terça-feira, 26 de maio de 2020

VIOLÕES
João Cândido Martins

Meu avô, Eugênio Paulino Martins, era negro, baiano e nasceu em 1912. Até onde sei, ele ficou órfão de pai e mãe bem cedo, passou dificuldades até que ingressou no exército com 16 anos (dizendo que tinha 18). Ele viveu aquele período turbulento do final dos anos 20 no Brasil e o fenômeno Getúlio Vargas. Não sei em que momento da vida ele teve contato com o violão clássico, mas parece que aos trinta ele já era um virtuose conhecido. Nesse meio tempo, já morando em Curitiba, casou e teve três filhas.

Não pôde ir à guerra em função de um incidente. Ele e um colega estavam carregando uma caixa de explosivos em 28 e uma granada estourou próximo a eles. No susto, o colega de meu avô soltou a caixa, obrigando meu avô a segurá-la sozinho. Se ele deixasse aquilo cair, tudo iria pelos ares. Ele aguentou o peso da caixa e depositou os explosivos no chão, salvando a própria vida e a de todos que estavam à sua volta. Mas o esforço lhe custou uma hérnia que o acompanhou por toda a vida.

Viúvo aos 40 anos e com três filhas pra criar, instalou-se na região de Santa Quitéria, onde, entre os anos 40 e 50, houve um grande projeto habitacional. Ele tentou ensinar minha tia mais velha (Leony) a tocar violão, mas minha mãe contava que minha tia era mais dada a ler do que a praticar o instrumento. Então meu avô resolveu ensinar violão à minha mãe (Leonor, também conhecida como Lôla). Minha outra tia se chamava Lília, mas, nessa época, ela era pequena ainda.

Segundo o relato de minha mãe, as aulas com meu avô eram difíceis. Ele não queria nada menos do que a perfeição. Minha mãe estava interessada no instrumento, se aplicava, mas ao mesmo tempo era uma menina de menos de dez anos e queria brincar, se divertir. E aprontar travessuras, como toda criança faz, mas naquele momento, ainda vigorava o uso dos castigos físicos contra crianças. Era uma prática lamentavelmente vista com normalidade e minha mãe e tias, como não podia deixar de ser, enfrentaram algumas situações que, adultas, elas relembravam com humor. Todos sabiam que na cabeça de meu avô e na de toda a sua geração, havia o entendimento de ser a coisa certa a ser feita. Por sorte, nem minha mãe nem minhas tias aplicaram esses métodos em seus filhos.

A evolução da minha mãe ao violão se tornou visível e ela passou a se apresentar em público, sempre sob os cuidados do meu avô. Muitos a consideravam uma menina-prodígio pela facilidade com que executava as peças mais elaboradas. Ela esteve prestes a iniciar uma carreira internacional. Foi convidada a se apresentar em Buenos Aires em 1947, mas meu avô, por alguma razão, se opôs à viagem. Vendo que não conseguiria naquele momento emplacar uma carreira como violonista, minha mãe resolveu ser professora e foi a profissão que ela exerceu durante toda a vida. O violão virou um hobby para ela. Com a idade, ela desenvolveu artrite e artrose nas mãos, o que a impediu de continuar tocando.

Tenho o violão de meu avô, que me foi passado pela minha prima Cynthia Werpachowskki há alguns anos. É um Gianinni 1931, feito com madeira nobre e tarrachas de marfim. Ele ainda tem um som poderoso. O violão de minha mãe era mais simples, mas estava longe de ser ruim. É ele que estou tentando segurar nessa foto de 1977 ou 78.


Fotos 1 e 2: meu avô Eugênio Paulino Martins nos seus tempos de Exército, na década de 30, em Curitiba. Foto 3: minha mãe, Lôla, tocando violão na década de 30
Foto 4: Eu, com o violão da minha mãe em 1977 ou 78






























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