sexta-feira, 29 de maio de 2020

ABERTURA RUY LÓPEZ
João Cândido Martins

1
Quando eu era criança, meu pai me ensinou os movimentos básicos do xadrez. Eu jogava com ele, com meu primo e, eventualmente, com meu avô. Em 1987, aos 14 anos, me senti confiante para fazer a inscrição na equipe de xadrez do Colégio Militar de Curitiba. Cheguei a participar de um pequeno campeonato promovido pela prefeitura. O evento foi no antigo CEFET (hoje UTFPR). Eu pertencia à categoria mirim, que compreendia as crianças entre 12 e 15 anos. Devo dizer que meu primeiro oponente não representou maiores dificuldades e o segundo também não foi difícil. Mas no terceiro, me compliquei. O cara me pegou numa sequência de jogadas que não havia como escapar. Tomei xeque-mate em coisa de 12 movimentos.

O mais interessante é que eu conhecia o outro jogador. Era Adriano, um garoto que morava a uma quadra da minha casa em Santa Quitéria, e com quem eu tinha pouco contato. Depois de acabar comigo, ele venceu mais dois e estava indo para as finais quando esbarrou com alguém que sabia mais que ele.

Como morávamos na mesma rua, resolvemos voltar juntos de ônibus. Ele explicou que sua vitória sobre mim se devia ao emprego da variação Zaitsev, uma sequência de movimentos que se caracterizava por ser uma alternativa à famosa abertura Ruy López. Eu escutava tudo aquilo abismado. Já tinha ouvido falar dessas estratégias no clube de xadrez do Colégio Militar, mas nunca me aprofundei. Nunca fiz um estudo sistemático do assunto. Jogava praticamente por intuição. Adriano me mostrava um novo mundo de possibilidades dentro do xadrez. Ele prometeu que iria me explicar todas as aberturas que conhecia.

Em certo momento, o ônibus quebrou na altura do bairro Batel e tivemos de descer. Podíamos esperar o próximo ônibus e entrar sem pagar nada, mas preferimos voltar até Santa Quitéria andando e conversando.

Assim como eu, Adriano era um aficionado pelos heróis dos quadrinhos Marvel. Falamos sobre Galactus, a força cósmica que devora tudo que encontra pela frente. Adriano conhecia bem o universo dos comics infantis, mas disse que ultimamente estava lendo também as edições de Kripta, do seu irmão mais velho. Uma dessas edições, que ele também prometeu me mostrar, era especializada em histórias eróticas.

No bairro Seminário, próximo ao Colégio Paranaense, nos sentamos numa pracinha e tomamos sorvete, enquanto conversávamos a respeito das meninas de Santa Quitéria. Ele preferia Thais, cabelos negros, boca carnuda, bonita mesmo. Meu voto foi para Lívia. Loira, baixinha, olhos azuis. “Mas ela é mais velha que você”, reclamou Adriano. “Ela tem 15 e eu, 14. É só um ano a mais”, respondi. Demos risada. Aquilo não fazia diferença.

De passagem pelos fundos do Jardim Los Angeles, já nas proximidades de Santa Quitéria, nos deparamos com um mato cerrado no entorno das mansões. Segundo Adriano, o lugar era conhecido como Floresta do Taborda. Para chegar ao ponto mais alto, era necessário escalar uma parede. Lá em cima, subimos mais uma elevação íngreme de terra e sentamos no topo, escondidos pela vegetação do local.

“Foi aqui que eu trouxe a Thais”, disse ele.

Fiquei espantado: “Você trouxe ela aqui e me trouxe também... tá me estranhando, Adriano?”

Ele deu risada e disse que não tinha nada a ver. Explicou que tinha me levado ali para ver o pôr do sol.

“Quando venho com as gurias aqui, nunca tenho tempo de ver a natureza”, disse ele protegendo a vista com a mão, enquanto mirava a estrela que dava um tom laranja-avermelhado às nuvens do fim do dia.

2
Já era noite quando chegamos à casa de Adriano. Ele pediu para que eu esperasse porque queria me emprestar um manual de xadrez que continha algumas jogadas em esquemas gráficos. Fiquei parado junto ao portão enquanto ele se aproximou da entrada da casa. A porta se abriu e um homem o segurou violentamente pelo braço, puxando-o com força para dentro.

“Isso são horas, moleque?”, perguntou o homem.

Antes de fechar a porta, vi que deu um tapa em Adriano e o menino foi ao chão. Não aguentei e saí correndo. Nunca tinha presenciado nada parecido. Talvez em filmes, mas assistir uma cena dessas ao vivo me atingiu em cheio no estômago.

Quando cheguei em casa, encontrei um bilhete dos meus pais dizendo que tinham ido ao mercado. Eles voltaram uma hora depois. Relatei o que acontecera e perguntei ao meu pai se ele, como delegado de polícia, poderia fazer algo.

“Vamos primeiro ver o que está acontecendo”, disse ele.

Uma viatura da polícia militar estava parada à porta da casa de Adriano. Meu pai se aproximou, identificando-se como delegado. O PM contou que uma vizinha fez a denúncia. O sujeito estava bêbado há horas. Agrediu toda a família e estava prestes a brigar com os vizinhos quando veio a polícia e encontrou as crianças em estado deplorável. Ele foi detido.

Três meses depois, eu soube que a mãe de Adriano fugiu, desapareceu, deixando o garoto e seu irmão menor à mercê do mundo. Ambos foram parar em orfanatos diferentes. Pedi a meu pai que descobrisse a localização de Adriano e, com alguma dificuldade, ele conseguiu. Alguns dias depois, fomos ao local, em São José dos Pinhais.

Adriano trajava o uniforme cinza da instituição, mas seu rosto transmitia confiança. Mesmo com um roxo ao lado do olho esquerdo.

“O que foi isso?”, perguntei.

“Isso? Não foi nada. Só um cara que insiste todo dia em pegar minha sobremesa. Mas eu gosto de sobremesa.”

Fomos para a biblioteca do orfanato. O local estava vazio àquela hora. Sentamos à mesa de xadrez, dispusemos as peças e ele disse:

“Vamos começar pela abertura Ruy López, que é a mais tradicional. Depois partimos pra outras”.


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Foto 1: No Colégio Militar de Curitiba fui velocista (100 metros rasos) e fiz parte da equipe de xadrez
Foto 2: A Abertura Ruy López
Foto 3: Mato no entorno do Jardim Los Angeles, em Curitiba, entre o Seminário e Santa Quitéria. O lugar era conhecido como Floresta do Taborda

















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