sexta-feira, 29 de maio de 2020

COLÉGIO PARANAENSE, 1980
(ou de como virei uma lenda do futebol)
João Cândido Martins

1
Era uma quarta-feira qualquer de 1980. Estávamos eu e meus colegas de primeira série do Colégio Paranaense aguardando o encerramento do dia. Ainda faltava uma hora. Já tínhamos concluído as atividades e conversávamos entre nós e com a professora Cíntia, uma esforçada profissional que tinha uma carga de paciência gigantesca conosco. Os garotos tinham duas paixões. Futebol e R., uma das meninas da sala. Ela particularmente não me atraía, mas C. que era uma baixinha oriental de olhos azuis, escorridos cabelos negros e uma postura decidida, sim. A menina, que aos 7 anos mostrava uma personalidade desenvolta e livre, não me dava a menor bola, mal conversávamos, apesar de sentarmos próximos um ao outro.

Naquela tarde, uma outra professora veio até a sala e conversou em particular com a professora Cíntia. Ela fechou a porta preocupada e pediu a atenção de todos. Disse que era pra deitarmos no chão. Iríamos esperar nossos pais deitados. Era uma coisa incomum, mas tínhamos 7 anos e tudo era festa. Até que o H., que atuava como goleiro no nosso time, teve de ir ao banheiro e voltou de lá com a informação: um assaltante havia se escondido no bosque dos fundos do colégio. A polícia havia cercado o local, mas ainda não havia conseguido localizá-lo.

A notícia se espalhou como pólvora entre as crianças e algumas começaram a chorar. Eu fiquei tentando imaginar como o sujeito conseguiria escalar a parede, chegar à janela do segundo andar e entrar na nossa sala. Ele poderia, por outro lado, vir pelo corredor, mas para isso ele teria de passar pelos policiais que deveriam estar à espreita. Meus pensamentos foram cortados por um barulho de tiro vindo do campo de futebol ao lado do nosso prédio. Algumas crianças gritaram e professora Cíntia pediu calma. Ela devia estar desesperada, mas não exteriorizava qualquer sentimento de medo.

Outro barulho de tiro mais próximo que o anterior. Senti que alguém pegou minha mão e apertou com força. Era C. Ela tinha uma mão pequena e quente. Olhei para ela, mas a menina estava com o rosto escondido no próprio braço. Ficamos nessa posição por uma meia hora. Eu nem me mexia, com exceção dos dedos que afagavam a mão de C.

A porta foi aberta e a professora de Artes, que era casada com o professor de judô, entrou na sala acalmando todos e dizendo que a polícia havia capturado o meliante. C. soltou minha mão, pegou sua mochila e saiu da sala acompanhada pelos demais. Eu fiquei ali um tempo sentado de pernas cruzadas, sozinho.

2
Voltamos a não nos falar até que houve um jogo de futebol entre a 1ª série e a 2ª. Era uma questão de honra ganhar daqueles caras. Eu era péssimo, mal conseguia acompanhar o movimento da bola, mas claro que queria me sentir inserido, e tentava participar dos times, a maior parte das vezes sem sucesso. Naquele dia calhou de faltar gente e eu acabei entrando. Como eu disse, eu não jogava nada. A única coisa que eu conseguia fazer com a bola eram 50 embaixadas. Se eu pedisse dinheiro nas esquinas fazendo isso, hoje estaria rico, mas na época ninguém ligava pra embaixadas.

O jogo foi difícil e prestes a terminar, ainda ninguém havia marcado um gol. Eu estava na área adversária quando a bola fez uma curva no ar em minha direção. Eu não sei exatamente o que passou pela minha cabeça, mas projetei meu corpo pro alto e chutei a bola com força pra trás, no movimento conhecido como "bicicleta". Foi algo tão inusitado, que o goleiro da 2ª série ficou olhando sem fazer nada e a bola entrou no gol. Os meninos me abraçaram com euforia e eu mesmo não acreditava que tinha feito aquilo. Realmente foi um golpe de sorte, porque eu nunca havia treinado aquilo, na verdade nunca havia sequer tentado executar uma bicicleta, mesmo de brincadeira. Pela primeira vez, no final do jogo, C. me olhou e acenou com a mão.

Ficamos amigos. Ela era um barato, gostava dos mesmos desenhos que eu, gostava de música, de desenhar, gostava de nadar... Conversávamos todos os dias e, às vezes, passeávamos pelo bosque. Numa dessas ocasiões, eu estava prestes a beijá-la quando fomos avistados por um inspetor que nos interrompeu e disse que era para voltarmos para junto das demais crianças.

3
Quando o serviço meteorológico anunciou repentinamente que um furacão iria passar por Curitiba, como já havia acontecido nos idos dos anos 40, os professores não fizeram segredo, então sabíamos perfeitamente porque deitamos no chão pela segunda vez. C., que havia passado o dia inteiro sem falar comigo, segurou minha mão e ficamos no aguardo do apocalipse, mas quem chegou primeiro foram seus pais, que a levaram me deixando com um furacão dentro do peito. Um tempo depois, meu pai apareceu e entrei no carro totalmente amuado. Quando chegamos em casa, o vento soprava com bastante intensidade e o imenso pinheiro que ficava no terreno atrás de nossa casa balançava com seu barulho peculiar. Imaginei que dessa vez ele iria cair sobre nós. Eu sempre pensava isso. Cresci com essa árvore assombrando minha vida.

O fenômeno climático não aconteceu, mas, no dia seguinte, os garotos estavam envolvidos com outro assunto: C. anunciou para as amigas que estaria namorando alguém. Era a primeira menina da sala a assumir tal condição. Minha alma explodiu de alegria e eu não consegui esconder um sorriso. Eu queria vê-la e saí pelo colégio à sua procura. Ela não estava em lugar nenhum. Só restava o ginásio. Entrei e o local parecia vazio, mas não demorou para que eu avistasse C. sentada nas arquibancadas em companhia de um garoto da 3ª série. Eles estavam conversando de mãos dadas.

Enfurecido, saí do ginásio e fui e direção ao campo de futebol, onde os meninos jogavam uma partida. Pedi pra entrar e, famoso pelo meu recente gol de bicicleta, logo estava dentro do campo. Esperei pelo momento certo e quando a bola veio em minha direção, tentei driblar um dos colegas mas fui impactado por outros três, que vieram de direções diferentes ao mesmo tempo, sendo que um deles bateu (intencionalmente ou não) com sua cabeça na minha, e não vi mais nada. Acordei na enfermaria do colégio. Professora Cíntia estava ao meu lado e perguntou como eu me sentia. Eu me sentia péssimo, mas disse a ela que estava bem. Ela disse que precisava resolver algumas coisas, mas que retornaria em breve. Havia uma faixa em torno da minha testa e o local onde o cara me bateu estava latejando um pouco.

A imagem de C. com o outro garoto não me saía da cabeça e eu queria estar com ela, mas ao mesmo tempo, sabia que isso agora seria irrealizável. Alguém entrou na enfermaria. Era M. uma das meninas da sala com quem eu também não falava muito. Na 1ª série, aos 7 anos de idade, ainda havia uma certa política de que meninos andavam entre meninos e meninas entre meninas. M. se aproximou e perguntou como eu estava. Respondi que minha cabeça ainda doía um pouco, mas que estava ok.

Pela primeira vez, percebi que M. tinha olhos verde-claros e sua boca pequena possuía a textura de uma fruta na iminência de ser mordida. A ela, se aplicaria o epíteto que, um dos escritores preferidos do meu pai, o cearense José de Alencar, deu à sua personagem Iracema: "a virgem dos lábios de mel". Nos dias seguintes, passei a frequentar o bosque com M. e meus dias de lenda do futebol ficaram pra história.

Foto 1: Curitiba - Colégio Paranaense, 1ª série - Professora Cíntia (1980). Eu sou o 2º em pé, da esquerda para a direita
Foto 2: Eu, aos 7 anos





Sem comentários:

Publicar um comentário