domingo, 31 de maio de 2020

NINGUÉM
João Cândido Martins

1
Os fatos que vou narrar se deram em 1995, mas por uma questão de segurança, prefiro omitir nomes e detalhes para evitar constrangimentos. Tudo aconteceu numa delegacia policial, em Curitiba. Eu tinha 22 anos e havia passado no concurso para escrivão da Polícia Civil. Era praticamente meu primeiro emprego. Antes disso, já havia trabalhado como pesquisador do Censo, em 1990. Quanto a ser policial, não creio que tivesse algum tipo de vocação, apesar de haver sofrido alguma influência de meu pai, que foi escrivão e delegado. Para mim, atuar como escrivão de polícia era uma atividade burocrática como outra qualquer, com a diferença de que eles forneciam um revólver. Sempre fui avesso a armas, nunca cheguei sequer a manipular o revólver que me foi emprestado para uso em serviço. Quando saí da Polícia, devolvi a arma intacta.

Há outra diferença entre ser policial e as outras profissões: o plantão 24 horas. Em certos dias, as situações que surgem nesses plantões são inacreditáveis. Mas há outros em que nada acontece e você passa horas numa expectativa irrealizada que redunda em fadiga. Era nisso que eu pensava dentro do ônibus ao ir para o distrito naquela noite gelada. Dado estatístico: quanto mais frio, menos crimes. E aquela noite estava realmente muito fria, mesmo levando-se em conta os padrões curitibanos. Vento incessante e garoa encorpada.

A sensação de frio triplicou quando eu desci do ônibus. Andei tremendo por três quadras até chegar à delegacia que, à época, funcionava temporariamente numa casa alugada perto do Terminal do Cabral. O imóvel não foi pensado para ser uma delegacia, portanto não tinha nenhum cômodo que pudesse servir como cela. Não era possível prender ninguém. Presos em flagrante eram encaminhados para outras delegacias. Cada plantão era realizado por uma equipe diferente. Pessoalmente eu não tinha preferências, mas claro que algumas companhias me agradavam mais. Naquela noite estavam a delegada Denise (nome fictício, aliás, todos os nomes nesse texto são fictícios); os agentes Roberto e Antônio (veteranos) e o agente Sérgio (novato como eu). Entrei e me deparei com Sérgio, que assistia à TV.

“Aconteceu alguma coisa enquanto estive fora?”, perguntei.
“Não, tudo tranquilo”, respondeu Sérgio. “O pessoal vai pedir uma pizza. Você quer participar da divisão?”
Concordei e fui até a sala destinada aos escrivães de plantão. Ela havia sido recentemente pintada. A máquina de datilografar era uma Remington antiga, parecida com a do meu pai. A primeira coisa que pensei foi que eu não queria dormir naquele lugar cheirando a tinta. Resolvi ocupar o sofá da sala principal, maior, mais confortável e mais próximo do grande aquecedor ligado na sala lateral. Agora Sérgio estava acompanhado por Roberto e Antônio, que contavam histórias da velha guarda. Crimes não solucionados, tiroteios, perseguições em alta velocidade.

“Aquilo era polícia, todo mundo respeitava”, disse Roberto. “Tinha dinheiro, tinha investimento na polícia. Hoje é tudo sucateado”, completou Antônio.

Os dois ficaram um breve instante em silêncio até que Antônio continuou: “Sem falar na liberdade de ação. Não tinha essa coisa de direitos humanos. Eu queria saber quem foi o maluco que inventou isso.”

A delegada Denise entrou na sala já respondendo à pergunta de Antônio: “Os direitos humanos existem pra evitar os excessos. A polícia não pode ter poderes absolutos.”

“Com todo respeito, mas a senhora diz isso”, retorquiu Roberto, “porque não foi delegada lá por 1977, 78.” A conversa foi interrompida pela chegada da pizza.

2
Era necessário que um de nós ficasse acordado durante a noite, mesmo que não acontecesse nada. Sérgio foi o escolhido. Doutora Denise me autorizou a usar o sofá da sala principal. Só queria apagar por umas horas debaixo de um cobertor que eu tinha levado. Creio que meu sono foi automático porque não me lembro de ser envolvido por pensamentos. Exatamente às 4 da manhã, acordei com frio. Fui até a sala lateral e Sérgio dormia sentado no sofá com a televisão ligada num canal que já estava fora do ar. Desliguei o aparelho. Em princípio eu deveria acordá-lo, mas resolvi deixar o coitado dormir mais um pouco.

Em frente à janela da entrada, acendi um cigarro e fiquei observando a geada se formar. Já se disse que às 4 da manhã a noite é mais escura. Lembrei-me da conversa que tivemos antes da pizza e raciocinei que uma parte dos policiais, que atuava antes da Constituição de 1988 deveria, de fato, estar enfrentando dificuldades com os novos tempos. O próprio Roberto comentou, certa vez, que ficava incomodado com a impossibilidade de revistar mulheres. “Eu estou revistando a mulher, não estou apalpando como um tarado”, dizia ele.
Mas os tempos haviam mudado e eles teriam de se acostumar.

Meu olhar foi ofuscado pela luz de um automóvel que estacionou em frente à delegacia. Era a Polícia Militar e, com certeza, trazia alguma ocorrência. Os policiais retiraram do carro um indivíduo algemado e visivelmente agitado. Abri a porta e me espantei com a altura do preso. Os militares disseram que ele estava alcoolizado e fazendo arruaça nas imediações. Respondi que não tínhamos como prendê-lo na casa. No rádio do carro, outra ocorrência exigia a atenção dos policiais militares. Um deles pediu para falar com a delegada.

Doutora Denise estava dormindo. Bati na porta algumas vezes até que a luz acendeu. Expliquei o que estava acontecendo e fomos para a sala, mas os militares já não estavam mais lá. Entretanto, deixaram o preso desalgemado sob a guarda de Sérgio. De repente, ele começou a se debater com raiva, sendo contido por Roberto, Antônio e Sérgio. Foi difícil imobilizá-lo, mas aos poucos sua respiração regularizou e ele ficou aparentemente mais calmo.

A delegada se aproximou e perguntou seu nome. Nesse momento, o preso fez a última coisa que deveria ter feito: disse “puta”. Ela levou alguns segundos para entender e acreditar que estava ouvindo aquilo, mas ele repetiu a palavra várias vezes. Denise estava agachada. Calmamente se levantou e, olhando para mim, disse:

“João, vamos fazer um auto de prisão em flagrante desse cara por desacato à autoridade.” Concordei e fomos para a sala dos escrivães.

3
O preso não forneceu nenhum dado concreto sobre si. Também não portava carteira de identidade. Não respondeu nenhuma pergunta que a delegada lhe fez. Quando lhe dei os documentos para que assinasse, rasgou os papéis. Naquele momento, estávamos a sós com ele. A delegada chamou por Roberto e, de forma inesperada, o preso se atirou sobre ela envolvendo seu pescoço com as mãos (cometemos o erro de deixá-lo sem algemas).

Novamente foi necessária a força de Roberto, Antônio e Sérgio para conter o sujeito que, a esta altura, urrava como um animal raivoso. Eu e Sérgio permanecemos cuidando da delegada enquanto Roberto e Antônio levaram o preso para outro compartimento da casa. Quando ela se recuperou, fomos ver onde eles estavam.

“Cadê o preso?”, perguntou a delegada a Roberto e Antônio. Rindo, Roberto respondeu que agora o preso iria ficar calmo.

“Como assim, Roberto? Onde ele está?”, perguntou novamente Denise.

“A gente colocou o preso no porãozinho que fica embaixo da escada que vai pro primeiro andar. É onde a servente guarda os produtos de limpeza”, indicou Roberto.

Denise ficou vermelha e começou a gritar: “Vocês são loucos? Esse espaço é minúsculo! Nós podemos ser presos se souberem disso. Tirem o preso daí agora. Agora! Eu estou mandando!”

Nesse instante o preso começou a chutar a portinhola do porãozinho por dentro. Sua fúria era imensa e os chutes cada vez mais fortes. Ficamos paralisados vendo a cena sem saber o que fazer. Lascas de madeira voavam a cada pancada, até que a porta cedeu e os golpes cessaram. Ficamos esperando o preso sair do cubículo, mas Roberto escancarou a portinhola e não havia nada dentro do pequeno espaço. Ninguém.



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