terça-feira, 26 de maio de 2020

ASTOR PIAZZOLLA EM CURITIBA (1986)
João Cândido Martins


Devo tudo aos meus pais. Minha vida, quem eu sou, como lido com as coisas do mundo, tudo. Um dos melhores presentes que recebi deles foi no meu aniversário de 13 anos, em 16 de abril de 1986. Eles me puseram no carro e não deram maiores informações sobre onde íamos. Achei que fosse em alguma festa ou coisa assim. Meu pai estacionou nas imediações da Praça Santos Andrade e, de repente, ficou claro pra mim que estávamos indo ao Teatro Guaíra. Quando chegamos na entrada do teatro, li num cartaz que a atração da noite era um músico de nome Astor Piazzolla.

Minha mãe me explicou que era um artista argentino que tocava bandoneon, um primo não muito distante da sanfona. Eu conhecia Piazzolla de nome, pois era autor da "Balada do Louco", que foi gravada numa versão em português pelo Moacyr Franco e que estava numa coletânea de artistas brasileiros populares dos anos 70. Na verdade era a única música daquele disco que me chamava a atenção.


A apresentação iria começar às 21 horas, mas ninguém impediu minha entrada. A comunidade argentina em Curitiba deve ter comparecido em peso, pois em todas as rodas de conversa no hall do teatro falava-se espanhol. Três anos antes, meus pais haviam me levado ali mesmo no Guaíra na apresentação do músico Toquinho, que estava lançando o disco "Aquarela". Mas o Toquinho eu conhecia bem. Já o Piazzolla era um mistério pra mim, eu não tinha uma ideia muito clara do que iria ouvir.


Quando o bandoneonista entrou no palco, foi aplaudido de pé. Estava acompanhado por um quinteto. O show foi enérgico e lírico ao mesmo tempo. Momentos reflexivos se alternavam com fraseados monumentais. Foi acachapante. Minha experiência anterior com o tango se limitava a ter ouvido um ou outro clássico do Carlos Gardel e os tangos que o Nelson Gonçalves gravou (Vermelho 27, Hoje quem paga sou eu, etc). Mas Piazzolla era outra história. Graças aos meus pais, tive a oportunidade de, aos 13 anos, assistir ao vivo um gênio do século XX executando uma das músicas mais sofisticadas do mundo.


Não lembro se foi na saída ou na entrada, mas os organizadores do show distribuíram um libreto com muitas imagens de Piazzolla e com textos sobre ele, sobre as músicas que foram tocadas no show, sobre o quinteto, sobre sua discografia e outras informações. A foto mostra a capa e a contra-capa do documento, que conservo até hoje. 




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