sábado, 30 de maio de 2020

LANDAU
João Cândido Martins

1
Festa das Quatro Balanças. Esse era o nome do evento promovido pelos diretórios acadêmicos das quatro faculdades de Direito em Curitiba, nos anos 1990. Eram festas bem concorridas. Lembro especificamente dessa, em que umas mil pessoas se reuniram naquele salão, no bairro Santa Cândida. Salvo engano, foi em março de 1994, um pouco antes de eu completar 21 anos. A ideia era reunir acadêmicos de Direito da Universidade Federal, da PUC, da Faculdade Curitiba e da Faculdade Tuiuti. Meu principal objetivo era conquistar uma colega de sala de nome Lara, mas a garota era muito assediada, estava sempre na companhia de amigos. Ela tinha uma beleza desconcertante.

Chegamos a conversar rapidamente à uma da manhã. Elogiei seu vestido, contei vantagens, toquei sua mão enquanto falava. Apesar disso, não consegui beijá-la. Em dado momento ela disse que ia fazer alguma coisa e já voltava, mas eu tinha consciência de que ela não retornaria. Fiquei encostado na parede com uma lata de cerveja meio quente numa mão e um cigarro apagado na outra. Resolvi passear pelo ambiente. Em alguns pontos o lugar estava intransitável.

Conversei com alguns amigos, tomei mais uma cerveja e fumei mais um cigarro. De longe, vi que Lara conversava com um rapaz que eu conhecia da PUC. Aquilo me deixou chateado e resolvi que era o momento de ir embora. Mas, para isso, eu precisaria arranjar carona até o centro, o que era difícil naquele momento da festa. Peguei mais uma cerveja e fiquei parado numa espécie de hall do grande salão. O espaço estava semi-iluminado e praticamente vazio. Quando eu ia acender outro cigarro, fui abordado por um cara que pediu fogo. Acendi meu cigarro e passei a ele o isqueiro. Alguém acendeu a luz do hall iluminando nossos rostos e o cara, ao devolver o isqueiro, disse:

“Martins? João Martins?”

Martins era meu nome de guerra no Colégio Militar. Olhei para ele e o reconheci no ato. Era Frederico, um ex-colega daquele período. Frederico das risadas maliciosas, das insubordinações contra o formalismo militar. Ele parecia estar numa constante busca pelo que é justo. Ao mesmo tempo era dono de um espírito feroz e raivoso, o que tornava seus atos confusos. Depois do Colégio Militar, a última notícia que tive a seu respeito foi que ele teria enfrentado problemas com a polícia, mas eu nunca soube os detalhes.

Agora ali estava, cheio de fios de cabelo branco. Perguntou de mim, ficou entusiasmado com nosso encontro casual.

“Pô Martins, quanto tempo, você não mudou quase nada.”

Falamos de banalidades por alguns instantes até que ele disse que iria a outra festa no outro lado da cidade, na Vila Hauer.

“Quer ir junto?”, perguntou ele.

A ideia chegou a me animar, mas quando pensei em mim mesmo morrendo de sono às sete da manhã no terminal de ônibus da Vila Hauer, resolvi ir direto para casa. Perguntei se ele poderia me dar uma carona até o centro.
“Claro, Martins. Eu te levo”.

No caminho até o estacionamento, falou sobre seu veículo.
“Você já andou num Landau? Tem detalhes em jacarandá na parte interna das portas e no painel”, mostrou-me orgulhoso quando chegamos.“Esse Landau é uma peça de colecionador. Isso que é carro, não essas latas que vendem hoje.”

Frederico falava do carro como se referisse a um filho. Fiquei até meio sem jeito de pedir para fumar ali, mas como ele acendeu um cigarro, também acendi um. Quando ele estava prestes a engatar a ré para sairmos, o carro foi cercado por uns sujeitos que falavam todos ao mesmo tempo.
Um deles parou ao lado da janela de Frederico. Segurando uma corrente de ferro, perguntou: “Vocês são um casal de bonecas? Desçam do carro, agora.”

Frederico abriu a porta já com um revólver 38 na mão e atirou nos pés do sujeito, que caiu gritando de dor. Os demais se afastaram imediatamente enquanto Frederico apontava a arma para cada um deles. Quando retornou ao carro ele disse:

“Cara, detesto esses nazistas.”

2
Nem chegamos a comentar o episódio. Frederico queria falar sobre o passado. Enquanto evocava os nomes de antigos colegas do Colégio Militar como se os tivesse visto no dia anterior, ele acelerava cada vez mais seu Landau. Estávamos na via rápida que liga Santa Cândida ao centro, ou seja, havia muitas possibilidades de ele testar seu carro até o limite, e foi o que fez. Em certos momentos chegamos a 120 km por hora. Naquele tempo não havia radares ou câmeras. Achei que iríamos voar para fora da pista. Não reclamei. O carro era dele, eu só estava de carona. De qualquer forma me senti aliviado quando Frederico estacionou na Praça Tiradentes. O local estava vazio.

“Martins, muito legal te ver. Não quer mesmo ir à Vila Hauer? Tá cheio de mulher lá, cara, eu já fui nessa festa umas três vezes”, voltou a convidar.

Agradeci e disse que estava cansado. Trocamos telefones e ele se foi. Andei em direção ao meu ponto de ônibus. O silêncio só era cortado por uma buzina distante ou pelo barulho de algum ônibus passando nas proximidades. Acendi um cigarro e fiquei imaginando quantas milhares de pessoas transitaram por aquela praça desde a fundação de Curitiba. E naquele momento ela era exclusivamente minha. Nem um transeunte, nem táxis, nada. Nem mesmo vento. Foi quando um carro parou em frente ao ponto onde eu aguardava meu ônibus madrugueiro.

“Com licença, você pode ajudar?”, perguntou uma moça loira de rosto bonito.
Apaguei o cigarro e me aproximei. Ela estava sentada na parte da frente do carro. Só depois percebi que no banco de trás havia dois caras. Comecei a achar a situação suspeita.

“Sabe o que acontece...”, ela disse com cautela.

No mesmo instante, o rapaz do banco traseiro apontou alguma coisa em minha direção. Só tive tempo de pensar em como fui idiota, mas do objeto saiu apenas uma espuma branca e densa que me envolveu. Era um extintor de incêndio.

Não cheguei sequer a xingá-los, pois o carro arrancou com seus ocupantes às gargalhadas. Limpei minha roupa, encostei novamente no ponto de ônibus e acendi outro cigarro. Estava agradecido por estar vivo. Ainda havia meia hora até o ônibus chegar. Prometi a mim mesmo que quando fosse rico teria um Landau. 



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