terça-feira, 26 de maio de 2020

A LOCOMOTIVA
João Cândido Martins

Agora à noite eu estava mostrando uns discos pro meu filho, Henrique, que vai fazer 4 anos essa semana. Em certo momento, ele me perguntou se todos aqueles discos eram meus. Respondi que sim, que eram meus e dele. Meu filho me olhou surpreso e depois olhou em volta, como se uma ficha de repente tivesse caído. "É tudo do papai e do Henrique?". Confirmei, temendo que ele quisesse olhar disco por disco (ficaríamos até amanhã fazendo isso).

"O que mais é do Henrique?", indagou ele com curiosidade. Eu o segurei pela mão e o conduzi até um armário que fica na sala de entrada da casa, onde guardo alguns objetos de família. Abri a porta de vidro do móvel e retirei do seu interior uma antiga miniatura de locomotiva, modelo "Matchbox" feita em ferro. Embaixo dela está escrito Made in England - 1978. Lembro que foi um presente de meu pai, que no final dos anos 70 trabalhou em cidades do interior do Paraná e, sempre que vinha pra casa, me trazia alguma coisa, por menor que fosse. De todos os carrinhos Matchbox que tive, esse foi o único que não deteriorou com os anos. Não ficou sujo, não enferrujou. Ele parece praticamente novo. E não foi por falta de uso, porque era um dos meus brinquedos preferidos.


Meu filho olhou a locomotiva e seus olhos brilharam. Ele a observou atentamente por uns instantes e depois brincou com ela. Expliquei a ele que era uma locomotiva a vapor e ele ficou repetindo "a vapor" por vários minutos, enquanto a fazia rodar por sobre os móveis. Mas crianças de 4 anos não prendem sua atenção por muito tempo em nada. Na sequência, ele já estava vendo uns vídeos da Turma da Mônica no Youtube e achei que tivesse esquecido o brinquedo.


Mais tarde, já na hora de dormir, ele me pediu pra ler uma história, como sempre faço. Peguei o livro e, ao voltar, percebi que ele segurava algo. Era a locomotiva. Perguntou se podia dormir com ela. Respondi que sim.





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