quarta-feira, 27 de maio de 2020





ENTREVISTA: LEON BARG (1930/2009) DONO DA GRAVADORA REVIVENDO, PESQUISADOR E COLECIONADOR DE DISCOS ANTIGOS - "QUEM QUISER VIVER DO COMÉRCIO DE DISCOS 78 RPM MORRE DE FOME"
Texto: João Cândido Martins - Fotos publicadas na matéria original: Lineu Filho (Jornal Folha da Praça - Universidade Tuiuti do Paraná, 2003).



Imagem: blogacordes


Aproximadamente 120 mil discos. Esse é o impressionante número de registros musicais colecionados pelo pernambucano Leon Barg, radicado em Curitiba há 54 anos. A coleção serviu como impulso para que Barg, com apoio de seus familiares, fundasse a gravadora Revivendo, especializada na reedição de músicas brasileiras originalmente lançadas nas primeiras décadas do século XX. Nomes como Francisco Alves, Orlando Silva, Mário Reis e Carmen Miranda, entre outros, são resgatados e, com eles, significativos períodos da história da Música Popular Brasileira que, a depender da mídia e das gravadoras multinacionais, permaneceriam na obscuridade.


Barg está sempre pesquisando e adquirindo discos antigos pelo Brasil afora e, além disso, há também contribuições de outros colecionadores ou mesmo de pessoas que sabem que seus discos antigos estarão melhor preservados nas mãos de um especialista. 


Claro que numa coleção tão volumosa são guardadas também duplicatas e, às vezes, até triplicatas de alguns títulos de maior relevância. O esmero se justifica: na primeira metade do século passado, as gravadoras, por economia, derretiam as matrizes, os registros originais. Portanto, não é raro que pesquisadores como Barg dependam de cópias na transposição do registro analógico para o digital. O processo se dá por meio de softwares específicos como o Soundforge, que elimina ruídos e chiados, porém, nem mesmo as mais modernas técnicas da informática são suficientes para trazer limpidez à gravações originalmente feitas de modo precário.


Folha da Praça inquiriu Leon Barg sobre quais artistas do passado teriam maior procura por parte do público e a resposta foi surpreendente: "nenhum deles vende, A procura é praticamente nula. Se um determinado estilo musical permanece ausente da mídia, A tendência é que ele desapareça em favor de estilos que tragam maior retorno financeiro às gravadoras".


FOLHA DA PRAÇA - Mas o senhor não é procurado por museus ou outras instituições culturais?


LEON BARG - Não, realmente não há procura.


FOLHA DA PRAÇA - Isso é curioso porque nos Estados Unidos, por exemplo, qualquer blueseiro de segundo time é reeditado em CD com textos explicativos, fotos. O Poder Público não deveria intervir na manutenção do patrimônio musical brasileiro?


LEON BARG - Estados Unidos é outra coisa. Mas esse fenômeno de esquecimento se reproduz em toda a América Latina, ou melhor, em praticamente todo o mundo. Estou vindo de uma viagem que fiz ao México, e lá a situação é pior do que no Brasil. Os governos não têm dinheiro sequer para ações sociais de emergência, que dirá, resgate cultural. Este CD, por exemplo, é de um cantor mexicano chamado Pedro Vargas (década de 30). Consta no encarte que o disco foi lançado por um instituto de preservação da música mexicana, mas ninguém sabe onde fica, ou mesmo se ele ainda existe. Por outro lado, países como Estados Unidos, Inglaterra e Espanha não só relançam seus grandes artistas do passado, como também realizam pesquisas sobre a história musical de países como o Brasil. Aqui, cada estado tem o seu Museu da Imagem e do Som (MIS), mas de modo geral a situação é precária. No último ano, o MIS paranaense apenas se manteve. Não recebeu subsídios para novos projetos e iniciativas particulares como a gravadora Revivendo são ignoradas. Se eu fosse lá, certamente seria recebido com risadas.


FOLHA DA PRAÇA - Disco antigo não dá voto.


LEON BARG - Nunca deu. Nesse momento, tenho em mente um projeto com gravações de Pixinguinha, mas infelizmente não tenho como bancar e ninguém toma conhecimento. Muito menos o Estado. Houve, durante um tempo, o Projeto Pixinguinha, idealizado por Hermínio Bello de Carvalho com apoio da Funarte, coisa que não adiantava muito, porque a Funarte sempre foi falida.


FOLHA DA PRAÇA - E como a gravadora Revivendo faz pra se manter?


LEON BARG - Buscamos propostas alternativas, algumas com um certo apelo comercial, como o Selo Again, que se dedica ao resgate de canções popularescas antigas, boleros, temas cinematográficos, coisas do gênero. Minha recente viagem ao México foi no sentido de buscar material para esse projeto.


FOLHA DA PRAÇA - Voltando à música propriamente dita, o senhor elabora coletâneas de determinados artistas sempre dividindo o CD entre conhecidos e obscuros. Qual o resgate mais curioso que o senhor já fez?


LEON BARG - Praticamente todos os artistas pré-Bossa Nova são, em certa medida, obscuros, com exceção de Carmem Miranda, Dorival Caymmi e alguns outros. Naquela época, como em qualquer outra, o que importava era a estrela do artista, seu carisma, a convicção que imprimia na interpretação de uma música. Não por acaso, Francisco Alves ficou conhecido como "Cantor das Multidões". O rádio era o maior difusor de comunicação de massa e os programas de auditório se tornaram o painel de projeção dos costumes e da maneira como a música popular atingia as pessoas. Outros artistas, como um Gilberto Álvares, por exemplo, não obtiveram tanta repercussão, o que não invalida sua importância histórica. Um fato curioso aconteceu quando apresentamos a Nelson Gonçalves sua gravação para o samba "Quase Louco". Ele simplesmente não lembrava de haver cantado aquilo.


FOLHA DA PRAÇA - João Gilberto, no início da Bossa Nova (final da década de 50), justificou seu canto quase sussurrado em função do aperfeiçoamento dos microfones. Segundo ele, não haveria mais razões para um cantor projetar a voz com tanta intensidade porque os microfones tinham um poder de captação muito mais avançado em relação à décadas anteriores.


LEON BARG - É verdade, mas em compensação, depois disso, qualquer um virou cantor. Claro que a Bossa Nova e seus desdobramentos conquistaram as gerações posteriores e, se ela foi influenciada pelas harmonias do jazz, também influenciou muitos jazzistas. Mas o fato é que a Bossa sempre foi um estilo elitizado, e as massas que não compreendiam aquelas harmonias musicais complicadas, se afastaram daquilo, optando por um cancioneiro menos sofisticado. Com o tempo, o verdadeiramente popular perdeu espaço e a mídia passou a empurrar qualquer lixo visando retorno financeiro imediato. Hoje a situação é crítica e as gravadoras desembolsam enormes quantias para divulgar "artistas" sem a menor consistência. Os jovens consomem grunhidos.


FOLHA DA PRAÇA - A crise da estética musical é uma decorrência da crise financeira das gravadoras?


LEON BARG - Até certo ponto, sim. Hoje a internet permite a troca de arquivos MP3, o que em princípio desqualificaria as gravadoras como o meio de intermediação entre artistas e público. Mais isso pode trazer consequências desastrosas porque sem a gravadora, nenhum artista - bom ou ruim - tem como divulgar seu trabalho. As gravadora já estão tendo que despedir funcionários, enxugar seu corpo administrativo. Mas fica a pergunta: quem vai prestar o suporte técnico para que o artista realize sua gravação e posteriormente a divulgue? Um cenário musical composto apenas de artistas independentes ainda é impensável, utópico.


FOLHA DA PRAÇA - Como o senhor vê a recente onda de relançamentos das grandes gravadoras? Coleções como Odeon 100 Anos ou os Arquivos Warner tem resgatado discos fundamentais de todos os períodos da música brasileira.


LEON BARG - Não posso responder pelas intenções das gravadoras e, pra ser honesto, tenho tanto trabalho com meu projeto de resgate que não sobra tempo pra acompanhar esses relançamentos. Entretanto, me parece que para grandes gravadoras é muito interessante fazer relançamentos. Elas almejam basicamente o lucro, são filiais e devem explicações ao exterior. O disco antigo não produz encargos financeiros. Já foi gravado. É só recuperar a matriz e o retorno quase sempre é certo. Até as capas são as mesmas. São pagos apenas direitos artísticos de contrato (nos casos em que foram feitos) e, naturalmente, o direito autoral. Mas isso sai barato. Muitas vezes, o que é vendido como resgate cultural, nada mais é do que liquidação. A Revivendo, ao contrário, elabora discos a partir de gravações isoladas, ou seja, além do esforço tecnológico, há também o modelo conceitual. Nós não relançamos discos. Montamos discos novos a partir de gravações antigas.


FOLHA DA PRAÇA - Além dos aspectos comerciais, o grande público não teria se afastado da música brasileira do começo do século XX por ela ter se tornado muito referencial da sua própria época, ou pra usar um termo corrente, ela não ficou "datada"?


LEON BARG - Durante as décadas iniciais do século XX, a Música Popular Brasileira passou por estágios, por evoluções técnicas e artísticas. Mesmo a música internacional. Compare, por exemplo, as primeiras gravações de Bing Crosby e as que ele fez já na década de 40. É perceptível a melhora. Já uma cantora como Pepa Delgado não evoluiu no decorrer da carreira. Algumas canções e alguns artistas não ficam datados, não permanecem isolados, circunscritos a um período de tempo. São atemporais. Não vou nem mencionar a música erudita que possivelmente ainda vai ser ouvida daqui a uns 300 anos. Agora, a ironia poética de um Noel Rosa da década de 30 é mais atual e instigante do que a maior parte das coisas que aparecem hoje na televisão.


FOLHA DA PRAÇA - O resgate e até mesmo a re-popularização desses artistas talvez passasse pela reavaliação da produção cinematográfica brasileira daquele período.

LEON BARG - Existe um canal a cabo que faz isso (Canal Brasil). A TV Educativa também. Esses dias vi um documentário muito bem feito sobre Carmen Miranda, mas penso que a divulgação desses programas ainda é um pouco deficiente. A verdade é que o cinema e, posteriormente a televisão, também serviram para associar a música à imagem do cantor, ou cantora. Hoje a mídia não abre mais espaço pra cantora feia.

FOLHA DA PRAÇA - Exceto a Maria Bethânia.


LEON BARG - Que é um caso atípico.


FOLHA DA PRAÇA - A Revivendo publicou uma biografia sobre Francisco Alves. Existem outros projetos nesse sentido?


LEON BARG - Não. esse livro foi escrito por Abel Cardoso Filho, já falecido. Ele trabalhou 9 anos nessa pesquisa. Mas foi uma situação particular. Não é nossa intenção continuar lançando publicações. Isso compete ao Ministério da Cultura. Lamentavelmente estamos desiludidos. Pura continuidade. Assim vivemos eternamente em berço esplêndido.


FOLHA DA PRAÇA - Apesar de tudo, o senhor parece bastante animado.


LEON BARG - Quem quiser viver do comércio de discos de 78 RPM (rotações por minuto), morre de fome. Os colecionadores falecem e a primeira atitude das viúvas é jogar fora ou vender pra outro colecionador. Governo não compra, museu também não. Há interesse no meu acervo por parte do Instituto Moreira Salles (IMS), mas eu soube, por terceiros, que a quantia oferecida por eles é irrisória (o IMS veio a adquirir a coleção de Barg, por ocasião de sua morte, em 2009). Eu sei o que vai acontecer com os meus discos, apesar dos meus netos serem muito jovens. Essa é uma empresa familiar que se mantém. Se vai longe, não sei. Não dá dinheiro.



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Gravadora Revivendo

http://www.revivendomusicas.com.br/index.asp


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Adendo: Discos de 78 RPM foram produzidos entre 1902 e 1964. Foram substituídos pelos discos de 33 RPM, em vinil, que ofereciam maior durabilidade e maior número de sulcos. Isso significava a possibilidade de gravar mais músicas do que num 78. As gravadoras ainda tentaram um formato intermediário, o 45 RPM, que não vingou. A composição do 78 era uma mistura de carnaúba e derivados de petróleo que resultava num material de composição pesada e, ao mesmo tempo, frágil. Ainda podem ser encontrados em sebos. O difícil é achar toca-discos que comportem esse formato.



 

 

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