domingo, 31 de maio de 2020

A ESCADA ESPIRAL
João Cândido Martins


1
Após se formar em Medicina no Rio de Janeiro no ano de 1885, Floriano Cardoso se instalou em Curitiba, sua cidade natal, onde passou a clinicar na Santa Casa de Misericórdia. Era o único hospital de uma cidade que, após a inauguração da estrada de ferro, crescia de forma descontrolada. Liderados pelo velho doutor Bloch, cinco jovens recém-formados compunham a equipe médica. Floriano era especializado em ortopedia, mas no cotidiano se via obrigado a atender toda sorte de situações, o que não chegava a ser um problema, pois ele era um apaixonado pela Medicina.

Sempre gostou de ajudar os outros, de ser útil ao próximo. A escolha pela profissão de médico foi natural e, embora aqueles anos de estudo tenham lhe proporcionado eventuais fios de cabelo branco, ele tinha a consciência de que fizera a opção certa. E, agora, ali estava ele, naquele prédio cuja aparência gótica, conforme dissera alguns anos antes o viajante Bigg-Whitters, lembrava mais um hotel inglês da metade do século XIX, do que um hospital. A construção se destacava naquela campina que anos depois seria a atual praça Rui Barbosa. Era algo único na paisagem de Curitiba naquela época. Floriano se sentia bem no local. Em poucos dias já estava familiarizado com as dezenas de salas, corredores e escadas.

Floriano nunca escondeu suas convicções abolicionistas, mesmo que isso tenha provocado antipatia por parte de dois médicos colegas seus. Essas divergências não interferiam na rotina de trabalho, mas criavam uma delimitação, o que não chegava a incomodar Floriano, pois, embora fosse um humanista, nunca foi de apegos.

De qualquer forma, tinha a simpatia do Dr. Bloch, pois era o único da equipe a falar alemão. Floriano e o velho médico conversavam durante horas sobre Goethe e E.T.A. Hoffmann. E não passava despercebido a Bloch o fato de que Floriano estava aos poucos se tornando uma referência entre a população. Ele era eficiente e gentil. Tratava a todos de forma equânime. Do mais miserável escravo ao mais poderoso industrial da erva-mate. E também foi muito prestativo ao ajudar, por duas semanas, os médicos em Morretes, durante a infestação de varíola que se deu em 1885 naquela cidade.


2
Uma noite, após horas tentando inutilmente salvar um infartado, Bloch e Floriano se sentaram próximos a uma janela para tomar café e fumar. O velho fez alguns comentários sobre o paciente recém-falecido e, em seguida, passou a falar de outros enfermos. Ele pediu a Floriano que se encarregasse dos gêmeos subnutridos que haviam dado entrada naquela tarde. Pela primeira vez o jovem disse não.

“Como assim?”, perguntou Bloch. “Você nunca recusou um paciente antes.”

Floriano acendeu outro cigarro e passou a falar em alemão.

“O que acontece, Dr. Bloch, é que eu também fui gêmeo. Meu irmão morreu no parto. Meu pai me disse que a culpa foi minha, que o peso do meu corpo prensou o corpo do meu irmão e tudo se precipitou.”

O velho levantou a mão e disse também em alemão: “Seu pai era um leigo, não era médico, como ele pode ter tanta certeza? Pode ser que algum médico tenha dito isso a ele, mas não há como saber, portanto não tem por que você se culpar de nada.”

“Não é tão simples, doutor”, respondeu Floriano. “Convivo com essa culpa desde que me conheço por gente. Infelizmente não consigo lidar com gêmeos. Sei que fiz uma promessa de sempre tentar salvar vidas, mas não me peça pra fazer isso.”

Ambos ficaram em silêncio. Só se ouvia o barulho da chuva caindo de forma regular nas calhas do prédio. O velho apagou o cigarro e, levantando-se, convidou Floriano para ver uma coisa. Eles entraram por um dos corredores laterais e, de repente, o velho Bloch abriu uma porta que nunca tinha sido vista antes por Floriano.

“Que lugar é esse doutor?”

“Você vai ver”, respondeu o velho.

No centro de uma ampla sala vazia uma escada em espiral se erguia para além do teto.

“Temos de subir”, disse Bloch.

A escada parecia muito antiga. Era evidente que fora construída com uma madeira de altíssima qualidade. E era larga: duas pessoas caberiam em pé uma ao lado da outra nos seus degraus. Floriano seguiu Bloch que, apesar da idade, se locomovia com certa rapidez. A escada dava acesso a outra sala ampla. Mas esta não estava vazia.

Deitada em uma cama cirúrgica, uma mulher em avançado estado de gravidez gemia, enquanto era atendida por duas enfermeiras. Floriano levou menos que um segundo para reconhecer sua mãe. O jovem médico segurou Bloch pelos ombros e perguntou em tom incisivo:

“O que é isso? O que significa essa cena, esses atores? Você já sabia da minha história antes de eu contar?”

O velho Bloch disse que não sabia de nada e que aquelas pessoas não eram atores.

“Não é o momento de você me perguntar como isso está acontecendo. Simplesmente aproveite a oportunidade, vá lá e salve o seu irmão.”

“Isso é loucura” interrompeu Floriano, “eu sou um homem da ciência, não acredito no sobrenatural.”

O velho retorquiu: “Tudo bem, você pode descer a escada e voltar pra chamada realidade, mas vai viver cada um dos seus dias pensando em como teria sido bom salvar a vida daquele bebê.”

Floriano estava confuso. Não tinha ideia do que significava tudo aquilo, mas sentia-se muito tentado a proceder a operação. O velho o olhava enquanto sua mãe se contorcia na cama. Respirou fundo e foi em direção à pia para lavar as mãos e proceder o parto. Era estranho ver o rosto de sua mãe naquelas circunstâncias. Ela nunca o acusara de nada, mas também não impediu seu pai de fazê-lo. Vestiu a máscara e as luvas e tentou não a encarar muito.

Realmente um dos bebês estava pressionando o outro, mas com um sutil movimento das mãos, Floriano resolveu a situação. Os dois bebês estavam vivos. Olhou em direção a Bloch que durante o procedimento ficou parado ao lado da escada espiral, mas ele não estava mais lá. As enfermeiras retiraram os bebês e conduziram sua mãe para outra sala. Floriano ficou sozinho. Pensou em ir atrás das enfermeiras, mas lembrou que estava numa realidade diferente. Resolveu voltar.

A escada parecia mais escura do que antes, não era possível ver o seu fim. Floriano começou a descer. Lembrava que a escada em espiral fazia umas três curvas até chegar à sala do parto. Mas ele já tinha descido muito mais, e aquilo parecia não acabar. Começou a ficar nervoso, mas continuou descendo a escada até ficar imerso no breu. Ponderou se deveria continuar, mas olhando para cima, já não via o andar onde estava. Resolveu continuar a descer, até que depois de várias voltas acabou chegando à sala original. Encontrou a porta e saiu rapidamente daquele lugar. Como precisava respirar ar fresco, dirigiu-se ao jardim da Santa Casa. No caminho encontrou Bloch.

“Doutor, deu certo, salvei o bebê e a mim.”

O velho alemão deu uma tragada em seu cigarro e disse em português:

“Quem é você?”


3
Floriano andou pela cidade por um bom tempo, mas as pessoas não o reconheciam. Seus pacientes, pessoas a quem salvou a vida, diziam nunca tê-lo visto. No final da tarde, sem entender nada, entrou numa taverna qualquer. Pediu um vinho e depois de acender um cigarro ficou tentando imaginar o que poderia ter acontecido. Foi quando uma moça o abordou.

“Floriano? O que está fazendo aqui? Seu irmão está preocupado.”

“Meu irmão?”

“Sim, seu irmão Eduardo. Está tudo bem com você? Por que você está vestido de médico?”

Aos poucos Floriano conseguiu extrair as informações. Seu irmão, Eduardo Cardoso, era um empresário do ramo da extração e exportação de mármore. Ostentava o título de Barão da Cachoeira. Era conhecido por ser o maior proprietário de escravos do sul do Brasil. Ele, Floriano, era sustentado pelo irmão e morava num dos quartos do palacete do Barão, na rua Comendador Araújo. Tudo isso deixou Floriano chocado, e ele ficou por alguns instantes sem saber o que fazer. Até que ela o chamou para que voltassem para o palacete, pois estava na hora da janta.

“Você mora no palacete?”, perguntou o médico.

“Sim, eu e as meninas, você sabe. Acho que você bateu a cabeça.”

Eduardo não estava presente no jantar, mas as meninas estavam. Todas eram belas e sedutoras, algumas andavam seminuas.

“Que lugar era aquele?”, perguntava-se Floriano.

Tentou comer, mas não sentia fome. Queria ver seu irmão, ver seu rosto, ouvir sua voz. Entender o que o levou a se tornar um escravagista e tentar, se possível, transformá-lo, fazê-lo ver o erro que é ser dono de vidas humanas. Pelo menos era essa sua intenção até o encontro com Eduardo, que aconteceu à meia-noite.


4
“Ah, é você”, disse Eduardo. “Encoste essa porta pra não apagar as velas. Andou sumido. Que roupas são essas? Vai operar alguém?”

Foi como olhar um espelho. Floriano fitou o irmão que nunca vira antes observando cada detalhe do seu rosto, da sua voz, dos seus movimentos. Mas não havia tempo para abraços. “Quero saber como você se tornou o maior proprietário de escravos da região sul do Brasil”, disse Floriano.

Eduardo o olhou por baixo dos óculos e acendeu seu cachimbo. “Qual o problema? Você nunca se importou com isso. Pelo contrário sempre usufruiu do trabalho dos escravos sem dizer um muito obrigado nem a eles nem a mim.”

"Não é esse o caso, eu mudei de ideia quanto a isso. Acho que você deveria reavaliar, repensar essa situação. São seres humanos e não venha me dizer o contrário", insistiu Floriano.

Eduardo ouvia as palavras do irmão enquanto olhava fixamente para o mosaico no tapete persa que comprara no ano anterior. Após uma pausa, encarou Floriano e disse: "Em breve os escravos serão libertos, isso já é notícia corrente. Questão de alguns anos. Mas não tem problema, porque se a monarquia cair, o novo governo republicano vai precisar manter a economia girando e, pra isso, eles vão ter de estimular, e até mesmo ampliar a política de imigração. Mesmo que Dom Pedro II saia de cena, e nosso estilo de vida mude de alguma forma, mão de obra barata não vai faltar. Isso significa que você vai poder continuar com a vidinha que leva desde que éramos crianças". 

Eduardo tragou o cachimbo com reflexão e, soltando a fumaça, continuou: "Não crie caso, Floriano, não servem em você as roupas de libertário. Prometi aos nossos pais que eu ia cuidar de você, e vou cumprir a promessa. Você sabe que tem as minhas meninas à disposição, tem cama, tem almoço, jantar, tem o que você quiser. Só não me incomode." Quando Floriano ia falar, Eduardo o interrompeu: "Se você não tem mais nada a dizer, peço que se retire, porque preciso resolver algumas coisas. Feche a porta quando sair". Floriano percebeu que seria inútil tentar convencer o irmão e resolveu deixá-lo.

Saiu do palacete e, quase que instintivamente, caminhou em direção à Santa Casa de Misericórdia. O lugar estava vazio. Floriano sabia que Dr. Bloch não estaria ali naquela noite. Entrou furtivamente no prédio e, sem ser percebido, andou pelos corredores internos chegando ao local onde o velho médico o levara no dia anterior. Abriu a porta e lá estava a escada espiral.

O mesmo cheiro de madeira antiga dominava o amplo salão. Galgou degrau por degrau até que chegou ao andar superior, onde esperava encontrar novamente a cena de sua mãe com as enfermeiras. Pretendia observar sem fazer nada, deixar os eventos acontecerem naturalmente sem sua intervenção. Quem sabe, isso poderia reverter as mudanças. Mas quando Floriano chegou, não viu sua mãe.

Após o fim da escada, ele estava novamente no escritório de Eduardo, do qual acabara de sair. Eduardo estava sentado à escrivaninha, escrevendo. Floriano entrou com cautela.

“Ah, é você”, disse Eduardo. “Encoste essa porta pra não apagar as velas. Andou sumido. Que roupas são essas? Vai operar alguém?”

Floriano teve a sensação de que entendeu o que deveria ser feito. Viu um pequeno busto de minerva em mármore sobre a mesa do irmão. Aproximou-se, segurou o objeto com a mão direita e desferiu dois golpes contra a cabeça de Eduardo que morreu já na primeira pancada. Floriano deixou o corpo caído no chão e saiu do palacete em direção ao pequeno estábulo no fundo da propriedade. Escolheu um cavalo e foi embora sem saber ao certo para onde.






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