sexta-feira, 29 de maio de 2020

A FUGA
João Cândido Martins

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Em 1978, ano em que completei cinco anos de idade, meu pai resolveu acrescentar um quarto à nossa casa na rua Capiberibe, em Santa Quitéria (onde hoje moram minha prima Cynthia Werpachowskki e Lucinéa Dobrychlop). O novo cômodo era destinado a mim e ficava colado ao quarto dos meus pais. Tenho vagas memórias desse período, mas houve uma noite que me marcou pra sempre. Meu pai trabalhava como delegado no interior do estado, então eu o via nos fins de semana ou, dependendo do seu serviço, a cada 15 dias. Então, não tínhamos uma maior proximidade. De qualquer modo, eu sempre ficava feliz em vê-lo.

Quando ele entrou em férias, aproveitou para realizar o projeto do meu quarto. Ele mesmo pôs a mão na massa e, com a ajuda do seu Tonico, que era irmão ou primo da Dona Alicinha, parteira e mentora espiritual do bairro Santa Quitéria, em poucas semanas a estrutura estava pronta. Faltava o piso. Na mesma época, minha mãe teve que cobrir, no período noturno, as ausências de uma professora que se encontrava adoentada. Daí, pela primeira vez na vida, me vi sozinho com meu pai. Brincávamos, jogávamos bola, tudo que um pai e um filho fazem juntos. Mas ele era uma pessoa reservada, um sujeito de 54 anos, nascido em 1924, que fazia questão de ter o seu momento de tranquilidade.

Hoje, convivendo com meu filho de 4 anos, sei que as crianças querem tudo, menos tranquilidade. Imagino que eu deveria agitar bastante, porque meu pai, com o passar dos dias foi ficando um pouco impaciente comigo. Nunca me bateu, que fique claro. Mas acho que meu mundo infantil o enfastiava um pouco, ele cujo ofício era prender criminosos, lidar com a violência, com a dissimulação, com a falsidade. Ele se educou para sobreviver nesse meio, então creio que não deveria estar muito interessado nas minhas novidades sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Uma noite, eu assistia um capítulo da novela "Aritana", que passava às 19 horas na extinta TV Tupi (que após um incêndio e a falência, teve seus equipamentos adquiridos pela também já inexistente Rede Manchete). Originalmente, "Aritana" era exibida às 20 horas, mas como a audiência de "Dancin Days" da Globo foi esmagadora, a Tupi resolveu transferir a novela para as 19, horário em que eu já estava de banho tomado, jantado e me encaminhando para o sono, ou seja, era uma presa fácil para a televisão.

E "Aritana", por ter um lado meio aventuresco, me fisgou. O índio era interpretado por Carlos Alberto Ricelli. Ele tentava impedir que uma empresa americana tomasse posse de terras indígenas no Xingu. No decorrer da novela, ele se mudava pra cidade grande, onde se envolvia com Bruna Lombardi. Na prática, a maquiagem usada em Ricelli para que ele parecesse um índio, o deixou com a cara do personagem Papa-Capim, do Maurício de Souza. Tirando isso, a novela era ok e contava com atores como Jaime Barcellos, John Herbert, Geórgia Gomyde, Carlos Vereza, Francisco Milani, Jorge Dória, Cleide Yáconis, Othon Bastos e Marcos Caruso (estreando em novelas). Eu não sabia de nada disso na época. Com cinco anos, só me interessava pelas cenas de ação.

Naquela noite, Aritana fez alguma coisa intrépida que me deixou empolgado. Fui ao encontro de meu pai que estava dentro do quarto novo ajeitando as madeiras do piso. Como eu disse, estávamos apenas nós dois em casa. Ele disse para eu não entrar, pois havia espaços vazios entre as tábuas, por onde eu poderia cair. Ignorei a advertência e entrei. Dois ou três passos depois, pisei num desses vãos e acabei caindo, sem chegar a me machucar. Meu pai ficou bem irritado. Ele me levou até a sala, me aplicou uma severa descompostura por tê-lo desobedecido e disse pra eu ficar ali até ele terminar o que estava fazendo. E se retirou. Fiquei um pouco magoado com aquilo, pois eu mal o via. Queria estar com ele.

2
Na verdade, fiquei bem chateado e, sob o estímulo da aventura de Aritana, vesti uma capa, coloquei um chapéu de cowboy que eu tinha, os óculos escuros da minha mãe, coloquei duas bolachas de morango numa pequena sacola verde e discretamente saí da casa em direção ao portão da frente. No mesmo terreno, havia a casa do meu avô (pai de minha mãe), onde também moravam meus tios e meu primo. Naquele horário, passei despercebido e não tive dificuldade em pular o muro, já que o portão encontrava-se trancado. Eu não sabia muito bem pra onde ia, só queria sair dali.

Aos cinco anos, era a primeira vez que eu andava sozinho pela rua à noite. Tudo parecia diferente. Em 78, a rua Capiberibe ainda era de terra e lembro de ter chutado algumas antes de virar à direita na rua Major França Gomes. Abri um dos sacos de bolacha e comi uma. Quando cheguei à avenida Arthur Bernardes, duas quadras depois, o movimento de carros e caminhões era intenso. Peguei outra bolacha e fiquei aguardando o momento de poder atravessar a rua quando me senti içado com força do chão. Era meu pai que, sem dizer nada, me levou de volta para casa. Como ele permanecia em silêncio, aquilo começou a me perturbar, pois eu não sabia o que ia acontecer.

Quando chegamos, eu olhava pro chão, sem coragem de encará-lo. Ele ficou parado na minha frente sem dizer nada por uns instantes, até que pegou minha mão e me levou até a cozinha. Sentamos em torno do fogão à lenha. As madeiras crepitavam em seu interior e a cozinha estava preenchida por um calor confortável. Ele me perguntou: "Você gosta de aventura?" Respondi que sim. Daí ele me contou a história da sua vida. Contou sobre seu pai, Manuel Vicente dos Santos, que era um lenhador nascido no interior do Paraná em 1881. Contou sobre sua mãe, Rosa Borges D'Oliveira, pessoa humilde que era conhecida por sua perícia como costureira. Contou sobre cada um dos seus onze irmãos. Contou sobre sua vinda para Curitiba nos anos 40 e sobre o incêndio na pensão onde morava, momento em que ficou, como se dizia antigamente, "com uma mão na frente e outra atrás", isto é, sem documentos, sem dinheiro e sem roupas. Contou sobre os difíceis empregos pelos quais passou antes de ingressar na Universidade Federal do Paraná e se tornar um Agente de Polícia, na década de 50. Sem entrar em detalhes, contou sobre várias situações policiais que viveu e sobre sua ascensão ao cargo de delegado.

Eu ouvi atentamente tudo que ele me contou naquela noite. Sempre fui um bom ouvinte. Ele disse que tinha uma coisa pra me mostrar. "O que poderia ser?", pensei. Ele foi até o forno e retirou de lá um bolo. "Filho", disse ele, "você não precisa ser um chef de cozinha altamente especializado, mas um ovo frito você vai ter de aprender a fazer. Aí depois, com o tempo, você evolui um pouco e consegue fazer coisas mais complicadas, como um bolo". Minha mãe chegou do trabalho e, antes que comêssemos o bolo, tirou essa foto.



Foto 1: Meu pai, Vicente, e eu, na cozinha da nossa casa em Santa Quitéria, em 1978.
Foto 2: Meu pai e o cachorro Popeye, em 1968, no espaço onde cinco anos depois seria construído meu quarto.
Foto 3: Meus avós paternos, Manuel Vicente dos Santos e Rosa Borges D'Oliveira. Acredito que a foto seja do final dos anos 20 ou começo dos 30.
Foto 4: 2ª via emitida em 1939 da certidão de casamento dos meus avós, documento originalmente registrado em 1905.
Foto 5: Eu e Tio Tonico, irmão de Dona Alicinha, uma das figurais mais conhecidas e respeitadas de Santa Quitéria.
Foto 6: A novela "Aritana" (Tupi, 1978)
Foto 7: Carlos Alberto Ricelli em "Aritana" (1978)




































 

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