sábado, 30 de maio de 2020

LENINHA
João Cândido Martins

1
Comecei a nadar em 1977, aos 4 anos. Participei de uma das primeiras experiências feitas em Curitiba com crianças dessa idade em piscinas grandes. Naquele momento as escolas de natação não tinham piscinas infantis. Seis anos depois, com 10 anos, já me considerava um veterano. De modo geral, apresentava uma boa performance em curtas e longas distâncias. Já estava apto a competir. Naquele tempo, minha mãe me levava para as aulas e, na maior parte das vezes, permanecia para assistir. Eu me esforçava para impressioná-la e, a cada aula, obtinha novos progressos. Claro que minha vida não se resumia a isso, mas aos 10 anos eu estava realmente empolgado com a ideia de ser bom em alguma coisa.

Houve um momento em que minha mãe precisou trabalhar na parte da manhã, então passei a ir sozinho até a escola de natação. Após algumas quadras eu encontrava o conforto da água aquecida pelas caldeiras que ficavam no fundo da escola. Naquele horário, a turma se resumia a mim e a outro menino que faltava constantemente. Isso significava que quase sempre eu podia escolher uma raia para nadar, ficando o resto da piscina vazio. Depois de umas semanas, o outro menino desistiu definitivamente e fiquei por um bom tempo com a piscina só para mim.

Um dia, ao chegar, constatei que a piscina estava coberta por uma lona preta. Só uma raia estava descoberta. Era para a água não perder o calor, explicou o professor. Aquilo não me agradou e, ao entrar na piscina, meu estranhamento foi multiplicado. Por baixo do toldo preto era possível avistar apenas mais duas raias e, depois, escuridão total. Eu nadava e ao olhar para o fundo escuro sentia uma verdadeira opressão. Hoje, aos 47 anos, não sei dizer se foi por medo do escuro ou outro temor infantil, mas um dia, olhando em direção à escuridão, eu vi dois olhos me fitando. Animalescos, eles emanavam uma fúria insana. Saí da piscina.

Expliquei ao professor que havia alguma coisa debaixo da lona. Ele estranhou e perguntou o que seria. Eu respondi que não sabia, mas que achava ser algum bicho.

“Como assim, João? Um bicho?”, ele perguntou.

Fomos até a piscina e ele retirou o toldo. Não havia nada. Ficamos olhando a piscina em silêncio. O professor foi compreensivo. Disse que quando era criança também tinha medo do escuro, mas que eu não precisava me preocupar com nada ali na escola. E acrescentou:

“Você não tem por que ter medo. Vai ganhar companhia. Uma nova coleguinha que começa na terça que vem.”

2
A ideia de ter de dividir uma raia da piscina me incomodava, mas ao conhecer Leninha tudo mudou. Apesar de ter somente 10 anos como eu, irradiava uma personalidade forte, com traços expressivos que me chamaram a atenção. Tinha humor. Quando nadávamos na mesma raia ela dizia:

“João, me segue”.

E eu ia. Mas havia também momentos em que, nadando na mesma raia, cruzávamos no meio da piscina, vindos de lados opostos. Foi numa situação dessas que eu senti seus dedos passarem em meu corpo. Foi como levar um choque elétrico de surpresa. Na volta, ela repetiu o toque e senti um arrepio dentro da barriga, uma sensação inédita para mim. Nessa época, eu subia em árvores, assistia desenhos na TV, não tinha a menor noção do que seria sensualidade ou sexo.

Esse jogo era muito discreto e o professor nunca desconfiou de nada. Até o dia em que ficamos sozinhos na raia. Ela disse “João, me segue” e entrou por baixo do toldo nadando em direção à parte escura. Fiquei paralisado. Ela foi até a outra extremidade e voltou.

“Qual o problema?”, perguntou. “Você tem medo?”

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o professor retornou e tivemos de voltar à aula. Naquele dia, cruzamos diversas vezes no meio da piscina, mas em nenhuma delas senti seu contato.

Os dias se passaram e notei que Leninha se distanciou. Eu não sabia o que pensar, tinha apenas dez anos e só queria a nossa cumplicidade de volta, ansiava por isso. Só pensava nisso. Numa manhã, o professor passou os exercícios e se retirou para resolver alguma coisa, nos deixando sozinhos. Ela não perdeu tempo e foi em direção à escuridão. Sem hesitar, fui atrás dela. Ignorei o medo: estava decidido a segui-la. Chegamos ao fundo escuro praticamente juntos. Eu não conseguia vê-la direito, mas num gesto totalmente inesperado Leninha me beijou no rosto. Aquilo me pegou de surpresa, e levei alguns segundos para me localizar.

Nesse meio tempo, ela já estava nadando de volta à parte clara. Quando preparei o impulso para ir em direção a ela, senti que algo tocava meu braço. Olhei para o lado e ali estavam os dois olhos animalescos, a menos de um metro de mim. Gritei de medo embaixo da água e, no mesmo instante, o toldo negro foi levantado pelo professor e outros funcionários da escola. Leninha saía do espaço da piscina puxada por sua mãe. Foi a última vez que a vi.




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