quarta-feira, 27 de maio de 2020

MEU ENCONTRO COM A CANTORA JOYCE
João Cândido Martins


Em 1995, eu estava fazendo uma pesquisa sobre rock progressivo brasileiro. Não havia muitas fontes, os sites eram escassos e as publicações sobre o assunto também eram poucas e, em alguns casos, contraditórias e com erros de datas, esse tipo de coisa. Percebi que se eu quisesse saber alguma coisa, teria de fazer contato com os músicos progressivos. Fiz uma pesquisa por e-mails e telefones e consegui falar com alguns, entre eles a cantora Joyce Moreno que participou no começo dos anos 70 do grupo psicodélico A Tribo - http://dicionariompb.com.br/a-tribo

Ao contrário de outros músicos que mostraram má vontade em falar ou que sequer responderam, ela foi super solícita e gentil. Eu já a tinha visto ao vivo num palco que havia antigamente no começo do Estação Plaza Shopping, em Curitiba. No seu e-mail de resposta, Joyce esclareceu, de cara, que a praia dela sempre foi samba e bossa-nova e quem gostava mesmo de psicodelia e rock progressivo era o Toninho Horta. Mas ela me passou informações bem interessantes.

Em 98, ela voltou a Curitiba, dessa vez para divulgar seu disco com canções de Elis Regina, e foi marcado um show no Teatro do SESC, na Visconde do Rio Branco. Fui, claro. Levei um CD pra ela autografar e, depois do show, pela primeira vez na vida, me dirigi ao camarim de um artista. Ela me recebeu tranquilamente. Contei que eu era o cara que estava pesquisando psicodelia e progressivo no Brasil, etc. Ela lembrou. Falamos de música, dos discos dela, falamos sobre Vinícius de Moraes. Sua voz era tão calma e fluida que fiquei hipnotizado. Eu tinha 25 anos, já não era um adolescente, mas o fato é que eu não conseguia tirar meus olhos dos olhos dela. Até que não tive como não reparar que havia um cara ao lado, me encarando meio feio. Daí a Joyce disse: "conhece o Tutti, meu marido?" Eu o conhecia de nome. Era o Tutti Moreno, baterista brasileiro de primeiro time que tocou com uma galera nos anos 70.
Olhei pro cara, que tinha os dois olhos fixos em mim, e disse que a participação dele no disco do Jards Macalé de 72 era um dos momentos mais brilhantes da bateria brasileira no século XX. Ele ficou visivelmente surpreso, acho que não esperava um comentário daqueles, até porque, na época, o disco do Jards era pouco lembrado, ainda não tinha se tornado cult. Passada a surpresa, uns segundos depois, ele já estava se abrindo e dando risada.
Comi uns salgadinhos que estavam à disposição numa mesa, me despedi deles e encarei a chuva torrencial que caía do lado de fora. Corri umas quadras tentando proteger o CD recém autografado, até que cheguei ao meu ponto de ônibus e fiquei lá totalmente encharcado. Mas bastante feliz.




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