quarta-feira, 27 de maio de 2020

CAZUZA - 1988 - "AO VIVO NO CANECÃO"
João Cândido Martins

Minha mãe, Lôla, tinha essa amiga de infância, que aprendi a chamar de Tia Alaci, embora minha mãe e minhas tias se referissem a ela como Lácia. Era uma senhora muito serena, sorridente e me tratava com o mesmo carinho que se dedica a um sobrinho querido. Quem conhecesse Tia Alaci no âmbito familiar, talvez nem desconfiasse que ela trabalhava como delegada de polícia. Era colega do meu pai. Não sei muito da sua vida profissional, mas lembro que minha mãe comentava que ela tinha respeito no meio.

Tia Alaci tinha um filho e duas filhas. A mais nova se chamava Mônica. Ela devia ser uns cinco ou seis anos mais velha que eu, mas apesar da diferença de idade, sempre conversamos numa boa. Como sua mãe, ela também transmitia muita calma e ponderação. Em 1987, houve uma festa na casa de Tia Alaci, acho que era aniversário da Mônica, pois havia amigos dela presentes. Em certo momento, eu, aos 14 anos, me vi sentado no chão de um quarto semi-iluminado em companhia dela e dessa rapaziada na casa dos vinte e poucos. Estávamos em plenos anos 80, então em minutos o ambiente foi tomado por uma espessa nuvem de cigarros. Os discos de vinil e fitas K7 se sucederam. Lembro que foi a primeira vez que ouvi Beto Guedes e Lô Borges. Eles também tocaram Santana, Janis Joplin e Stones ("Tatoo You").


Mônica tinha um violão que ficou durante um bom tempo nas mãos de um dos seus amigos. Ele tocou Zé Ramalho, Raul Seixas e Legião Urbana. O cara perguntou se alguém queria tocar e eu, que até aquele momento estava só escutando a conversa, me voluntariei. Ele me passou o instrumento. Toquei "Canoeiro" do Caymmi e a música "Sina", do Djavan, que aprendi numa daquelas revistas de acordes que vendiam em bancas.

Uma das amigas de Mônica gostou do meu estilo, e ficou me encarando fixamente com seu cabelo dourado e um olhar de ninfa pré-rafaelita. Quis me exibir pra ela e toquei uma versão totalmente equivocada de "Odeon", do Ernesto Nazareth, que foi recebida com alguma frieza por todos. O violão foi parar em outras mãos, e a menina amiga de Mônica - que foi uma das primeiras mulheres a me olhar com algum interesse (além da minha mãe), em poucos segundos esqueceu da minha existência. No final da festa, me despedi de Mônica e saí de lá com uma avalanche de referências musicais novas.

No ano seguinte, no meu aniversário de 15 anos, Mônica me deu um disco de vinil de presente. Quando abri, fiquei um pouco decepcionado. Era um disco ao vivo do Cazuza lançado naquele mesmo ano. As únicas coisas de rock BR 80 que eu ouvia àquela altura eram o Legião Urbana Volume 2, de 86, e o ao vivo de 87 do Paralamas do Sucesso, que ganhei da minha prima Cynthia Werpachowskki. Da banda Barão Vermelho, eu conhecia duas ou três músicas, sendo que uma delas, "Bete Balanço", só ouvi porque fazia parte da trilha sonora do filme de mesmo nome, que assisti no cinema.

Claro que não deixei transparecer minha frustração. Não fiz como meu amigo Emerson Almeida, que ao receber um disco da Madonna de presente de uma tia, soltou um obrigado tão seco que a mulher nunca mais lhe deu nada na vida. Agradeci pelo disco e conversei com Mônica sobre outros assuntos.


O disco ficou parado por quase um ano, até que, um dia, fiquei curioso e resolvi conferir. Tive de fazer algumas audições até me acostumar com aquele tipo de sonoridade das produções oitentistas, mas as músicas me cativaram. Apesar do clima predominantemente romântico (e em alguns momentos meio piegas), havia espaço pra alguma crítica social e um leve toque existencialista. Curti o disco e ele acabou servindo de porta de entrada pra outros sons que antes eu nem pensava ouvir. Sou grato à Mônica por ter me aberto os olhos pra sonoridades mais "pop" que antes eu desprezava por preconceito.

Anos depois, Mônica fez uma viagem à Índia, e mandou para meus pais uma foto sua em frente ao Taj Mahal. Confesso que nem lembro a última vez em que a vi e acredito que ela nem faça ideia da importância que aquela noite e o disco do Cazuza vieram a desempenhar no meu gosto musical. Espero que ela esteja bem.


Cazuza - 1988 - "Ao Vivo no Canecão"
https://www.youtube.com/watch?v=5KGuQWr-VMI





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