quarta-feira, 27 de maio de 2020

O DIA EM QUE MEU PAI CONVERSOU COM ÉRICO VERÍSSIMO
João Cândido Martins


Alexandre Callari, apresentador do Canal Pipoca e Nanquim e sócio da editora de mesmo nome, foi à Inglaterra em 2015 e, de posse do endereço do escritor Allan Moore ("Watchmen", "V de Vingança", etc), bateu na porta da lenda dos quadrinhos e se apresentou como um admirador, um fã. Disse que simplesmente queria conhecê-lo. Moore estava no meio de uma reforma em sua casa em Northampton, e foi pego de surpresa. Ele não foi deseducado com a visita inesperada, mas também não foi muito gentil. Atendeu Callari na porta da casa e se recusou a autografar seus trabalhos feitos para as editoras Marvel e DC, como habitualmente faz. Assinou alguns trabalhos menores e posou pra uma foto. Depois de uns dez minutos de conversa, se despediu e entrou.


Livro "O Ataque" (Érico Veríssimo, 1959)

Meu pai, Vicente de Oliveira Santos (1924-2001), fez algo parecido. Em 17 de outubro de 1963, ele estava em Porto Alegre a serviço. Após concluir suas obrigações, foi a uma livraria e adquiriu um pequeno livro do escritor Érico Veríssimo: "O Ataque" (publicado em 1959 pela Editora Globo). Era uma coletânea de 4 textos do escritor gaúcho: três contos relativamente longos e um trecho de "O Tempo e o Vento". Tratava-se de uma edição simples, dessas de bolso. Com o livro em mãos, meu pai dirigiu-se para a residência de Érico Veríssimo (cujo endereço ele deve ter descoberto lá em Porto Alegre mesmo) e bateu na casa do autor de "Clarissa", "Caminhos Cruzados", "Olhai os lírios do campo", "Saga" e, naturalmente, "O Tempo e o Vento". Sem falar nas suas traduções e nos diversos livros infantis que lançou.







Érico o recebeu com amabilidade. Eles entraram e tomaram um café, que foi servido por Mafalda, esposa do escritor. Meu pai me disse que eles conversaram sobre os livros da fase urbana de Érico, sobre a construção do enredo de "O Tempo e o Vento" e sobre a efervescência política daquele período. No final da conversa, Érico confidenciou a meu pai, sem entrar em maiores detalhes, que estava elaborando um livro em que os mortos, impedidos de serem enterrados por uma greve, saíam de seus caixões e ocupavam a praça pública para revelar todos os podres que conheciam sobre os habitantes de uma pequena cidade do interior. Esse enredo foi publicado por Érico oito anos depois, sob o nome "Incidente em Antares" (1971).



Antes de meu pai ir embora, Érico autografou o pequeno livro de contos que ele carregava: "Para Vicente de Oliveira Santos, em lembrança de sua visita. Érico Veríssimo, Porto Alegre, 17 de outubro de 1963".
















Até onde sei, Érico Veríssimo era uma pessoa introvertida. Ele se retratou na personagem Floriano, de "O Arquipélago", parte final de "O Tempo e o Vento". Meu pai também não era de muitas palavras, mas era uma pessoa de discernimento. Acho que eles devem ter se dado bem. Até porque meu pai era um ávido leitor das obras de Veríssimo e, com certeza, o escritor deve ter percebido isso. Ex-estudante de seminário, meu pai travou contato com o latim e com algumas línguas derivadas, como o italiano, o espanhol e o francês. Ele até arriscou na juventude umas traduções de Ovídio e Dante Alighieri.


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Meu pai em reunião da Associação dos Delegados de Polícia do Paraná (Adepol - PR)
Em 2001, meu pai, já com 77 anos, foi vítima de um enfisema. Durante algumas semanas ele foi transferido do quarto do hospital para a UTI algumas vezes, alternando períodos em coma e períodos de lucidez. Isso se deu bem na época do atentado contra os prédios em Nova Iorque. Todos em todos os lugares só falavam naqueles dois prédios ruindo, nos 3 mil mortos, na possibilidade de uma guerra em âmbito mundial. Eu só conseguia pensar em meu pai.


Num desses momentos em que ele estava fora do coma e conversando normalmente, me pediu para que lesse alguma coisa pra ele. Perguntei o que ele queria ouvir e ele especificou que queria escutar alguma coisa que fosse do seu gosto. Disse que confiava em mim pra escolher uma boa leitura. Não tive dúvidas. No dia seguinte voltei ao hospital com "O Ataque" em mãos. Ao ver o livro, meu pai quase chorou. Manuseou por alguns minutos a edição e me passou para que eu a lesse para ele. O livro não é muito longo. Fui calmamente lendo e uns três dias depois, um pouco antes do fim do livro, ele acabou retornando à UTI, de onde não mais saiu. A última vez que nos falamos, ele estava acordado e visivelmente prostrado pela dor. Pediu que eu o beijasse, coisa que eu não fazia há anos. Desde a minha infância nunca tivemos o hábito de nos abraçar ou beijar.


Meu pai e o cachorro Popeye na casa de Santa Quitéria em 1968

Eu me projetei devagar sobre seu corpo e beijei sua face com um carinho que nunca antes havia sentido. Um enfermeiro que estava próximo disse: "não pode beijar o paciente dentro da UTI". Por um instante o palavrão ficou se contorcendo na minha língua, mas eu não disse nada. Meu pai estava aos cuidados daquele sujeito, então eu não podia me indispor com ele. Eu também não podia me indispor com o Hospital, que era privado.
À época, eu e minha mãe tentamos transferi-lo para um hospital público, mas não havia leitos disponíveis e ele acabou permanecendo nesse hospital, que era, acima de tudo, uma empresa. Como ele tinha se submetido a uma cirurgia naquele lugar uns meses antes, foi natural que o levássemos para o mesmo hospital quando surgiram as complicações decorrentes do enfisema, que se manifestou logo após a operação. O que não contávamos é que meu pai fosse dar tantas entradas na UTI. No dia seguinte ao dia em que beijei meu pai, ele apagou geral e assim ficou por dias.







































Eu e meus pais em 1976


Um médico amigo de minha mãe, que não pertencia àquele hospital, foi ver meu pai e, depois da visita, veio até nossa casa, onde revelou com cautela que ele já estava tecnicamente morto. Não havia possibilidades dele acordar novamente. Ele estava sendo mantido vivo, mesmo o hospital tendo consciência da irreversibilidade da situação. Minha mãe perguntou: "mas por que eles estão fazendo isso?" O velho médico, dr. Roberto H., nos olhou em silêncio por alguns instantes e devolveu a pergunta com outra pergunta: "quanto vocês estão pagando ao hospital?" Minha mãe respondeu que pagávamos mil reais por dia só em oxigênio. A dívida já estava próxima dos cem mil reais. Ele sugeriu que esse seria o motivo pelo qual o hospital não nos informava que meu pai não iria voltar mais à consciência.

Meu pai cumprimentando o governador Ney Braga


Fui ao hospital e exigi uma posição clara quanto a isso. O hospital confirmou a situação, mas advertiu que se fosse o caso de desligar os aparelhos, eu teria de assinar um documento me responsabilizando pelo ato. Fui à UTI. Meu pai lá estava desacordado e com todos aqueles tubos ligados ao seu corpo.



Eu olhava para ele e lembrava dos dias em que ele estava em pleno controle da sua saúde e da sua vida. No começo da década de 80, ele era delegado de polícia em Antonina e prendeu um outro policial que, além de ser um notório estuprador, tinha ligações com a então emergente cena do tráfico de cocaína no litoral do Paraná. Em função disso, meu pai sofreu uma série de retaliações e foi perseguido ao ponto de ter de se aposentar antes do previsto.

Sobre isso, ele me dizia: "depois de todos esses anos na polícia como escrivão e, depois, como delegado, posso deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo porque não fiz absolutamente nada fora da ética e dos princípios constitucionais". Mas é claro, que tudo aquilo o abateu atingindo inclusive sua saúde, e ele nunca mais foi o mesmo.

Eu e meu pai em 1988

Assinei os papeis e eles desligaram as máquinas. Ele ainda sobreviveu algumas horas, até que às quatro da manhã do dia 24 de setembro recebemos a ligação do hospital dizendo que ele estava em óbito. Eu e minha mãe não fizemos nada contra o hospital. Não tinha como demonstrar juridicamente que eles postergaram de forma deliberada a morte de meu pai com intuitos financeiros. Não vou dizer o nome do hospital onde tudo isso ocorreu. Agora, depois de todos esses anos, não vem ao caso. Mas fiquei sabendo, posteriormente, que a prática era comum não só ali como em outras instituições de saúde.

Toda aquela situação mexeu tanto comigo, que levei alguns meses para absorver a informação de que meu pai não estava mais vivo. Um dia, chegando em casa, encontrei minha mãe dormindo. Andei meio desencontrado pelos cômodos do imóvel, fumei um cigarro no jardim e, quando caíram os primeiros pingos da chuva que se avizinhava, senti, pela primeira vez na minha vida adulta, uma real e incontornável vontade de chorar.







































Eu e meus pais na Igreja de Santa Quitéria, em 1979

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