quarta-feira, 27 de maio de 2020

O CRIME PERFEITO
João Cândido Martins


Em 1993, a Rede Globo transmitiu uma novela das 8 de nome "Renascer". Nunca fui de acompanhar novelas, com exceção de "Feijão Maravilha", novela das 7 que passou ali por 78/79, e tinha um clima de chanchada anos 50, inclusive com a presença de Grade Otello, José Lewgoy e outros nomes do cinema nacional. Assisti os capítulos iniciais da novela "Pai Herói" e também vi algumas cenas da novela "Paraíso", em que Kadu Moliterno (um dos surfistas de "Armação Ilimitada") interpretava o Filho do Diabo. Como todo brasileiro vivo em 1986, assisti esporadicamente "Roque Santeiro". 

Tirando essas produções, e "Saramandaia", de Dias Gomes, que encontrei na Internet muitos anos depois, nunca me dei ao trabalho de acompanhar os enredos da teledramaturgia nacional. Quando eles não eram muito primários, se arrastavam de forma indefinida sem chegar a lugar algum. Aliás, esse foi um dos motivos, pelo que eu soube, da novela brasileira não ter vingado na Alemanha. Os germânicos não conseguiam acompanhar uma história que se arrastava por 160 ou 180 capítulos de modo superficial, confuso e sem maiores aprofundamentos psicológicos.

Até que a Globo estreou "Renascer", em 1993. A novela era qualquer coisa nota 3,8. As atuações dos atores não chegavam nem perto das que eu via nos anos 70 e 80. Havia muitas cenas irrelevantes e a trilha sonora até tinha nomes fortes, mas as músicas eram fracas. Tudo ruim. Só um detalhe me fazia, sempre que possível, conferir a trama: Adriana Esteves, que interpretava uma lolita nabokoviana do sertão. Eu tinha 20 anos, e casaria com ela, se fosse o caso. Mas não era o caso. E sempre que eu ia comprar cigarros numa banca de revistas, me confrontava com seu rosto e seu corpo em dezenas de publicações.

A personagem foi capa da revista Manchete e o dono de uma banca de revistas, que ficava no caminho entre minha casa e o ponto de ônibus, colocou um cartaz com a imagem dessa capa na parte externa lateral do estabelecimento. Todo dia eu voltava da faculdade ali por dez e meia, onze da noite e lá estava ela com seu olhar convidativo e seus pés descalços de menina da fazenda. Uma sexta-feira qualquer, eu saí da aula e tomei algumas cervejas com uns colegas. Depois disso, lá pelas duas da manhã, peguei o ônibus "madrugueiro" São Bráz e, levemente embriagado, me dirigi para casa. Quando passei pela banca de revistas, Adriana Esteves me olhava iluminada pela forte luz de uma lua cheia, daquelas que só acontecem nas madrugadas frias de Curitiba.

Acendi um cigarro e fiquei observando a foto. Depois de algumas tragadas, olhei em volta. Todas as casas estavam com suas luzes apagadas. Não havia carros transitando pela avenida Toaldo Túlio e o silêncio só era menor do que a abóbada celeste.
Naquele ano, 1993, eu havia acabado de entrar na Faculdade de Direito.de Curitiba (FDC), que naquela época costumava frequentar os topos dos rankings de melhores faculdades de direito do país. Estava me acostumando às novidades da vida acadêmica, me inteirando dos assuntos referentes ao cotidiano do curso e aos temas do mundo jurídico. A última coisa que eu imaginava, é que, já no primeiro ano de estudo das leis e das normas que regem a sociedade, eu iria me prestar a um furto. Mas aquela oportunidade era única e, ainda embalado pelos eflúvios alcoólicos, resolvi levar o cartaz pra casa.


Joguei fora o cigarro e, com cautela para não rasgar o papel, retirei a imagem que estava fixada somente com durex na parede externa da banca. Enrolei o cartaz, que era enorme, como se fosse um diploma e fui pra casa. Meus pais dormiam. Fui sorrateiramente até o quarto dos fundos e, finalmente, fiquei a sós com ela. Depois de uma hora olhando cada detalhe da imensa foto, enrolei novamente o papel e o depositei junto a uns exames médicos e algumas chapas de raio-x antigas que minha mãe guardava por razões que desconheço. 


E neste local o cartaz permaneceu escondido de forma insuspeita. Nos dez anos seguintes, devo tê-lo retirado dali umas 4 ou 5 vezes. Quando me mudei para o Campo Comprido em 2004, descobri que o cartaz havia desaparecido. Alguém o jogara fora. Senti um profundo vazio e a certeza de que nunca mais teria acesso àquela imagem. Os anos passaram e esqueci Adriana Esteves.

Até esses dias, quando me deparei com uma foto dela registrada agora em 2020, salvo engano, no site da Folha de São Paulo. Ao vê-la na atualidade, não resisti e fui ao Google onde escrevi Adriana Esteves/revista Manchete/1993. E lá estava ela. Não no esplendor gráfico de um cartaz de 1,7m x 1m, mas ainda interessante o suficiente para ser contemplada nessas madrugadas de quarentena.






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