quinta-feira, 28 de maio de 2020

LETÍCIA, DE ITAPEMA DO NORTE
João Cândido Martins

1
Em maio de 1998, eu estava desempregado e tinha acabado de levar um fora de uma namorada. Além disso, fiquei praticamente desfalcado de dinheiro, pois tive de vender um computador pra pagar os estragos que provoquei num acidente de carro (sem vítimas). Normalmente eu era um cara tranquilo, mas estava me sentindo até um pouco depressivo com tudo aquilo. Aproveitei um fim de semana que meus pais viajaram com um afilhado deles para uma fazenda perto de Vila Velha, em Ponta Grossa, e resolvi ir até a praia. Qualquer praia. Só queria sair de Curitiba uns dias e voltar revigorado. Eu precisava pegar um sol, respirar o ar da praia, sentir o vento no rosto, comer umas casquinhas de siri tomando cerveja na beira do mar, esse tipo de coisa.


Tomei uma ducha, peguei algumas roupas e objetos básicos, coloquei tudo numa mochila, entrei no Chevette 78 do meu pai e, vinte minutos depois, eu já estava na BR das praias. Na pressa de viajar, esqueci as fitas K7 que eu tinha separado ao lado da mochila e constatei, um pouco antes da subida da Serra, que no carro eu só contava com 3 fitas pra ouvir durante toda a viagem. Eu não ia voltar daquele ponto. Já eram seis da tarde. Qualquer coisa, eu poderia comprar uma ou duas fitas lá no litoral mesmo. A primeira das fitas que estavam no porta-luvas do carro tinha algumas músicas do Zé Ramalho (Acústico 20 Anos, 1997) de um lado, e algumas músicas do Alceu Valença (7 Desejos, 1992) do outro. A segunda era uma coletânea da banda Yes (Classic Yes, 1981). E a terceira fita K7 era uma coletânea gravada pela minha ex-namorada e que acabou ficando esquecida no carro. No lado A tinha Dire Straits, que ela adorava, e no lado B, uma mistura de músicas pré-punk, punk e pós-punk. A letra dela era muito delicada.

A estrada estava tranquila, não havia muitos caminhões naquele horário. Imagino que os caminhoneiros deveriam estar jantando. Foi o que fiz quando parei em Matinhos. Entrei num restaurante qualquer. Enchi meu prato de feijão, arroz, batata e sei lá mais o quê. Devorei aquilo em poucos minutos. Comi um segundo prato e acendi um cigarro olhando pro mar. Estar sozinho nunca foi um problema pra mim. Filhos únicos não têm esse problema. Mas por algum motivo, estar sozinho ali me incomodou um pouco. Eu já tinha feito viagens desacompanhado e sempre fiquei bem, mas ali, naquele restaurante semi-vazio na baixa temporada, com a televisão ligada sem volume no Jornal Nacional, me senti desvinculado de tudo e de todos.

Entrei no carro e Zé Ramalho me disse: "Nada vejo por essa cidade, que não passe de um lugar comum". Passei por Caiobá e cheguei ao ponto de travessia da Baía de Guaratuba. O último Ferry Boat estava prestes a partir e estacionei na embarcação. Não havia mais nenhum carro além do meu. Eu fizera aquela travessia muitas e muitas vezes em companhia dos meus pais nos anos 70 e 80. Nós tínhamos uma pequena casa na praia de Itapema do Norte, na divisa com Santa Catarina. A casa foi vendida ali por 1989 ou 90. Resolvi ir até lá rever a praia onde passei uma boa parte da minha infância.

Havia um longo trecho de estrada de terra. À época, não havia muita conservação dessa via, então eram tantos buracos que não tinha como dirigir a mais de 40 ou 50 por hora. Foi cansativo passar por ali, mas consegui chegar em Itapema. O lugar estava maior, mais urbanizado. Fui até o bar do Loreno, que ficava ao lado de umas pedras. O estabelecimento ainda existia, mas estava fechado. A praia estava vazia. Fui até as pedras e me sentei pra olhar o mar. Fiquei ali com pensamentos aleatórios, até que depois de alguns minutos, tive a sensação de ter ouvido uma uma voz de mulher vindo de longe. Olhei em volta mas não vi ninguém.A voz tornou a surgir, e vi que ela vinha do outro lado de umas pedras altas. Circundei as pedras devagar e avistei ao longe um casal que fazia sexo na outra extremidade. Eu estava protegido pelas sombras e não resisti à curiosidade de observar por alguns momentos a cena. Subitamente, senti vergonha de mim mesmo e, com cautela para não ser visto, me afastei dali.

Dirigi alguns quilômetros pela estrada que margeia a praia. A visão do casal transando me fez sentir mais solitário do que eu já estava sentindo. Ouvi a fita do Yes pra abstrair, mas em certo momento virei à esquerda em direção à praia, numa rua onde só havia mato. A região onde eu estava era praticamente desabitada e desprovida de iluminação. Parei o carro perto da praia, ao lado da única casa da rua. O lugar estava totalmente fechado e com a garagem vazia. A única luz naquela praia vinha da Lua cheia. Andei pela areia e me sentei a alguns metros do mar. Não estava frio. Ao contrário, havia até um leve mormaço no ar. Ao longe, brilhavam pequenas luzes da Ilha de São Francisco do Sul. Acendi um cigarro, tirei minha roupa e tomei a primeira das dez cervejas que comprei no restaurante.
Realmente eu deveria ter ido com alguém. À minha frente, as imensidões do céu e do mar pareciam se fundir na luz prateada da Lua. Quando criança, eu tinha medo de olhar para o mar à noite. Pensei em todas as coisas que me provocaram medo ao longo dos 25 anos da minha vida. Depois, imaginei que teria de enfrentar muitas outras coisas até piores e me perguntei se eu tinha estofo pra encarar o que vinha.


Acendi outro cigarro e abri a segunda cerveja, ponderando que talvez tivesse sido melhor ficar em Curitiba e ter ido a qualquer bar e conhecer qualquer mulher, ao invés de ter me deslocado até o limite entre o continente e o oceano pra ficar sentindo pena de mim mesmo. Esse pensamento não durou muito, porque na metade da quinta cerveja e de incontáveis cigarros, apaguei ali na areia.


2
Não sei quantas horas dormi, mas acordei com pingos de chuva no meu rosto. Só tive tempo de pegar minhas roupas, as cervejas que restaram e correr em direção àquela casa, ao lado da qual estacionei meu carro. Pulei a cerca e me refugiei numa pequena varanda. A chuva foi torrencial. Naquele instante, eu já estava arrependido de estar ali. Acendi um cigarro e fiquei calculando mentalmente quanto eu gastaria caso me hospedasse num hotel por uns dois dias. Comecei a não ver nenhum sentido em estar ali sozinho me deblaterando com questões, em certa medida, insolúveis. "Onde eu tava com a cabeça quando decidi vir pra cá?", pensei. Envolvido por essas indagações, quase não percebi a aproximação de alguém com um guarda-chuva e uma lanterna.


Rapidamente me vesti e fiquei no aguardo. Era um homem mais ou menos da minha idade. Parecia um pescador. Conheci muitos na minha infância. O sujeito apontou a lanterna para mim e ficamos nos olhando em silêncio por alguns instantes. Ele desviou a luz do meu rosto e disse, com aquele sotaque catarinense, que eu não precisava ter medo, que ele não era nenhum ladrão ou coisa assim. Perguntou se o carro era meu. Olhei pra ele e disse: "Por que?"


Ele abaixou a cabeça e respondeu que precisava de ajuda. Sua filha de dez anos estava passando por uma crise de asma e precisava ser levada até Guaratuba com urgência, mas seu fusca estava com problemas no motor. Disse que seu nome era Donizeti e que trabalhava como pescador de camarões. Levantei e fui com ele até sua casa. Em momento algum duvidei da sua palavra, ou achei que fosse algum tipo de golpe pra levarem meu carro. Trabalhei como escrivão de polícia por um ano e meio e aprendi a reconhecer, de modo geral, quando uma pessoa está mentindo.


Fomos no meu carro até sua casa. A menina respirava com dificuldade e eles estavam sem a bomba de asma. Donizeti me apresentou à sua esposa. A mulher me cumprimentou mal conseguindo disfarçar que estava em pânico, mas teve a educação de perguntar: "Moço, você não quer um chinelo? Tá aí descalço". Agradeci e disse que estava tudo bem. Donizeti se instalou no banco de trás com a menina e eu toquei o carro em direção à via principal. Com a chuva, a pista estava mais difícil do que já era. Ela se transformou num longo tapete de lama que se estendia por quilômetros. Eu tinha uma máquina poderosa na minha mão - um Chevette 78 (1.6) - mas nunca fui um grande motorista. E na escuridão da noite, cercado de mato dois dois lados, as coisas complicavam mais ainda.


Levamos algum tempo pra chegar no começo da via que ligava Itapema à rodovia de Garuva. Havia mais uns 7 km de estrada de terra até chegarmos ao asfalto. O carro atolou 3 vezes. Numa delas, tivemos de usar um pedaço de madeira que achamos no mato pra tirar o pneu do barro. A chuva não estava mais tão forte, mas prosseguia com regularidade. No banco de trás, a menina lutava pra inalar o máximo de ar a cada respirada.

Quando finalmente alcançamos a rodovia, tentei dirigir o mais rápido possível, mas a pista estava molhada e eu não queria perder o controle do veículo. Na entrada de Guaratuba, um caminhão "podou" meu carro e me fechou de forma abrupta - acho que eu estava indo muito devagar pros padrões do motorista. Quase derrapei, mas consegui manter o carro na estrada. Olhei para o banco de trás. Donizeti sussurrava de olhos fechados um Pai Nosso. A menina arfava com os olhos trêmulos de quem está exausto após um longo esforço físico.

O Pronto Socorro estava sem outros pacientes, não havia fila. Ela foi atendida com rapidez e eficiência. Do lado de fora, as primeiras luzes da manhã começaram a dar forma às construções. Sentei num banco, acendi um cigarro e fiquei observando uns pombos que lutavam por um pedaço do que parecia ter sido um peixe. Uma matilha de cães de rua passou por mim sem me dar a menor atenção. Apaguei o cigarro e devo ter adormecido sentado no banco, porque quando abri os olhos, o Sol estava alto e brilhava com intensidade no meu rosto. Donizeti estava no balcão falando com a enfermeira e a menina, cujo nome, vim a saber, era Letícia, estava sentada numa cadeira. Ela me olhou e sorriu.

3
Aceitei o convite de Donizeti para ir até a casa de seu sogro, ali mesmo em Guaratuba. Fui muito bem recebido e pude dormir umas horas numa incrivelmente confortável rede de balanço. Quando acordei, um strogonoff com arroz e batata frita me esperava. Conversamos por horas. Eles me contaram toda a história da família, falaram do trabalho de extração do camarão, falaram até sobre a história de Guaratuba. Fiquei amigo daquelas pessoas, me senti bem entre elas. Ali por umas 3 e meia da tarde, levei Donizeti e Letícia de volta à Itapema. Ele insistiu em colaborar com a gasolina, mas eu disse que não precisava. No caminho, ouvimos Dire Straits. A menina pareceu gostar.


Passei o resto do dia tirando umas fotos. Jantei peixe com eles e dormi várias horas. Fui acordado umas cinco da manhã por Donizeti que me convidou para ver a chegada dos barcos pesqueiros. Não só observei, como ajudei a trazer as embarcações para a praia. Além dos camarões, eles trouxeram também uma raia gigantesca, um animal saído de um quadro de Hieronymus Bosch. À tarde, tirei mais umas fotos por lá e cheguei a dormir uma última noite na casa deles. De manhã, bem cedo, fotografei o nascer do Sol e me despedi de Donizeti, e da família, agradecendo pela estadia. Eu me sentia ótimo.


Já na BR, de volta para Curitiba, escutei os sons punks gravados pela minha ex-namorada na 3ª fita K7. A fúria daqueles caras era pequena, se comparada à euforia que eu estava sentindo pelo simples fato de estar vivo. Nos anos seguintes, voltei a Guaratuba algumas vezes, mas nunca mais estive em Itapema. Não voltei a falar com eles. Nenhum motivo em particular, simplesmente não aconteceu. Nunca contei sobre esses eventos a ninguém. Nem mesmo aos meus pais.



4
Em 2009, eu estava curtindo outra fossa. Era um momento diferente e eu estava mal em função de razões muito diversas das que me fizeram viajar para a praia em 1998. Meus motivos agora eram mais adultos, digamos assim. Minha mãe tinha morrido no ano anterior, eu estava sozinho, com contas a pagar e, novamente desempregado, fazendo bicos em jornais de bairro. Cheguei a escrever horóscopos sob o pseudônimo de "Senhor Solar" pra ganhar uns trocados. "No dia de hoje, o sagitariano irá receber uma agradável surpresa, mas deverá usar de sabedoria para extrair os melhores resultados da novidade". Esse tipo de coisa. Eu estava ferrado mesmo.


Numa noite, rodei toda Curitiba e fui parar no Bar Parangolé, que era da minha amiga Elisa. Os caras do Jazz Cigano haviam acabado de tocar e o local estava relativamente cheio. Novamente eu estava sozinho e bebia uma cerveja no balcão. Elisa comentou que eles estavam servindo Caldinho de Feijão com torresmo, uma invenção do "Ale e Óculos", um maluco do curso de Biologia da Federal, amigo do meu amigo Giuliano Andreso e também do Cassiano Gatto. Parece que o Ale começou a fazer isso ali por 95, pra incrementar as festas do DCE da Federal, daí a fórmula popularizou e vários bares passaram a servir a iguaria, principalmente no inverno.


Quando eu ia pedir pra eles fazerem um pra mim, fui interpelado por duas moças de aproximadamente vinte anos. Elas tinham aquele fervor no olhar característico dessa faixa etária e exalavam tantos hormônios, que todos os meus sentidos se aguçaram. Se não me engano, elas também eram estudantes de Letras da Federal. Estavam vendendo fanzines de poesia e distribuindo panfletos sobre uma festa numa chácara. O nome da festa era Lua Verde.


A mais baixinha (posso falar assim porque também não tenho muita altura), me chamou a atenção. Ela tinha os olhos negros, levemente puxados, parecendo ter alguma ascendência indígena. Lembrava um pouco a atriz Edna de Cássia, do filme "Iracema, uma Transa Amazônica", de 1976. Usava uma camiseta do Pink Floyd, fase Syd Barrett. O desenhista americano Robert Crumb iria gostar dela, pois tinha coxas voluptuosas. A outra moça falava sobre a tal chácara, quando foi interrompida pela baixinha que, olhando na minha cara, perguntou: "Seu nome é João? João Cândido?" Fui pego de surpresa, hesitei por alguns instantes, mas acenei afirmativamente a cabeça, confirmando que era eu. Daí ela disse que era a Letícia, de Itapema do Norte.


Na hora me veio a imagem daquela menina de dez anos sorrindo agradecida em minha direção, e qualquer objetivo que eu tivesse em relação à moça de 20 anos que estava à minha frente evaporou sem deixar vestígios. Ela me abraçou com efusividade, beijou meu rosto e contou à amiga sobre a situação de 1998. Conversamos por alguns minutos. Ela contou que seu pai ainda era vivo e continuava pescando. Trocamos números de celulares e ela, segurando minha mão, sugeriu que a tal festa ia ser bacana - foi a palavra que ela usou - e que ela ia curtir se eu fosse. Em seguida, elas se despediram e voltaram a abordar as pessoas no bar. No dia da tal Festa da Lua Verde, cheguei a cogitar se seria o caso ir. Mas não deu. A imagem da menina de dez anos me olhando com candura insistia em voltar à minha mente e eu vi que aquilo tinha tudo pra dar errado. No final, optei pela zona de conforto de um churrasco com amigos old school ao som de Rock Progressivo e sons congêneres.



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Fotos: João Cândido Martins, Itapema do Norte, 1998


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Fita K7 1 (resumida)
Zé Ramalho - 1997 - Kriptônia (acústico) 

https://www.youtube.com/watch?v=-Ty0vA8NC2M
Zé Ramalho - 1997 - Jardim das Acácias II
https://www.youtube.com/watch?v=vIygAjBXreU
Alceu Valença - 1992 - Papagaio do Futuro/Côco das Serras" 

https://www.youtube.com/watch?v=TZ_mN5OY3To
Alceu Valença - 1992 - Sete Desejos 

https://www.youtube.com/watch?v=QXsmzByFi_Y
Alceu Valença - 1992 - Junho
https://www.youtube.com/watch?v=Cw6snTpl16E


Fita K7 2
Yes - 1981 - Classic Yes (disco completo)
https://www.youtube.com/watch


Fita K7 3 (resumida)
Dire Straits - 1980 - Romeo and Juliet
https://www.youtube.com/watch?v=fGRtHd7UdYA
Dire Straits - 1982 - Private Investigations 

https://www.youtube.com/watch?v=KcXUiNHFngI
Velvet Underground - 1969 - Temptation Inside Your Heart 

https://www.youtube.com/watch?v=ni1xblCi1LA
Velvet Underground - 1969 - She's My Best Friend 

https://www.youtube.com/watch?v=5A3P2yiwrIA
Velvet underground - 1970 - Ocean 

https://www.youtube.com/watch?v=g9lwcw-_nkY
Velvet Underground - 1970 - Cool It Down 

https://www.youtube.com/watch?v=5QhWTxebUGs
Sex Pistols - 1977 - Holidays In The Sun 

https://www.youtube.com/watch?v=r7_KZE0y5e8
The Clash - 1977 - I Fought the Law 

https://www.youtube.com/watch?v=yhcreVY_qLI
The Clash - 1979 - London Calling 

https://www.youtube.com/watch?v=XN7iEFVLf5c
Public Image Ltd. (PIL) - 1986 - Rise 

https://www.youtube.com/watch?v=OmVSXGuMoGI


 

 

 

 



















 















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