domingo, 31 de maio de 2020

O OLHO
João Cândido Martins

1
Jairo é bem mais jovem que eu, fala pouco, é inteligente, confiável, atira bem e eu gosto de estar em sua companhia. Essas são as razões pelas quais temos uma parceria de mais de 8 anos matando gente por todo o Brasil. Serviços limpos e rápidos. Jairo mantém uma lista escondida com os nomes de todas as vítimas. Eu já perdi a conta. Nunca me interessei em saber quem eram aquelas pessoas. Estávamos em maio de 2030 e eu, após 57 anos de uma vida errática e repleta de fracassos profissionais, só queria o dinheiro.

O opala verde de Jairo foi lavado na tarde daquele sábado. Era um daqueles carros usados por presidentes nos anos 1980, mas pintado em tom verde-musgo. Tínhamos um encontro com um empresário que havia feito uma encomenda. O empresário morava no bairro Alto da XV, mas pediu que fôssemos a um escritório no centro de Curitiba para passar as coordenadas.

No escritório encontramos o empresário que estava acompanhado por um homem engravatado e um jovem de, no máximo, 20 e poucos anos. O empresário explicou que o jovem, seu filho, fora assaltado por dois bandidos há uns meses. Os caras torturaram o rapaz e arrancaram sua orelha esquerda. Ele tinha informações sobre os bandidos e queria que nós fôssemos lá resolver o problema. Prometeu R$ 5 mil por cabeça e adiantou metade ali na hora, em cash.

Estava tudo certo, mas havia uma condição. O filho do empresário teria de ir junto. Tentei argumentar que eu e Jairo só trabalhávamos sozinhos, mas nada o demoveu. Ele queria que o filho assistisse à morte de seus algozes. Sem alternativa, concordamos. O engravatado, que até aquele momento permanecera em silêncio, disse que os bandidos se chamavam M.O. e T.P. e que eles estariam naquela noite num lugar chamado Sunlight Dance Club, no caminho de Piraquara. Com os R$ 5 mil do adiantamento no bolso, lá fomos, acompanhados pelo filho do empresário, de nome Flávio.

2
“Dá pra fumar aqui?”, perguntou Flávio ao entrar no carro.

“Sim, sem problema”, respondeu Jairo.

Flávio reclamou do cheiro do carro, da música no rádio, da demora no trajeto. Em certo momento, cansado daquilo, eu disse:

“Flávio, a viagem vai durar o tempo que for necessário. O combinado foi que você iria reconhecer os caras. Não precisamos conversar daqui até lá.”

Ele ficou quieto e uns 15 minutos depois, chegamos ao Sunlight Dance Club. Como era de se esperar, tratava-se de um puteiro de beira de estrada. O nome do local estava escrito em neon vermelho, com a iluminação de algumas letras falhando. Entramos.

Um globo espelhado pendia no centro do salão principal. Àquela hora havia umas poucas pessoas assistindo aos shows de strip-tease que as prostitutas faziam num pequeno palco. Pedimos cerveja e amendoins. O locutor da casa anunciou Marla Flores que dançaria Purple Rain, do Prince. Nunca paguei uma mulher para ter sexo. Conheci muito pouco da realidade das prostitutas, mas sempre as respeitei. Uma lista de todas as prostitutas que conheci durante a vida começou a aparecer em minha mente.

Meus pensamentos foram interrompidos quando percebi que Flávio voltou a se soltar, rir alto, fazer piadas. Aquilo era um problema, pois tínhamos de ser discretos. A qualquer momento os alvos poderiam chegar. Flávio pediu uma vodca e bebeu com rapidez. Lembrei a ele que estávamos ali para cumprir uma missão.

“Olha, seu João” disse ele, “eu entendo seu ponto, mas quem está a serviço são vocês dois. Eu só tô passeando. Enquanto aqueles caras não chegarem, vou me divertir.”

Antes que eu pudesse contra-argumentar, ele chamou o garçom e pediu a bebida mais forte que tivesse no estoque. O garçom retornou com uma cachaça que foi entornada por Flávio quase de um gole só. “É isso que você chama de bebida mais forte? Você tá de brincadeira? Traz aí a pancada mais violenta que você tiver.”

O garçom ficou olhando em silêncio por alguns segundos, até que deu um sorriso e disse que já voltava. Quando retornou, trouxe uma garrafa com o vidro todo retorcido contendo uma bebida de cor avermelhada.

“O que é isso?”, perguntou Flávio.

O garçom explicou que era uma cachaça feita por um ermitão que morava na Serra do Mar. “Ela é bem potente”, disse ele.

Flávio estava abrindo a garrafa quando Jairo o impediu:

“Espera, tem alguma coisa no fundo.”

De fato havia. Pairando no fundo da garrafa estava um olho com veias desprendendo-se dele.

“Que porra é essa?”, perguntou Flávio ao garçom, que, sorrindo, respondeu ser normal.

“Prática comum entre os índios. Deve ser um olho de galinha, não mata ninguém. É só beber. Meu amigo T.P., que vem hoje aqui, bebe direto.”

Ao ouvir isso, todos redobramos a atenção, pois T.P. era um dos nossos alvos. Flávio encheu seu copo com a cachaça vermelha, seguido por Jairo que também quis experimentar. Eu recusei. Aquele olho me dava náuseas. Eles beberam avidamente e elogiaram a bebida. No palco, Shirley Vox se despia ao som de um tango misturado com dance music.

3
“São eles”, disse Flávio, que se esgueirou em direção à porta de saída. Os dois sujeitos pareciam desarmados. Conversaram com o garçom que apontou para a nossa mesa. Eles vieram em nossa direção. Pediram licença para trocar uma ideia sobre a tal cachaça vermelha. Concordamos. Eles se sentaram e, ato contínuo, disparamos vários tiros contra os dois marginais, provocando o estrondo habitual. Houve confusão, gritos, fumaça, cheiro de pólvora e sangue. Um dos alvos ainda estava sentado na cadeira com a cabeça pendendo para baixo. Com o pé, Jairo derrubou a cadeira e o corpo no chão.

Quando eu ia dizer para irmos embora, Jairo tombou com uma forte dor abdominal. A primeira coisa que pensei foi na tal bebida, em algum efeito que ela pudesse causar. Rapidamente me aproximei dele e disse “eu te ajudo”. As convulsões diminuíram por um breve instante. Ele me olhou com os olhos parados e disse com uma voz estranha, vinda do fundo da garganta:

“João, fuja. Eu já morri. Eu estou morto.”

“Fique quieto e se apoie em mim, temos de ir embora”, insisti.

Nesse instante, uma das dançarinas se aproximou. Havia algo de sinistro nos seus olhos e a sua voz soou oca, como que vinda de algum lugar perdido no inferno. Ela não mexia a boca. O som da sua voz não vinha de fora. As palavras pareciam se formar dentro da minha cabeça.

“Você não bebeu”, ela disse, “nós não queremos você. Vá embora enquanto pode.”

Peguei a chave do carro no bolso da jaqueta de Jairo e saí correndo pela estreita escada que dava para o estacionamento. Do lado de fora do Sunlight Dance Club, Flávio estava ajoelhado olhando para cima, como se estivesse falando com alguém. Mas não havia nada à sua frente. Entrei no opala, engatei a primeira e tomei a direção de Curitiba sob forte chuva.



Sem comentários:

Publicar um comentário