quarta-feira, 27 de maio de 2020

CONVERSA COM O MAJOR R.
João Cândido Martins

1
Lembrei de um episódio que vivi aos 16 anos no internato do Colégio Militar de Porto Alegre, em 1990. Certo dia ia ser realizada uma formatura (desfile) especial, acho que teria a participação de um general de Brasília, algo assim. A presença era obrigatória para todos. Naquele dia eu não estava no clima e resolvi me refugiar na biblioteca. Fiquei por ali conversando com a bibliotecária, a veneranda Tia Clara (que estava à frente do acervo do CMPA há mais de 50 anos). Ela me contava que o CMPA era famoso por ter sido escola de sete presidentes da república (Getúlio, Gaspar Dutra, Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo - todos facínoras, pensei eu), mas que também havia passado por ali o poeta Mário Quintana, a quem ela conhecia bem.


Num relance, vi pela janela que dava para o corredor externo a cabeça do major R. (comandante da 2ª Companhia a qual eu fazia parte) vindo em direção à biblioteca. Ele estava acompanhado por alguém. Só tive tempo de entrar num dos corredores de livros e vi que a parte de baixo de uma das estantes do fundo estava vazia. Foi ali que me enfiei e me espremi. Nem respirava. O major entrou e conversou rapidamente com Tia Clara. Não olhou estante por estante, mas conferiu todos os corredores e em alguns ele chegou a entrar. Mas não me viu.

Quando o major R. fechou a porta da biblioteca, eu saí da estante e a Tia Clara me recomendou ir para o andar de baixo que normalmente ficava vazio de manhã. Fui meio contrariado, não queria ficar sozinho, queria conversar. Mas lá estava eu naquele salão de pé direito alto (acho que deve ter uns 7 metros ou mais). O prédio foi construído em 1870, paredes grossas, portas de ferro. Aquele espaço térreo da biblioteca era escuro e as luzes que entravam pelas janelas deixavam tudo ainda mais melancólico. As janelas ovaladas davam um clima gótico ao lugar e um cheiro de papel antigo dominava o ambiente. Fiquei andando por ali e resolvi ver os livros. Havia coleções de revistas, enciclopédias antigas, tudo muito interessante eu poderia passar dias olhando tudo aquilo. Naquele dia descobri a revista Humboldt, entre outras coisas.

Circulavam no CMPA histórias sobre um assassinato que teria ocorrido ali na porta da biblioteca lá pelos anos 30. Olhei em direção à porta e não vi nem senti nada. Do lado de fora, o desfile seguia forte. Sentei num sofá que ficava embaixo da escada e fiquei folheando uma revista Cruzeiro antiga, quando em algum momento apaguei geral. Acordei no meio de um ronco com uma mão me balançando pelo ombro. Era o major R.

2
Passei exatamente duas horas sentado em frente à mesa do subtenente Porciúncula esperando o momento de falar com o major R. em seu gabinete. O major estava ocupado resolvendo alguma questão referente à lavagem dos lençóis do dormitório e eu tive de esperar. Durante duas horas fiquei imaginando que tipo de descompostura aquele cara ia me dar, se ele ia ser direto na punição ou se ele ia querer conversar sobre toda a historinha da minha vida. E não era a primeira vez que eu ia parar na sala dele. Eu já era conhecido do cara.


Houve uma vez em que ele descobriu uma carteira de cigarros no meu armário e passamos algumas horas com ele tentando me convencer a entregar nomes de colegas que poderiam ser possíveis usuários de drogas. Mesmo que eu soubesse, não entregaria ninguém, mas posso garantir que a experiência de ser interrogado por um tempo interminável sobre algo que eu não sabia nada foi tão ruim quanto uma agulha de dentista na gengiva.
Quando ele terminou de resolver a questão dos lençóis, me chamou pra dentro do seu gabinete. Entrei cabisbaixo. Ficamos em silêncio por alguns instantes até que ele começou a falar. E ele foi mais do que tranquilo, me tratou super bem, disse que a vida de internato realmente era uma coisa complicada e que ele entendia a sonolência habitual dos alunos internos. Ele me ofereceu café, contou umas histórias engraçadas do tempo da Academia das Agulhas Negras.


Major R, era um cara esperto. Ele viu alguns quadrinhos no meu armário e puxou assunto sobre isso. Mencionou que lia o cowboy Tex desde criança. A primeira coisa que me ocorreu dizer foi que às vezes eu me sentia numa história do Recruta Zero (em que eu era o Zero), mas não falei nada. Eu queria ficar à vontade ali com o major R., mas não conseguia esquecer o tom de voz monocórdio sombrio e hipnótico que ele usou pra me interrogar da vez anterior que conversamos.

Ele disse que sabia que um conto meu havia sido premiado num concurso e revelou que ele próprio tivera lá as suas inclinações literárias na juventude. Torci pra que ele não viesse com nenhum poema perneta pra eu ler e ter de educadamente elogiar, mas não foi o caso. Revelou que era um leitor voraz de Karl May. Cheguei a cogitar a hipótese de dizer a ele que o Karl May era uma das leituras favoritas do Adolf Hitler, mas fiquei sorrindo em silêncio.

Acho que foi uma boa conversa, uma tarde que eu não esqueço. Depois disso, nosso diálogo voltou a ser protocolar e chegamos a conversar a sós uma ou duas vezes antes de eu ser expulso do Colégio Militar no final daquele ano. Mas nessas duas últimas vezes ele não me ofereceu café.

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Imagem: Portão de entrada do Colégio Militar de Porto Alegre. Aquarela de Alberto Scherer (cópia comprada no Brique da Redenção em 1993) 



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