domingo, 31 de maio de 2020

LÍTIO
João Cândido Martins

abril de 2014

00h14
Minha mulher está dormindo. Eu, ao contrário, estou sem sono, pois fiquei sem um dos meus remédios reguladores de comportamento. Uso três: lítio, torval e rispiridona. Motivos alheios à essa narrativa geraram a necessidade de que eu os ingerisse diariamente, e assim o faço, sob supervisão médica, há algum tempo. A ideia era que os remédios me ajudassem a não explodir. De início se mostraram bem eficazes, mas com o tempo, percebi que se eu ficasse sem um deles por algum tempo sofria efeitos péssimos. Depois do quinto dia sem torval, por exemplo, eu sentia vontade de vomitar.

E é essa a situação no momento: fiquei sem o remédio e esqueci de comprar mais. Não quero sofrer com a abstinência. Resolvo, sem reflexão alguma, que vou tomar dois comprimidos de lítio para compensar a ausência do torval. Engulo as pílulas e bebo água para que elas desçam com mais facilidade pela garganta. Sento numa das banquetas da cozinha e acendo um cigarro para esperar a chegada do sono.

01h32
Moramos numa das esquinas que cruzam a Avenida Visconde de Guarapuava no centro de Curitiba, possivelmente um dos cruzamentos mais movimentados da região em termos de fluxo viário. Aqui o barulho de veículos só é interrompido lá pelas 4:30, 5 horas da manhã. Mesmo nesses horários perdidos da madrugada, o vazio é eventualmente cortado pelo grito de um bêbado ou por um casal que passa brigando.Depois, tudo volta com força e, às sete da manhã, o alvoroço que emana da rua já está configurado e chega tranquilamente aos últimos andares.

É muito diferente dos bairros, onde há locais em que o silêncio da noite só é entrecortado ao fundo pelo som distante de um motor de caminhão passando com lentidão por alguma estrada. Ou por alguma ave de hábitos noturnos. Não que não existam aves no centro: eu mesmo já tive contato visual com várias, tanto à noite quanto de dia. Bandos em revoada sempre tomam o caminho do Passeio Público. Acho que moram lá.

3h12
Uma batida de carros no cruzamento entre a Visconde e a Mariano Torres toma minha atenção. As pessoas andam e conversam de forma calma e pacífica, mas é perceptível que todos estão tensos, como não podia deixar de ser. Essas situações sempre são constrangedoras para todos os lados envolvidos, mas principalmente, claro, para o responsável pela batida, que é a pessoa que deve arcar com os prejuízos. Ninguém quer estar nessa posição. Eu já estive três vezes.

Sinto algo estranho no estômago. Não é nada ruim, pelo contrário, a sensação é a de que alguém está calmamente massageando minha região abdominal. Acendo outro cigarro e fico sentado na cozinha me deleitando com a novidade.

04h53
É o lítio. Ele está me provocando essas reações estranhas. Agora sinto como se meu corpo inteiro estivesse sendo abraçado. Ando pela cozinha, conto os azulejos, perambulo pela internet, acendo outro cigarro. Como eu previa, neste horário não há nenhum som vindo da rua. É necessário desfrutar o momento. Vou até a janela e vislumbro a lua cheia gigantesca e de um amarelo intenso se pondo atrás dos prédios gêmeos da Rua Francisco Torres.

Quantas milhares de pessoas tomam remédios diariamente como eu? Quanto elas gastam com esses remédios? É possível consumi-los sem viciar? Sentado na banqueta, encosto meu corpo na parede e sinto que estou afundando. É a mesma sensação que teve o escritor Carlos Castañeda na casa do índio Don Juan, após ingerir a erva do diabo.

Lembro subitamente que está marcado para esta manhã meu exame de revalidação da carteira de motorista. Não posso faltar. Preciso não dormir.

06h15
“Você não dormiu?”, pergunta minha mulher.

“Não. O torval acabou há uns dias e eu tomei dois lítios pra compensar.”

“Cara, mas que absurdo, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tomar dois remédios não vai compensar a falta de outro”, disse ela. “Tô pasma com você, João. Às vezes você parece criança. Como você tá se sentindo agora?”

“Tô bem”, respondi com sinceridade. Realmente eu me sentia mais confortável.

“Mas você não tem que tomar outro lítio pela manhã?”

“Bom, eu tomei dois ontem...”

“Sei lá, é com você”, disse ela indo tomar banho.

Depois que ela sai para o trabalho, tomo mais um lítio, por precaução.

07h43
Estou dentro de um táxi indo para o Detran, com o intuito de prestar um exame de direção. Estou sob o efeito de três pílulas de lítio, mas tenho certeza que vou desempenhar uma direção controlada, consciente. Convicta da própria razoabilidade. O motorista do táxi está escutando uma rádio com músicas neo-sertanejas, mas meu cérebro distorce as melodias, convertendo-as em outras mais ao meu agrado. A porta do carro possui uma textura muito aconchegante ao tato. Vejo as pessoas andando nas ruas e sinto vontade de abraçá-las. Chegamos. Pago a corrida e desço um tanto cambaleante, mas consigo firmar o corpo e sigo andando em direção à recepção. Na minha cabeça, ouço uma suíte do Pink Floyd.

08h30
Vou fazer o teste junto a uma mulher de nome Andreia. É a quinta vez que ela tenta tirar a carteira. Nervosa, ela me pede que dirija antes. Concordo com um sorriso lânguido. O avaliador é muito tranquilo, parece gente boa. Nós nos instalamos no veículo e ele começa a dizer as ruas pelas quais eu devo dirigir. No banco de trás, Andreia assiste meu teste em silêncio. Cada movimento que executo foi mecanicamente ensaiado por anos. Eu sei o que estou fazendo. Mas a sensação é que estou pilotando uma nave espacial. No final, só faltou eu ligar a seta para a direita na hora de estacionar. Tirando isso, meu teste foi perfeito. Desço do carro e cedo o lugar a Andreia.

08h55
Ela já começou mal porque não colocou o cinto de segurança. O carro morreu na primeira tentativa e, na segunda, teve um pequeno solavanco quando ela trocou de marcha. Nas ruas calmas Andreia até ia bem, mas a situação complicava quando ela tinha de enfrentar cruzamentos mais perigosos ou situações inusitadas. O teste estava indo para o final quando o avaliador pediu a ela que virasse numa descida meio íngreme.

No meio do trajeto, ela perdeu o controle do carro, sei lá o que aconteceu, e começamos a ir de forma descontrolada em direção a um caminhão que saía de um estacionamento. Eu estava no banco de trás e pensei que havia tido um filho, mas não havia plantado nenhuma árvore, nem escrito nenhum livro. O avaliador conseguiu controlar o veículo e o carro parou a poucos metros do caminhão. Ficamos os três em silêncio durante alguns segundos até que o avaliador disse:

“Vamos voltar.”

Quando chegamos, Andreia, que acabou sendo novamente reprovada no teste, tirou um remédio da bolsa e ingeriu num bebedouro. Perguntei o que era e ela respondeu:
“lítio.”

12h23
Estou deitado, finalmente. Não almocei, estou sem fome. E ainda sem sono. Não sei se algum dia vou sentir sono de novo. Não sei se quero dormir. Por mim, tomaria toda a caixa de lítio e todos os remédios reguladores do mundo, todos ao mesmo tempo. Depois me sentaria em frente a uma lareira lembrando cenas da minha primeira infância.

O forno à lenha na cozinha. Os pinhões dispostos aleatoriamente sobre a chapa de metal. O calor. Calor nas entranhas. Olhos fechados. Areia movediça. Meu corpo sendo sugado. Agarro-me a um cipó e tento sair dali, mas o esforço é inútil e sou tragado pelo buraco. Sinto que estou sendo mastigado e ingerido. Apago.



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