sexta-feira, 29 de maio de 2020

UMA NOITE PELOS BARES DE CURITIBA EM 1995
João Cândido Martins

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Em 1995, o começo do verão em Curitiba foi abrupto. Após uma longa semana de vento frio e chuva intermitente, o sol despontou implacável no começo da tarde da sexta-feira. Eu tinha aula à noite na Faculdade de Direito de Curitiba até às 10 e meia, mas estava disperso e só pensava em ir pro Bar do DCE da Federal, no prédio ao lado da Reitoria. Embora eu gostasse da companhia e das festas do pessoal do Direito, costumava frequentar com regularidade os ambientes da galera de Humanas da Federal, principalmente o Bar do DCE, que nos anos 90 foi um ponto de efervescência cultural. Havia muita ideia, muita música e muito texto rolando. Os caras tinham até uma rádio-pirata que só tocava sons alternativos. O bar ficava num pequeno espaço com um balcão simples e uma ou outra cadeira. Só tinha cerveja pra vender. Tudo bem, porque ninguém ia ao Bar do DCE pra comer coxinha.

Havia apresentações musicais, como as do meu amigo Allan Oliveira, que executava um repertório MPB ao violão. Desde o começo, o bar adotou uma inclinação musical brasileira. Eventualmente até rolava alguma coisa rock, mas, em geral, bandas brasileiras dos anos 70 como Mutantes, Secos & Molhados, Novos Baianos, Tim Maia, etc. Essa tendência se manteve quando, anos depois, o lugar foi transferido para um casarão na rua 13 de Maio. Foi no Bar do DCE da Federal ao lado da Reitoria que assisti algumas das primeiras apresentações do Ariel Mujica que, alguns anos depois, fundaria com seus pais o grupo El Merekumbé, especializado em música cubana.

A segunda aula na faculdade após o intervalo seria de Direito Penal. Teoria do Crime. Escola Alemã. Von Liszt. Subi as escadas da faculdade meio a contragosto, com trechos de "Cowgirl in the Sand", do Neil Young, na mente. Quando cheguei à sala, só encontrei o colega Drahomiro, que estava de saída. Perguntei onde estava todo mundo e ele disse que a aula tinha sido cancelada a pedido do professor.

Fomos conversando até a Praça Tiradentes. Ele era um cara inteligente e estava sempre de bom humor. Quem o conheceu sabe disso. Morreu jovem, alguns anos depois da formatura. Naquela noite, ele me censurou sobre o uso do cigarro. Disse que leu sobre uma pesquisa feita na Suécia com três ratos de laboratório. O primeiro foi viciado em cocaína, o segundo em heroína e o terceiro em nicotina. Eles foram deixados sem comer por um dia e meio, até que tiveram à sua disposição, comida e uma dose da sua droga. Segundo Drahomiro, os ratos viciados em heroína e cocaína foram direto na comida, mas o terceiro rato, tabagista, avançou com fúria no cigarro.

Quando chegamos ao seu ponto de ônibus, ele reforçou a recomendação para que eu parasse de fumar. "Você tem quantos anos? 21? 22? Pare com esse negócio agora", disse ele de forma incisiva. Eu sabia que ele tinha razão, mas ao virar a esquina em direção ao Largo da Ordem, acendi o primeiro de muitos cigarros que fumaria naquela noite. Encontrei por acaso meu amigo Lissandro Dino Leite. Ele tinha ingressos pro show que haveria mais tarde com o baterista Robertinho Silva no Hermes, um bar que ficava numa casa antiga, na esquina da Avenida Iguaçu com a Bento Viana, lá no bairro Água Verde.

Não sei como é hoje, mas nos anos 90, essa casa contava com dois ambientes, sendo que no subsolo aconteciam os shows. Assistir Robertinho Silva ao vivo era irrecusável. O cara tocou no disco "Corações Futuristas" (74), do Egberto Gismonti, tocou com um monte de gente importante em discos clássicos. Eu tinha de ir lá conferir o som. Desisti de ir ao DCE e, como estava cedo, resolvemos matar tempo tomando cerveja em algum lugar ali mesmo no Largo. Havia muito movimento, mas na Trajano Reis, encontramos uma mesa vazia em frente ao Bar do Matias. Sentamos e ficamos falando de música, etc. Matias era, e com certeza ainda deve ser, um sujeito muito tranquilo, apreciador de discos de vinil. Pelas fotos que vi do bar na atualidade, parece que o ambiente foi ampliado, mas em 95 o lugar não era dos maiores. Objetos antigos decoravam o local, tendência que foi adotada por "n" bares descolados depois dos anos 2000.

Dino conhecia bem o Matias, que conversou conosco por alguns minutos. Na mesa ao lado, não pude deixar de perceber que uma menina me olhava de soslaio. Toda vez que eu tentava encará-la, ela desviava os olhos. Matias comentava que a moda do CD era algo passageiro, coisa de momento que não iria durar muito. "Vocês vão ver", disse ele, "daqui a pouco vai estar tudo no próprio computador, nem vai mais ter nada dessa coisa de CD. Nem vinil, capa, vitrola, vai virar tudo antiguidade". Quando Matias terminou a frase, olhei rapidamente em direção à menina e consegui uma breve troca de olhares seguida de um sorriso.

2
Pensei que teria ter de mudar de planos pela segunda vez. Não acompanharia o Dino até a Avenida Iguaçu. Iria com ela pra qualquer lugar. Uma viatura da polícia parou à nossa frente e os policias desceram do veículo dizendo: "Todo mundo com a mão na parede, revista de rotina". Eu e Dino não portávamos nada ilegal, mas um rapaz que estava sentado na entrada do bar foi arrastado pelos cabelos até a viatura. Eles foram embora e permanecemos todos em pé durante um tempo, até que Dino perguntou: "Por que a gente tá em pé?" Sentamos e pedimos mais uma ao Matias.

Eu e a menina agora trocávamos olhares abertamente. Eu ia abordá-la, quando um cara bem jovem virou a equina correndo e veio em nossa direção. Ele entrou com alvoroço no Bar do Matias e ficamos olhando sem entender. Alguns segundos depois, uma pequena multidão também dobrou a esquina e um deles gritou: "o cara entrou naquele bar", apontando pro Bar do Matias. A turba começou a correr e nós só tivemos tempo de entrar o mais rapidamente possível. Matias fechou a porta e, em poucos segundos, havia um monte de gente gritando e batendo na entrada. Um vidro foi quebrado. Eu e Dino nos olhamos e, sem pensar, buscamos refúgio no único banheiro do local, um espaço minúsculo onde entraram todas as pessoas que estavam ali, inclusive o Matias.

Oito corpos se apertavam no cubículo e era possível ouvir o clamor da multidão querendo invadir o bar. Alguém disse: "Matias, vai lá e conversa com os caras". Em seguida, outro barulho de vidro quebrando e mais vozes furiosas. Dino olhou pro sujeito que estava sendo perseguido e perguntou o que ele tinha feito pro caras estarem tão indignados. O rapaz tossiu e disse que tinha tentado sair de um bar sem pagar a conta, mas na tentativa, esbarrou em várias mesas, o que provocou uma briga e ele acabou quebrando uma garrafa na cara de um sujeito que não tinha nada a ver com a história. Daí ele saiu correndo e, quando viu, tinha uma multidão atrás dele.

Por algum acaso do destino, ou coisa parecida, quando entrei no banheiro, encostei justamente na tal menina com quem há pouco trocava olhares. Nossos corpos estavam totalmente em contato e, enquanto todos se olhavam em pânico com o barulho da turba do lado de fora, eu sorria e tocava sua cintura. Alguém acendeu um baseado e Matias se invocou: "Ô mermão, apaga essa merda, quer me complicar a vida?" O cara que acendeu o cigarro jamaicano não se abalou e, soltando uma baforada que preencheu o minúsculo ambiente, disse que Matias tinha problemas mais importantes pra resolver naquele momento. Não resisti e dei um pequeno beijo na nuca da menina que se encolheu dando uma risadinha. Dino me olhou e disse: "João, se liga cara, a gente vai apanhar até morrer aqui".

O sujeito do baseado deu outra baforada e confesso que fiquei um pouco tonto com aquilo. Matias abriu a porta do banheiro e saiu. Ainda era possível ouvir algumas vozes exaltadas vindo do exterior. Alguém fechou novamente a porta do banheiro e ficamos todos nos olhando em silêncio. A amiga da menina em quem eu estava encostado ligou um walk-man. A voz de Janis Joplin dominou o pequeno espaço. Nesse momento, eu já estava com os dois braços em torno da garota e nem me lembrava mais do show do Robertinho Silva. Do nada, alguém revelou que estava segurando uma cerveja quase cheia. A garrafa circulou entre todos.

Matias abriu a porta do banheiro e saímos, um por um do cubículo. Janis cessou seu canto e, do lado de fora, já não vinham mais os protestos. Não havia mais ninguém em frente ao bar. O cara que estava sendo perseguido se mandou tão rápido quanto chegou. Dino perguntou se eu ainda ia ao show do Robertinho Silva. Respondi que iria ficar com a Sandra (esse era o nome da menina).

3
Eu e ela fomos andando de mãos dadas até o Bar Dolores Nervosa, na Vicente Machado. Era um local onde musicalmente rolava de tudo, de Madonna a Miles Davis, passando por Chico Buarque e grupos dos anos 80/90. Quando chegamos, havia algumas pessoas na porta, entre elas, meu amigo Marco Farracha Guedes. Estava acontecendo uma festa. O bar estava lotado e eles não deixavam entrar mais ninguém. Tomamos alguns copinhos de cachaça com guaco no boteco que ficava no térreo do Dolores (na frente do qual, um tempo depois, um cara seria morto a tiros). Na TV, a Rede Globo reprisava o filme "Ensina-me a Viver", que era interrompido constantemente por flashs de um jogo de vôlei.

Marco estava indignado por ter sido impedido de ingressar no Dolores e resolveu escalar o muro lateral, entrando no bar pela janela. Alguns segundos depois, a porta do estabelecimento se abriu com violência e achei que Marco seria empurrado pra fora do lugar, mas foi ele quem jogou dois caras lá de dentro escada abaixo. Eu sabia que minha obrigação como amigo era ajudá-lo, mas Sandra apertou minha mão e saiu correndo em direção a umas manilhas que estavam encostadas junto a um trator. A Vicente Machado passava por obras. Entramos numa daquelas peças de concreto e ficamos algum tempo ali, não sei dizer quanto.

Por volta de umas cinco e meia, fomos à Rua 24 Horas, que estava cheia de gente. Comemos pastel no fim da rua e ficamos conversando sentados na calçada até umas 9 horas, quando ela se despediu e eu segui meu rumo em direção ao ponto do ônibus Savóia.

Sentei num banco do fundo e minha cabeça foi preenchida pelos acordes iniciais de "We Used to Know", do Jethro Tull. A música ia e vinha até que senti uma mão me sacudindo. Era o motorista do ônibus me avisando que estávamos no ponto final. Eu havia passado do meu ponto e teria de andar várias quadras pra chegar em casa. Desci do ônibus, esfreguei meu rosto com as duas mãos, espreguicei e acendi um cigarro. O motorista, que eu conhecia de vista, disse: "Vá dormir rapaz, você tá com cara de quem tá precisando". Pus as mãos nos bolsos da calça e, na companhia de um vira-latas de olhar sábio, iniciei o longo trajeto que me separava da minha cama.


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Neil Young - Cowgirl in the Sand (1969)
https://www.youtube.com/watch?v=SNl13t9ZtmA

Janis Joplin - Half Moon (1971)
https://www.youtube.com/watch?v=yyHhPTfT2rI

Jethro Tull - We Used to Know (1969)
https://www.youtube.com/watch?v=VAnh1waFPeY

Egberto Gismonti - Dança das Cabeças, do disco Corações Futuristas (1976), com Robertinho Silva - bateria
https://www.youtube.com/watch?v=vobUqH3OLvI


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