quarta-feira, 27 de maio de 2020

RADIOLAS
João Cândido Martins

Esses dias, meu amigo e ex-colega de faculdade Regis Oliveira postou a foto de uma radiola que, aparentemente, estava em pleno funcionamento. Na hora, lembrei das duas radiolas que tive contato na minha infância: a dos meus pais (em que apareço encostado na primeira foto da sequência) e a que ficava na casa do meu avô, onde moravam também meus tios e meu primo (e onde hoje moram minha prima Cynthia Werpachowskki e a Lucinéa Dobrychlop). Para uma criança, as radiolas eram tão fascinantes quanto a música que elas tocavam.


Estes aparelhos de som foram muito populares entre o final dos anos 40 e meados dos 70, quando passaram a ser vendidos com a denominação de "consoles stereo". Nas grandes cidades brasileiras e em boa parte do interior, radiolas eram comuns. Embora houvesse modelos de luxo feitos com madeira de lei, o grande público dispunha de um vasto catálogo de radiolas baratas e acessíveis. Elas surgiram em substituição aos antigos gramofones e fonógrafos, que imperaram no primeira metade do século XX. A radiola inovava apresentando-se como um móvel que compunha a decoração da casa. Ela tinha a praticidade de associar o toca-discos e o rádio num mesmo corpo de madeira. As caixas de som também integravam a estrutura da radiola, sendo que algumas vinham com espaço para armazenamento de discos. Posteriormente, a partir do final da década de 50, haveria radiolas com televisões acopladas.


Com o surgimento em 1970 dos primeiros toca-discos 3 em 1, que abandonaram o design em madeira incorporando um visual mais futurista com ênfase nos aspectos eletrônicos, o público foi gradativamente abandonando as radiolas. Foi o que aconteceu na minha casa, por exemplo. Ali por 83, meus pais compraram um CCE de aparência metálica e tampa fumê. Com 10 anos, me empolguei com a novidade tecnológica e nem me interessei em saber que fim teve a antiga radiola.

Uma atitude ingrata, considerando que aquela radiola foi o início de toda a minha formação musical. Risquei muitos discos da minha mãe até aprender a manipular o braço e a agulha com a precisão necessária. Depois que ganhei maior autonomia pra usar o aparelho, me joguei de cabeça na coleção da minha mãe. Meu pai não era de ouvir música, o negócio dele era futebol. Acho que o único disco que ele teve na vida foi um do Nelson Gonçalves - "Nelson de Todos os Tempos" - lançado em 1975, que ele escutava de 10 em 10 anos. Minha mãe, ao contrário, gostava de muita coisa, principalmente no campo da música brasileira. Ela tinha desde material popular na linha Benito de Paula e Eliana Pittman até alguns nomes da MPB pré Bossa Nova como Noel Rosa, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Braguinha, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Ciro Monteiro e o violonista Dilermando Reis, aquele que foi chamado à Brasília pra dar aulas de violão ao Juscelino. Sem mencionar discos de personagens mais obscuras como Custódio Mesquita, parceiro de Mário Lago na música "Nada Além".






















Pela aparência, acredito que a radiola dos meus pais devia ser do começo dos anos 60. Como se diz no meio musical, ela "falava bem", ou seja, tinha uma boa acústica e as caixas projetavam o som com intensidade. A porta esquerda superior da radiola, ao ser aberta, ficava na posição horizontal, tornando-se o apoio onde era possível deslizar para fora da estrutura a mesa onde ficavam o prato e os mecanismos do toca-discos. As paredes internas do espaço onde ficava o toca-discos eram revestidas por espelhos, o que me permitia ver minha própria cabeça se repetindo até o infinito. O aparelho tocava discos de 33, 45 e 78 rpm. E havia o cheiro da madeira, que às vezes, até hoje, nos momentos mais inesperados, ainda recordo com nitidez. Ao abrir a porta esquerda da radiola, havia o rádio e um equalizador primitivo.

Como eu disse, essa radiola desapareceu lá de casa e eu mal percebi, pois estava deslumbrado com o aparelho CCE e seus botões prateados. Foi nesse toca-discos de visual moderno que acabei, finalmente, me iniciando no rock. O único disco de rock que minha mãe tinha era uma edição original de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (67), dos Beatles, mas na verdade, ela só tinha a capa. Alguém surrupiou o disco e passei toda minha infância imaginando como seria a música contida naquele álbum de capa tão colorida.

Acho que minha prima Cynthia anda conserva a radiola que era do meu avô. Se o aparelho ainda está lá, é uma preciosidade. Radiolas viraram caros objetos "vintage", alvo de desejo dos audiófilos mais especializados. Sua conservação também é um pouco dispendiosa, pois depende de peças que estão fora do mercado há anos. Muitos funcionavam a válvulas. Nas fotos, alguns exemplares de radiolas de épocas diversas.


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Duas músicas do disco de Nelson Gonçalves, o único que meu pai teve na vida. A versão de "Nada Além" gravada por Orlando Silva em 1938. E uma adaptação de "Midnight Cowboy" gravada pela Orquestra Franck Pourcel, que minha mãe apreciava bastante. Pourcel, a exemplo de maestros como Ray Conniff, Mantovani e Paul Mauriat, era especializado em registrar músicas de sucesso nas paradas em versões "easy-listening" (FM Light). Mas, no meu entendimento, Pourcel era musicalmente um pouco mais sofisticado que seus pares.
Nelson Gonçalves - 1975 - "Viagem" (João de Aquino/Paulo César Pinheiro) https://www.youtube.com/watch?v=tF6zn2fOPb8
Nelson Gonçalves - 1975 - "Caminhemos" (Herivelto Martins)
https://www.youtube.com/watch?v=cpk58-MsxMA
Orlando Silva ´1938 - Nada Além (Mário Lago/Custódio Mesquita) https://www.youtube.com/watch?v=IqidcLvOOM4
Franck Pourcel - 1969 - "Midnight Cowboy"
https://www.youtube.com/watch?v=qeOd5qq7uwQ



 

 

 

 

 

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