terça-feira, 26 de maio de 2020

POLYVOX
João Cândido Martins


Com 15 anos, minha referência musical eram os discos de MPB da minha mãe. O rock dos anos 80 não me interessava muito e eu cheguei a achar que nunca ia conseguir gostar de um rock na vida. Até que alguns colegas do Colégio Militar de Curitiba (como o Luiz Junior, o Romeu Bruns, o Marco Farracha Guedes e o Emerson Almeida) ali por 87, 88 me apresentaram bandas como Black Sabbath, Led Zeppelin, Pink Floyd, Deep Purple, Yes e outras. Foi como se uma chave girasse na minha cabeça e passei a me interessar pelo rock 60/70. 

Naquele mesmo ano de 88, o Colégio Militar de Curitiba fechou as portas e eu fui estudar no internato do Colégio Militar de Porto Alegre. Foi quando minha mãe me presenteou com esse rádio. Um Polivox RG 700 que levei comigo. Era o começo da era do CD, então discos de vinil e fitas k7 custavam barato. Passei a economizar dinheiro pra comprar fitas e acabei conhecendo muita coisa boa usando esse aparelho. Sgt. Peppers, dos Beatles, por exemplo, eu conheci ouvindo nesse rádio. Shine on you Crazy Diamond do Floyd também. E Made in Japan, do Deep Purple, que me custou um final de semana detido por ouvir o disco numa altura ensurdecedora. Mas não tinha como ouvir aquele disco de outro jeito... Posteriormente fui convidado a sair do Colégio Militar em função da minha completa inabilidade em ser um militar e trouxe de volta o rádio comigo.

Nele ouvi muito a Estação Primeira, uma das poucas rádios que conheci que tinha a coragem de tocar coisas mais alternativas como Van der Graaf Generator e Soft Machine. Digo "uma das", porque seria injusto esquecer o programa Art Rock, da rádio Educativa produzido pelo Beto Bittencourt e apresentado pelo Vidal Costa. Aprendi muito com esse programa e cheguei a participar de uma edição com uma gravação em cd-r de uma música dos Mutantes que na época era uma raridade: "Mande um abraço pra velha" (hoje essa música pode ser facilmente encontrada na internet).

Em 1999, o saudoso amigo Giuliano Andreso me convidou para tocar no grupo que ele estava formando com o Ades Nascimento: os Nefelibatas. A banda originalmente iria se chamar Companhia Nefelibata de Música Onírica e também contava com a Flavia Saut nos vocais. Eu aceitei o convite e resgatei o rádio pra usar nos ensaios, etc. Os microfones do aparelho registravam tudo com perfeição. Várias fitas dos primórdios dos Nefelibatas foram gravadas usando esse aparelho. Eu ainda tenho uma ou duas. 


Depois, o rádio adormeceu por uns anos até que um dia, foi vítima de uma queda e nunca mais voltou a funcionar. Mas ele está inteiro. Pode ser que um dia eu me dê ao trabalho de levá-lo a uma eletrônica pra ver se ele pode ter uma sobrevida, mas acho que ele está curtindo a aposentadoria. Todas as pessoas que vêm à minha casa querem olhá-lo e tocá-lo, como se fosse uma relíquia sacra. Ele deve gostar.




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