sábado, 30 de maio de 2020

CACHORRO DO CENTRO
João Cândido Martins

Milo era o cachorro mais velho entre os que habitavam o entorno do Mercado Municipal de Curitiba. Era comum que os cães mais jovens se reunissem à sua volta para ouvir histórias de outras épocas.

“Milo, conte novamente a história de Zig”. O velho cão se empertigava, consciente da seriedade dos fatos que passaria a relatar.

“Zig nasceu numa noite chuvosa embaixo da proteção da porta principal da Biblioteca Pública. Foram, ao todo, cinco filhotes. A mãe morreu no parto e uma outra cachorra de rua adotou os meninos. Zig aprendeu todos os truques e malícias da vida de um cachorro de rua no centro de Curitiba. Naquele tempo havia muitos cães. Hoje, com a política da prefeitura, somos poucos os que vagueiam por aí, mas à época de Zig havia verdadeiras matilhas”.

“Milo, e o incidente?”, perguntou um dos jovens cães que ouvia a história.

“Já chego lá”, respondeu o cachorro velho. “Antes, é necessário dizer que Zig em sua juventude fez fama como lutador e como conquistador de jovens cadelinhas, realmente era algo impressionante.”

Outro cãozinho perguntou:

“Você o conheceu pessoalmente?”

“Se eu o conheci? Praticamente formávamos uma dupla, íamos juntos a todos os lugares. Foram muitas lutas, muitas fêmeas, muitas sobras de restaurante no cotidiano das madrugadas. Mas eu não estava junto quando as coisas se precipitaram no Mercado. Não lembro exatamente o que eu estava fazendo, mas por alguma razão, naquele dia eu não estava aqui”, disse Milo.

Um dos cãezinhos perguntou:

“É verdade que naquela noite Zig deu conta de cinco cachorros?”

Milo respirou fundo e continuou a narrativa:

“Existem muitas versões sobre o que aconteceu, mas eu sei de fonte fidedigna que realmente Zig lutou com cinco cães maiores que ele e os venceu. Isso foi há 10 anos. Posso estar enganado, mas existem testemunhas vivas desse fato, é só procurar.”

Os cãezinhos olhavam incrédulos para Milo, até que um deles perguntou:

“Mas qual foi o motivo da briga?”

“Parece que naquela noite um cão de fora apareceu pra conseguir umas sobras do restaurante italiano que funcionava nas imediações do Mercado, e esses cachorros não gostaram da ideia. Partiram todos ao mesmo tempo contra o forasteiro. Foi quando Zig se intrometeu e entrou para a história dos cães em Curitiba”, explicou Milo.

“E o que aconteceu depois?”, perguntou outro cachorrinho.

“Ele reinou soberano no centro de Curitiba por cinco anos. Venceu todos os que o desafiaram. Teve muitos filhos. Foi um amigo leal.”

Um dos cãezinhos que até aquele momento não se manifestara perguntou:

“Como foi o desaparecimento de Zig?”

Milo tossiu e disse que o fim de Zig era um mistério para todos que o conheceram. “Houve uma época em que ele começou a ir aos bairros para enfrentar os cães que dominavam esses lugares. Ele me disse que queria ampliar sua influência por toda Curitiba. E pra isso ele precisava vencer os diversos valentões locais. Chegou a me pedir que o acompanhasse, mas eu estava com filhotes novos e não tinha como ajudá-lo”, disse Milo, que completou: “Numa dessas incursões, ele desapareceu, ninguém sabe o que aconteceu com ele. Seu corpo nunca foi visto por ninguém.”

“Bobagem”, disse um dos cães que o escutavam (um pouco mais velho e maior). “Zig pode ser você.”

Milo repentinamente ergueu o corpo e latiu com fúria, assustando os demais cães.

“Nunca mais repita o que você disse agora”, disse o cachorro idoso.

O outro continuou:

“Pode ser você inventando essas histórias e agora se fazendo passar por um cachorro velho decadente de nome Milo que fica se auto exaltando.”

A roda abriu e os dois cachorros ficaram de frente um para o outro se encarando. Milo disse:

“É melhor você retirar o que disse.”

O outro cão, que era um pouco menor do que ele, mas muito mais jovem, respondeu:

“Não quero te machucar, velho. Só levantei uma possibilidade. Afinal de contas ninguém nunca vai saber mesmo. Esse é o problema com as lendas: as pessoas e os cães fazem o querem com elas.”

Após um breve silêncio, o jovem cachorro deu as costas para Milo e foi em direção à Avenida Sete de Setembro. Todos esperavam as ordens de Milo para trazê-lo de volta e por a limpo aquela história. Milo permanecia parado olhando em direção ao cão que se afastava. Como se de repente ele acordasse, exclamou:

“Vamos dormir que amanhã os caminhões começam a estacionar no mercado às 4.”



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