nunca tinha a visto antes. Eles cantaram alguns temas, mas eu só conseguia contemplar meio embasbacado a menina que tinha uma voz impressionante pra idade.

Entrei no coral e fiquei aguardando o momento certo de abordá-la. Nesse meio tempo, ensaiei com eles três músicas: a versão que Edu Lobo e Ferreira Gullar fizeram para o "Trenzinho do Caipira", de Villa-Lobos (tema que eu usaria como vinheta de um programa sobre MPB que apresentei na Rádio Educativa ali entre 97 e 99); "Bola de Meia-Bola de Gude", da parceria Fernando Brant/Milton Nascimento e o "Hino a Marcelino Champagnat", que era o patrono dos Maristas. Cantamos tanto essas músicas, que cheguei a decorar o Hino.

"Champagnat da juventude
Pai, amigo e professor
Guia sempre nossos passos
No caminho do Senhor"

Por alguma razão, eu trocava "amigo" por "amante" (palavra que eu nem sabia o que significava, mas devo ter lido em alguma notícia criminal). Quando os ensaios acabavam, a menina saía rápido e eu nunca tinha a oportunidade de falar com ela. Até que houve uma excursão ao planetário no Colégio Estadual e a turma dela foi com a nossa no ônibus. Não consegui sentar ao lado dela na condução, mas no planetário, eu me posicionei à sua direita. Ela me olhou e sorriu. Pensei: "que beleza, posso dizer qualquer bobagem que ela não vai ligar, já está na minha".

Falei alguma coisa como "que legal, vamos ver o espaço". Ela me olhou e disse: "Não tem como ver o espaço, ele é infinito, você não sabia?" Fiquei em silêncio sem saber bem o que dizer e soltei "se o infinito fosse uma coisa, eu te dava de presente". Ela riu e respondeu: "então você está com um problema, porque eu quero todos os infinitos". A luz estava prestes a apagar e alguém a chamou pra sentar numa cadeira lá do outro lado. Ela levantou e foi. Quem chamava era Cristiano. Sempre ele.

3
Estávamos no dia 16 de abril. O professor José Luis que apresentava o Planetário (e que eu reencontraria anos depois no Colégio Militar) perguntou se alguém fazia aniversário naquele dia e eu levantei a mão timidamente. "Em que ano você nasceu?", perguntou ele. Respondi que em 1973, então ele regulou os aparelhos para mostrarem como foi a noite de 16 de abril daquele ano. O céu (a representação do céu na abóbada do planetário) foi quase que preenchido por riscos luminosos rápidos. O professor explicou que naquele dia perdido em 73, houve uma intensa chuva de meteoros que provinham de vários pontos do universo. Um fenômeno que acontece a cada sei lá quantos mil anos. "Você foi um privilegiado", comentou o astrônomo.

Quando saímos do prédio do Planetário, resolvi fazer um xixi atrás do ônibus, coisa de criança. Estava ali tranquilamente quando senti que alguém segurava meu braço com força. Era Cristiano. Ele perguntou com raiva: "Acho que você tá querendo chegar na minha namorada". Ele era um pouco mais alto que eu, mas não era muito encorpado. Respirei fundo, fiquei de frente pra ele e apliquei, sem aviso e sem chance de defesa, uma joelhada no meio das suas pernas. Ele se encolheu de dor e caiu agachado no chão.

"Você me machucou, seu babaca", disse Cristiano.

Olhei pra ele e respondi: "Machuquei e vou machucar mais se você encostar em mim de novo. Entendeu?"

Ele não disse nada em resposta. Perguntei mais uma vez em tom agressivo: "Entendeu?" E ele confirmou com a cabeça em silêncio enquanto gemia de dor. Foi minha melhor atuação Charles Bronson.

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A risada do Sombra (Orson Welles)
https://www.youtube.com/watch?v=jeTMTgIQ1_U

Trenzinho do Caipira (Heitor Villa-Lobos, adaptada por Edu Lobo e com letra de Ferreira Gullar)
https://www.youtube.com/watch?v=1YTBQoMc21Y

Bola de meia, bola de gude (Milton Nascimento/Fernando Brant) com Milton
https://www.youtube.com/watch?v=e3PjezpcDoU






 

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