sexta-feira, 29 de maio de 2020

DISCO PROG
João Cândido Martins

Em 1969, surge o Rock Progressivo graças à banda King Crimson e seu disco de estreia "In the Court of Crimson King". Antes disso, ali pela segunda metade de 66 e durante os dois anos seguintes, surgiram de forma esparsa experimentações quase progressivas, mas a corrente só ganhou forma e força de modo tangível a partir do King Crimson, que efetivamente era algo diferente de tudo que já tinha sido feito. Hoje, com a internet e a facilidade de acesso a esse tipo de material, fica mais fácil descartar aqueles velhos lugares comuns alimentados por uma parte obtusa da crítica que não entendia a proposta e, por medo do desconhecido, uma boa dose de despreparo e apego ao feijão com arroz do rock convencional, resolveu jogar pesado e retirar qualquer credibilidade que os progressivos tivessem angariado nos seus anos de popularidade. Tal campanha difamatória sustentava que o progressivo seria "pretensioso", "elitista", "chato", "kitsch" e outros adjetivos, tão ou mais vazios.

Na primeira metade dos anos 70, o progressivo lotou grandes espaços e as multidões que iam nesses locais queriam sentar e apreciar a música. Não era mero entretenimento dançante, como o rock havia se configurado até então. A ideia era, basicamente, provocar reflexão que deveria ser degustada assim como se faz com um vinho de alta estirpe. Até 75, mais ou menos, os discos progressivos se mantiveram nos topos das paradas, ingressos, camisetas e toda a parafernália que normalmente acompanha os estilos musicais era vendida a rodo e as gravadoras apostaram firme na proposta, lançando centenas ou mesmo milhares de artistas do gênero pelo mundo todo.

Ao mesmo tempo, já por 73/74, apontavam os primeiros exemplares de uma espécie de pré-Discoteca, estilo que viria a estourar junto ao público somente 4 anos depois, impulsionado por filmes como "Os Embalos de Sábado à Noite" (cuja trilha sonora esteve por muitos anos entre os discos mais vendidos de todos os tempos). Quando essa pré-Disco surgiu, o progressivo estava em alta, então foi natural que a Disco importasse, pelo menos de forma inicial, alguns maneirismos progressivos, principalmente no campo eletrônico. Dentro dessa linha, surgem músicas Disco longas e elaboradas em partes, assim como praticavam os progressivos. É o caso, por exemplo, de "I Feel Love", da cantora Donna Summer, lançada em 77.

Mas os exemplares mais marcantes (e com mais popularidade) da fusão Disco-Progressivo surgiram em 78, por iniciativa de músicos da Itália: a trilha sonora do filme "Expresso da Meia Noite", gravada pelo produtor e compositor Giorgio Moroder, e o disco conceitual "Automat", dos tecladistas Romano Musumarra e Claudio Gizzi, que tiveram apoio do programador Mario Maggi, responsável pela construção do sintetizador MCS70.

A Disco cerebral e melancólica de Moroder para o filme "Expresso da Meia Noite" combina à perfeição com o andamento das situações angustiantes do filme. Sobre o filme, muito há a ser dito, mas nesse texto, só vou enfatizar que "Expresso da Meia Noite" carrega em seu bojo uma importante lição de vida: em hipótese alguma trafique drogas na Turquia.

Em "Automat", a fusão Disco-Prog é mais incisiva ainda, a começar pela capa do disco. Seu conteúdo é composto por levadas eletrônicas hipnóticas pontuadas por fraseados melódicos de sintetizador que não devem nada às produções de Vangelis, Jean Michel Jarre e similares. Uma das músicas do disco (Droid) foi usada pela Rede Globo em vinhetas durante sua programação do começo dos anos 80.

Hoje a disco é mais lembrada por representantes festivos como KC and the Sunshine Band, mas a Disco-Prog teve seu momento e, ainda hoje, arrebanha adeptos.

Donna Summer - 1977 - "I Feel Love"
https://www.youtube.com/watch?v=dxCqZHSxd2E

Giorgio Moroder - 1978 - "Midnight Express Soundtrack"
https://www.youtube.com/watch?v=gZ-n2CwixVk

Automat - 1978 - "Automat"
https://www.youtube.com/watch?v=RFBfxrKKPG4






















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